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Estado de Minas Comportamento

Quem está à sua altura?

"Não se interessa por rapazes mais baixos"


04/10/2020 04:00


 
Para os padrões da época em que vivi a infância e a adolescência, minha estatura era incomum para meninas. Eu era comprida, varapau e ”espanador da Lua”, diziam os preocupados em me provocar. E conseguiam. Estopim curto e muita força nos braços, eu partia para a luta corporal, o que me valeu também o apelido preconceituoso de “Maria tomba homem”.
 
O tempo passou e tudo acabou como acabou. Fiquei de fato alta, mas nem tanto se comparado com muitas meninas atu- almente. Hoje, me tornei uma “menina” comum, o que pode ser comprovado pelo comprimento das calças que compro. Quando mais nova, ficava tudo pega-frango. Agora, muitas vezes, chego a precisar fazer bainha. Lei da oferta e da procura.
 
Estou dizendo tudo isso porque outro dia me deparei com a problematização de uma jovem em relação à sua estatura. Filha de pais altos, herdou-lhes as pernas longas. Oito a mais que eu. O problema é que ela vê nisso um fator muito prejudicial no que se refere a parceiros para namorar e prosseguir em um relacionamento até que construa uma família, que vem a ser um desejo muito grande. Não consegue se interessar por rapazes mais baixos que ela, num país em que a estatura mediana dos homens é de 1,73m.
 
Tive poucos namorados mais altos que eu e acabei me casando com um homem que me ultrapassa em um único centímetro. Qualquer saltinho que eu coloco, acabo olhando-o de cima para baixo, o que para nós nunca foi um problema. Apenas nunca consigo que ele coloque o braço sobre meus ombros, mas o que isso importa? Quando fazemos uma foto de família, eu, meu marido e meus dois filhos, parece que nos passaram uma régua sobre as cabeças. Todos no mesmo nível.
 
Lembro-me de que na escola eu sempre era a última da fila, o que era considerado coisa ruim, como ser a primeira também não era uma boa posição. Ninguém quer ficar nos extremos, ser diferente dos demais. As escolas nunca se preocuparam em discutir esse assunto, o que acaba reforçando a péssima ideia de que, no quesito casais, o ideal é que os homens sejam mais altos que as mulheres, assim como sejam mais velhos que elas e tenham remunerações melhores. Afinal, fomos construídos e nos mantemos sobre bases machistas.
 
Não vemos nada de mal ao assistir às nossas filhas fazendo apresentações de dança desde o maternal, formando pares com meninos mais altos, mas morremos de dó ao vê-las com dificuldade de encontrar parceiros “à altura” quando adultas. Como resultado, anos depois que saem da escolinha temos casos como da jovem que coloca a estatura no mesmo nível de valores como ser bom caráter, se identificar com as mesmas coisas, para balizar suas escolhas amorosas. O pior é que ela reconhece que tudo isso não passa de uma bobagem, mas essa bobagem está tão introjetada que lhe tira a razão. Até quando?

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