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Estado de Minas MÍDIA E PODER

Prova de tratamento precoce é segunda bala de prata da CPI em Bolsonaro

Em quase 150 dias, senadores só tinham a bala de prata da leniência na compra da vacina e perdiam tempo com o que não lhes cabia ou em investigações sem futuro


23/09/2021 07:00 - atualizado 23/09/2021 07:16

Ele nunca negou, nem no parlatório da ONU, o curandeirismo
Ele nunca negou, nem no parlatório da ONU, o curandeirismo (foto: Michael M. Santiago-Pool/Getty Images/AFP)
Depois de quase 150 dias de atividades, a CPI da Pandemia conseguiu acertar uma segunda bala de prata em Jair Bolsonaro, nos casos comprovados de mortes por  tratamento precoce no hospital Sancta Maggiore da Prevent Senior.

São estarrecedores os dois casos descobertos num mesmo dia, de que o  renomado pediatra Anthony Wong  e a mãe de Luciano Hang foram tratados com o coquetel de tudo quanto é fetiche curandeirista do bolsonarismo e sepultados com prontuário fraudado para omitir a infeção por Covid.

A primeira havia sido a leniência comprovada na compra de vacinas da Pfizer, que prorrogou o início de salvamento de vidas brasileiras em nome de teorias negacionistas e de demonização da vacina de um adversário político, a Coronavac.

Esse coquetel inútil e muitas vezes fatal, de cujas mortes havia muitos relatos e nenhuma prova, é uma marca registrada indissociável de Jair Bolsonaro. Ele nunca negou,  nem no parlatório da ONU , o curandeirismo que levou milhares de seguidores fiéis à morte.

Mas é gritante o número de casos de que se tem notícia de morte pela teimosia de não se tomar a vacina e de se tratar apenas com a receita mística (pelo menos dois casos e assustadores só no meu entorno), cuja fonte principal foram as recomendações do presidente da República.

Obedecidas com um fervor que desafia qualquer explicação racional. Devem perdurar por muito tempo as tentativas de entender o estranho poder de Bolsonaro de convencer tanta gente a conspirar contra seus próprios e mais básicos instintos de sobrevivência.

Ainda que não prove, a CPI fez estrago retumbante, que é para o que em geral serve esse tipo de comissão. 

Criada para apurar precipuamente a leniência do governo na compra de vacinas, ela atirou entre uma bala e outra para todo lado.

Perdeu muito tempo com o que não lhe cabia — como o combate a fake news — e, no desespero de encontrar algo mais punível que ligasse a tragédia à cadeia de comando do planalto, embrenhou pelo caso da Covaxin.

Que acabou, depois de longas semanas de obsessão, tão sério quanto inútil para pegar o presidente da República, na medida em que mirava um contrato que não houve. Soava como uma maracutaia, mas que foi abortada a tempo, num telefonema de Bolsonaro a Pazuello.

Estamos todos de acordo que, como todas as outras, a CPI da Pandemia é um espetáculo de molde circense em que criar fatos políticos para promover egos ou desmoralizar adversários supera de longe o interesse pela busca da verdade.

De que os interrogatórios dirigidos do relator Renan Calheiros, as intervenções moralistas do presidente Omar Aziz e as intervenções gritadas do vice Randolfe Rodrigues, são os melhores exemplos.

Os três próceres da comissão estão no centro de uma ribalta comum por onde desfilam os mais iluminados egos interessados em espremer os depoentes, mais para efeitos midiáticos do que de apuração.

Não me esqueço da cena em que um senador se esforçava por defender seu ponto de vista contra a quebra de sigilo injusta da Brasil Paralelo, um canal de documentários fundamentados que só tratou de vacina em um vídeo muito esclarecedor.

Ao fundo, se ouvia os gritos de Randolfe, cuja melhor definição é de histeria:

— Ele é inimigo do vírus! É inimigo do vírus!

É o tipo de fundamento padrão que embasa muitas das decisões dos senadores, como nessa em que pediram de cambulhada a quebra de sigilo de tudo quanto é site ou canal bolsonarista que julgavam estar ganhando dinheiro com fake news, inclusive, absurdamente, a rádio Jovem Pan.

Com a prova do coquetel assassino agora, porém, ela se redime um tanto das tantas cabeçadas que veio dando nos quase 150 dias para pegar o presidente no porrete e animar algumas biografias internas.

E confirma a sina. Como toda comissão parlamentar que se pretende de inquérito, é aquele tipo de instrumento da oposição, como a obstrução. Um mal necessário que irrita, que não sabe muito bem onde vai chegar, mas, onde quer que chegue, oferece algum resultado.

Quer dizer: Bolsonaro não morre e nem deve responder por nenhuma de suas balas. Mas foi alvejado como nunca no que lhe resta de respeitabilidade para administrar um país. É para isso, atirando no que viu e acertando no que não viu, que as CPIs servem.

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