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Estado de Minas MODA & MERCADO

Calendário fashion

Crise aberta na moda pelo novo coronavírus reabre discussão sobre datas de lançamentos


postado em 10/05/2020 04:00

Wagner Penna
 
Charth Inv 2020(foto: JOTA STUDIO DIVULGAÇÃO)
Charth Inv 2020 (foto: JOTA STUDIO DIVULGAÇÃO)
 

Desde que desfiles de lançamentos, feiras e salões de moda foram cancelados pela virulência avassaladora da Covid-19, a grande indagação que passou a tirar o sono de quem trabalha no setor é quando e como será o retorno ao trabalho no circuito fashion.
Nas últimas semanas, diversas lives entre os empresários, estilistas e outros profissionais da área buscavam soluções para o assunto – finalizando em um documento da Abravest, onde é sugerido um novo calendário da moda. Resultou, inclusive, em marcação de novas datas para os salões paulistas de negócios de moda, remarcados para o próximo mês de julho – por enquanto.

Pandemônio O clima de perplexidade que assola todos os setores por causa do novo coronavírus, alcançou a moda de modo especial, e em um momento muito delicado. A chegada do vírus e as providências radicais para amenizar suas consequências ocorreram quando os lançamentos de inverno na pronta entrega por atacado estavam prestes a começar, no início do mês de março, e as feiras de pedido antecipados, em abril. Sem contar que o processo de entrega da coleção invernal aos lojistas, que fizeram pedidos programados, no final do ano passado, estava no meio.
 
Assim, a pandemia do vírus gerou um pandemônio fashion. E foi justamente esse quadro que levou às discussões sucessivas sobre estabelecer um novo ca- lendário. Por novo calendário fashion entenda-se as datas de lançamentos das coleções pelas marcas para os lojistas, novo momento de lançamentos das novidades nas lojas e novo período para as liquidações nas lojas.
 
Consultor de moda Francisco Santoro(foto: Divulgação)
Consultor de moda Francisco Santoro (foto: Divulgação)
 
 
Resumindo, a nova proposta seria voltar ao modelo usado na fase pré-fast fashion, com coleções antecipadas para outono-inverno e primavera-verão, eliminando o disparate das coleções quase semanais atuais, recolocar as liquidações no momento certo (e não queimar o inverno em pleno frio de junho ou o verão em pleno calor de janeiro) e valorizar mais a qualidade e a criatividade das coleções, e não tratar o produto moda como commodity linear e pasteurizada. Tudo para enfrentar o inevitável enxugamento do varejo, do mercado e da própria economia na fase pós-vírus.

Calendário O calendário proposto pela Associação Brasileira dos Estilistas (Abest), em carta aberta, sugere que as coleções de verão sejam lançadas pelas marcas no final de junho, cheguem às vitrines das lojas a partir de agosto/setembro, as entregas confecções/lojas continuem de agosto a novembro e que as liquidações do verão ocorram em fevereiro. Já o inverno seria lançado pelas marcas na segunda quinzena de janeiro, chegaria às lojas em março, as entregas prosseguiriam até junho, e as liquidações invernais nas lojas em agosto. Excepcionalmente, neste 2020, o verão’2021 será lançado em julho. Os salões (como NovoShowroom, Casamoda, Contemporâneo e outros) estão previstos para 6 e 10 daquele mês, em São Paulo.
 
Rogério Vasconcellos, diretor do Sindivest-MG e proprietário da marca R. Vasconcellus(foto: Arquivo pessoal)
Rogério Vasconcellos, diretor do Sindivest-MG e proprietário da marca R. Vasconcellus (foto: Arquivo pessoal)
 
 
A ideia teve apoio formal de vários segmentos da moda, incluindo sugestões de integrantes da cadeia fashion, caso do salão de negócios NovoShowroom, feira da qual participam várias marcas mineiras. Uma delas é a Printing, cuja proprietária, Marcia Queiróz, destaca que “o setor precisava mesmo de um novo calendário, porque as datas de lançamentos estavam erradas, as épocas de liquidações erradíssimas e com a consequente descapitalização de todo o sistema”. Ela ressalta que o calendário atual deixa os lojistas muito penalizados, os confeccionistas angustiados em busca de matérias-primas, o tempo apertado para entrega e falta de lógica para vender, pois isso não acontece, tem hora certa. Lembra, inclusive, que “na verdade, estamos voltando ao calendário antigo, onde tudo era antecipado e obedecia a uma sequência lógica e prática”.
 
Outra que participa do salão é a grife Villa Condotti. Cláudia Fagundes destaca o fato de ser também uma das marcas fundadoras do evento. Para a ela, a realização da edição de julho próximo é oportuna e há expectativa positiva em relação aos seus resultados.
 
 
Circuito mineiro avalia nova agenda
 
Em Minas, ainda não houve um movimento coordenado nesse sentido, porque “preferimos esperar mais e fazer algo definitivo do que correr o risco de mudar tudo, repentinamente, por causa das restrições impostas pelo distanciamento social”, explica o diretor do Sindivest-MG, Rogério Vasconcellos.
 
Para ele, ainda é cedo para estabelecer um novo calendário fashion, diante das incertezas sobre a duração das restrições geradas pela Covid-19 e os efeitos, a longo prazo, da pandemia sobre o quadro econômico. Especificamente sobre as feiras de moda mineiras, ele diz que seria prematuro falar sobre decisões em torno do Minas Trend, inicialmente marcado para outubro próximo – lançando o inverno’2021 – diante do quadro atual, que está em constante mutação. A edição de abril – lançamento do verão’ 2020/2021, foi cancelada pela onda do novo coronavírus. Lembra o empresário (ele é proprietário da marca R.Vasconcellus) que é difícil “conciliar os interesses de quem produz, quem vende e quem compra ou até daqueles cujo negócio são os salões de moda”.

Estoque No atual momento, o principal objetivo é superar a pressão causada pelo alto nível de estoque das coleções. O transporte aéreo paralisado e o lockdown em cidades importantes do país são dois dos vários entraves lembrados por ele.
 
Sobre as perspectivas da moda mineira na fase pós-coronavírus, o representante do Sindivest-MG diz que, certamente, haverá uma redução do número de empresas no setor, mas evita precisar um percentual. No mercado, as conversas sinalizam essa redução entre 30% e 40%. Na verdade, enfatiza Vasconcellos, o importante é promover a conscientização do mercado quanto ao produto nacional, valorizar o que produzimos aqui, pois o dólar alto e os problemas internacionais não permitirão mais o retorno da importação desenfreada de confeccionados, como vinha ocorrendo recentemente.

Varejo Com o e-commerce crescendo e parte do varejo fashion fechando as portas, as lojas que continuam abertas se transformaram em joias raras no circuito da moda. Por isso mesmo, as lojas de moda são indicadores importantíssimos nas decisões do setor. Espalhadas pelas capitais e interior do país, são a mola propulsora das vendas fashion. O que elas pensam sobre as reformas no calendário de moda?
 
Para Eliete Teixeira, proprietária do espaço Mulher de Luxo, em Araxá, o ideal seria as lojistas realizarem seus pedidos de verão em julho e o inverno em janeiro. “É quando estamos finalizando as vendas no varejo da coleção anterior e, assim, temos como fazer melhor a análise do giro dos produtos de cada marca com as quais trabalhamos.”
 
Opinião parecida tem as sócias Kelen Cristina e Elisa Lucinda Silva, donas da Lucinda Maison, em Varginha, Sul de Minas, pois essa colocação de vendas do atacado, mais próxima das estações, seria mais prática e realista. Consideram que “temos que respeitar a nossa realidade e fazer acontecer de acordo com a realidade do nosso país, pois o calendário atual está atropelando tudo e prejudicando as vendas”. Sua loja está há 13 anos no mercado e compra marcas mineiras e pau- listas.

Pronta entrega No mercado de Belo Horizonte, uma das etapas mais importantes da engrenagem de criação e venda de moda envolve os chamados consultores de moda – também conhecidos como ‘corretores de moda’ –, que trazem lojistas para comprar aqui, acompanham o processo de visitas aos showrooms e, em alguns casos, até assessoram lojistas nas feiras e salões de moda.
 
É o caso do consultor Francisco (Chiko) Santoro, que define a quarentena do novo coronavírus como “momento desafiador e de muita reflexão”. Ele aproveitou esse tempo para intensificar os contatos virtuais com sua clientela e realizar um levantamento informal sobre a criação de um novo calendário de moda a partir desses contatos. Realizado na primeira quinzena de abril, o trabalho ganhou o nome de Pacto de Renovação dos Lançamentos.
 
Embora essa sugestão tenha as datas de lançamentos e promoções próximas daquelas propostas pela Abest e pelo salão NovoShowroom, acrescenta um componente bem mineiro, que são os lançamentos da pronta entrega no atacado. Nesse caso, as datas solicitadas pelas lojistas contatadas pelo consultor de moda seriam agosto/setembro para as coleções de verão, e final de fevereiro e março para as coleções de inverno. Sugere, ainda, que as promoções nos showrooms desse segmento sejam feitas em janeiro-fevereiro (verão) e junho-julho (inverno). Outro acréscimo nesse calendário refere-se às chamadas ‘coleções cápsulas’ (microlançamentos), que mostrariam o verão entre agosto e dezembro e o inverno entre fevereiro e junho.
 
Assim, como a maioria dos integrantes da cadeia fashion, o consultor Santoro também acredita que, “a partir dessa crise, é importante criar soluções inteligentes e garantir a retomada do crescimento do setor”. 

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