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Brasil e Argentina se reaproximam, para o bem desses grandes vizinhos

Novos ventos sopram a favor das relações entre as duas maiores nações do Mercosul, depois da crise política entre o presidente de direita Jair Bolsonaro e o recém-empossado presidente argentino Alberto Fernández, peronista


postado em 18/02/2020 04:00 / atualizado em 18/02/2020 08:46

A Casa Rosada, residência do governo argentino, precisa do apoio do Brasil para sair da recessão, assim como o parceiro tupiniquim necessita retomar as vendas na terceira maior economia da América Latina(foto: wikpedia.org 30/1/15)
A Casa Rosada, residência do governo argentino, precisa do apoio do Brasil para sair da recessão, assim como o parceiro tupiniquim necessita retomar as vendas na terceira maior economia da América Latina (foto: wikpedia.org 30/1/15)


O agronegócio, o mais moderno e eficiente dos setores produtivos brasileiros, acaba de demonstrar que é também o mais ágil em seus avanços no comércio internacional. Na semana passada, Brasil e Argentina deram os primeiros passos de uma nova etapa em suas relações comerciais no campo da agropecuária.

Depois de uma reunião bilateral realizada em Brasília, representantes do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa) firmaram com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, um inédito entendimento destinado a intensificar e a diversificar o comércio entre os dois países. Para começar, o Brasil poderá fornecer sêmen suíno e carne de rã aos argentinos. Em troca, os argentinos vão concorrer no mercado brasileiro de reprodutores bovinos. Outros negócios virão.

O mais importante é que esse acordo não é um fato isolado. Na verdade, novos ventos sopram a favor das relações entre os dois maiores membros do Mercosul. Depois de estranhamentos de caráter político entre o presidente Jair Bolsonaro (de direita) e o recém-empossado presidente argentino Alberto Fernández (peronista), a reaproximação entre os dois líderes tornou-se inevitável.

Terceira maior economia da América Latina (depois do Brasil e do México) a Argentina ocupa o terceiro lugar no ranking do destino das exportações brasileiras, disputando com os Estados Unidos o posto de principal importador de nossos produtos manufaturados.

Automóveis, aviões, produtos siderúrgicos, calçados e açúcar refinado encabeçam a lista de manufaturados, enquanto soja, petróleo e minério de ferro compõem a exportação de primários. A crise econômica da Argentina, agravada a partir de 2018, tem contribuído para a lentidão da retomada do crescimento do nosso parque industrial.

De fato, as vendas externas de muitas indústrias brasileiras caíram entre 20% e 30% nos últimos três anos, por causa da retração dos negócios com a Argentina. Por não alcançar níveis de competitividade para buscar com sucesso mercados alternativos aos da América Latina, a indústria brasileira reflete a crise argentina, registrando fraco desempenho.

ESTRAGO POPULISTA

É, portanto, evidente que interessa ao Brasil, particularmente, à indústria nacional, que a Argentina se recupere de suas crises, volte a crescer e a importar manufaturas brasileiras. Não vai ser fácil. O estrago feito no país vizinho por desastradas administrações levou a economia local a uma situação ainda mais grave do que a do Brasil na década passada.

Foram mais de 20 anos de populismo alimentado por gastos públicos e endividamento do governo, além de medidas equivocadas que sufocaram o setor privado: tabelamentos de preços, aumento descabido de salários e taxação de exportações. Para piorar, a Argentina se endividou em moedas fortes, tornando mais difícil a sua recuperação.

No fim de 2001, o governo não tinha mais como honrar seus compromissos e decretou a maior moratória da história do mercado internacional: US$ 100 bilhões. A Argentina passou à condição de pária do mundo financeiro, tendo dificuldade de acesso ao crédito e sofrendo o ataque dos chamados fundos abutres, que pressionavam para resgatar seus títulos a qualquer preço.

Em 2015, com a eleição de um governo sem ligação com os autores da quebradeira, a Argentina reviveu a expectativa de que voltaria à prosperidade que tinha marcado seu passado, quando teve renda per capita de Primeiro Mundo. Durou pouco. A tibieza do governo impediu que medidas de austeridade tivessem a profundidade e a duração necessárias.

O país apelou ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que lhe concedeu um financiamento de US$ 50 bilhões em troca de um programa de austeridade. No ano passado, os peronistas voltaram ao poder com a eleição de Fernández, que, por sua vez, assustou os credores ao anunciar que evitaria medidas de austeridade.

INFLAÇÃO DE 53,8%

O anúncio elevou a inflação anual para 53,8% e desvalorizou a moeda em relação ao dólar, enquanto o PIB recuava 2,5%. Ou seja, se já estava difícil pagar a dívida externa do país, a conjuntura cambial só agravou a situação. Mas o novo governo parece ter percebido a tempo que, em vez de confronto com os credores, o mais sensato seria aceitar a austeridade e renegociar o prazo e o custo da dívida com o FMI.

Para isso, será importante o apoio do Brasil, país bem-visto pelo Fundo, por estar fazendo seus deveres de casa no plano fiscal. O presidente Bolsonaro já se declarou favorável e deve ter um encontro com Fernández em março. Os chanceleres dos dois países já se reuniram em Brasília e tudo parece caminhar bem.

Para o Brasil, é urgente recuperar a Argentina. Para os dois, é melhor negociarem juntos os avanços em relação ao acordo do Mercosul com a União Europeia. Há muita coisa em jogo para se permitir que a rivalidade entre a Argentina e o Brasil vá além do futebol. Essa, aliás, não tem cura mesmo.

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