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Estado de Minas

A desindustrialização e a ausência de lideranças empresariais

''Nesta nova realidade, diversamente das décadas anteriores, a indústria perdeu o dinamismo''


postado em 03/10/2019 06:00 / atualizado em 03/10/2019 08:04

Milhares de pequenos e médios industriais estão abandonados pela falta de uma política para o setor (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS - 11/7/19)
Milhares de pequenos e médios industriais estão abandonados pela falta de uma política para o setor (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS - 11/7/19)


O processo de desindustrialização é patente. Nos últimos cinco anos, a presença da produção industrial no mundo cresceu 10%. No mesmo período, no Brasil, houve uma queda de 15%. Do Produto Interno Bruto a indústria representa apenas 11%, quando já teve uma participação próxima a um quarto do PIB. Neste ritmo, o país deixará de fazer parte do rol das 10 maiores economias industriais.

São muitos os fatores que podem explicar este triste quadro. Passa pela baixa produtividade da mão de obra, por problemas econômicos dos parceiros, como a Argentina, a falta de linhas de financiamento por parte do BNDES, por problemas cambiais, entre outras razões. Mas o principal fator é a inexistência de uma política industrial. E que foi agravada ainda mais no atual governo. Também deve ser destacada a passividade das lideranças empresariais.

Qual é, por exemplo, a posição da Fiesp? Absoluta omissão – e isso onde está estabelecido o principal parque industrial nacional. Nada propõe, não debate, reivindica, sugere. Optou pelo silêncio. Vive como uma entidade burocrática, um cartório. Perdeu a condição de liderar o processo industrial, de estabelecer a ponte entre o setor e um projeto nacional de desenvolvimento. Sobrevivem as entidades empresariais como meros grupos de pressão em busca de alguma benesse estatal.

Milhares de pequenos e médios industriais estão abandonados. Lutam para sobreviver frente à concorrência desigual das mercadorias importadas. Não encontram no governo nenhum tipo de apoio. Pelo contrário, a equipe econômica joga contra a indústria nacional. É identificada com os setores importadores – portanto, que estão em conflito com os empresários da indústria – e principalmente com o capital especulativo. Além, é mais que evidente, da relação de subserviência frente ao capital estrangeiro. E todo o esforço desenvolvido pelo país desde, especialmente, os anos 1930 está sendo jogado fora.

O meio século entre 1930-1980 marcou o grande momento da economia brasileira. E a indústria jogou papel fundamental. Basta recordar que em São Paulo, com mais destaque após o final da Segunda Guerra Mundial, recebeu centenas de milhares de migrantes nordestinos (e mineiros) que foram rapidamente absorvidos como operários, mesmo não tendo, inicialmente, a qualificação necessária para o trabalho industrial.

Muitos aprendiam o novo ofício na prática, tendo como mestre o operário que operava a máquina ao lado da sua. Esta facilidade no aprendizado explica a rápida adaptação da força de trabalho a um novo padrão de produção. Enquanto na Inglaterra o processo de cercamentos dos campos levou, durante quase dois séculos, à expulsão da mão de obra para as cidades, onde estava se desenvolvendo a transição para a manufatura, no Brasil, esse processo foi muito mais veloz.

O sertanejo abandonava a miséria do semiárido e migrava em busca de emprego. Um mês depois estava empregado em São Paulo em uma fábrica e se filiava a algo que nunca tinha ouvido falar, o sindicato. Isso no mesmo momento em que obtinha o título de eleitor, transformando-se em cidadão pleno. Ou seja, ocorreu no Brasil – e a indústria foi o elemento determinante neste processo – uma revolução econômica e social numa escala raramente encontrada no continente americano. Isso explica que, naquele período, no mundo ocidental, o país tenha sido o que mais cresceu.

A industrialização teve no Estado um elemento protetor, mas também dinâmico. Foi ele que possibilitou desenvolver a infraestrutura indispensável para a expansão econômica. Esta parceria explica os altos índices de crescimento do PIB, como nunca na nossa história. A indústria fazia parte de um projeto de nação. E a forma de inserção do Brasil no mercado mundial deu-se através de uma leitura correta da conjuntura. Aproveitando-se das contradições entre os chamados países centrais, o Brasil foi se industrializando e edificando uma importante base fabril, a maior da América Latina.

A dependência do Estado acabou diminuindo a dinâmica deste processo. O setor industrial por si só não conseguiu obter autonomia. Cresceu enquanto havia fortes investimentos estatais. Quando o Estado começou a entrar em crise, a partir de 1982, com a crise da dívida externa, a indústria deu os primeiros sinais negativos.

Com a política de abertura da economia, no governo Collor (1990-1992), o setor teve dificuldade de se adaptar aos novos tempos, recordando que na última década do século 20, a China já dava passos importantes na economia internacional e o mundo socialista entrava em crise terminal. Nesta nova realidade, diversamente das décadas anteriores, a indústria perdeu o dinamismo. No século atual, políticas equivocadas – como a do PT, malbaratando os recursos do BNDES – aprofundaram a crise. E a falta de lideranças empresariais que possam desenhar alternativas viáveis ao setor, produziu este cenário desolador de desindustrialização.
 
 


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