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Estado de Minas

Os quatro grupos do governo Bolsonar

"A maior divergência deverá ser com os cruzadistas. É o polo politicamente mais frágil"


postado em 16/01/2019 07:00 / atualizado em 16/01/2019 08:37

O governo Bolsonaro é formado, grosso modo, por quatro grupos ideológicos. O primeiro é composto pelos cruzadistas, aqueles que ainda estão no final do século 11 preparando-se para reconquistar a Terra Santa. Querem libertar o Santo Sepulcro a qualquer preço. Fanatizados, desconhecem o terreno de luta. Desorganizados, lembram o exército de Brancaleone. O chanceler Ernesto Araújo é a sua mais perfeita tradução. Araújo fala e age como um cruzado. Os adversários – que para ele são inimigos – são todos aqueles que não comungam da sua guerra santa. Tenta posar de nacionalista, mas não consegue. Lê o Brasil em inglês. Em inglês com sotaque americano. Não consegue entender que o Brasil tem seus próprios interesses nacionais. Que somos um país independente, parte do Ocidente, porém com autonomia para definir o que é melhor para nós. Não agimos por nenhum efeito reflexo, vindo de onde vier. Sonha transformar Brasília em um bairro periférico de Washington. Não consegue entender que, apesar da aliança histórica com os Estados Unidos, temos contradições nos campos político e econômico. Não cabe, de antemão, apoiar ou rejeitar nenhuma proposta americana. Antes é necessário apreciar se atende aos nossos interesses nacionais. Recomendo ao chanceler ler os discursos e memorandos de Afonso Arinos de Melo Franco e Azeredo da Silveira. Foram ministros de dois governos muito distintos – Jânio Quadros e Ernesto Geisel. Estabeleceram políticas externas autônomas sempre tendo como norte o que para o Brasil era melhor. Nunca foram papagaios de nenhum governo estrangeiro, independentemente de sua ideologia. Isto é nacionalismo. Isto é defesa dos interesses nacionais.


O segundo grupo é formado pelos liberais. Seu principal representante é o poderoso ministro da Economia, Paulo Guedes. Ao longo da história republicana, nenhum ministro acumulou tanto poder na área econômica. Não há qualquer comparação, por exemplo, com Zélia Cardoso de Mello (1990-1991). Guedes acumula várias pastas e participou da escolha dos principais presidentes das empresas e bancos estatais. Sobre ele pesa a responsabilidade de elaborar as principais reformas e dar condições de uma retomada vigorosa do crescimento econômico. Não são tarefas fáceis. Principalmente para alguém não familiarizado com a máquina pública e sem traquejo político. É considerado um técnico qualificado. Montou uma boa equipe. Não teve rejeitado, pelo presidente da República, nenhum nome. Tem plena autonomia de trabalho. O desafio será o de conciliar seu liberalismo econômico com o Brasil real, com a histórica participação do Estado na economia, processo de quase um século. Terá de sinalizar ao mercado que pretende romper com esta antiga visão de mundo. Porém, encontrará no governo setores que advogam justamente o contrário. Irá negociar. Política é convencimento. E que nem sempre se obtém uma vitória completa. Dizem que o ministro tem um gênio irascível. Para sobreviver politicamente vai ter de mudar. Caso contrário, não aprovará os principais projetos do governo, especialmente as reformas que exigem quórum qualificado. E uma derrota na reforma da Previdência, por exemplo, poderá inviabilizar o quadriênio presidencial.

O terceiro grupo é formado pelos militares. É o mais importante. E o mais sólido. A coesão vem não só da carreira militar como também por uma visão de mundo construída no interior da principal força armada, o Exército. Seu líder informal é o general Augusto Heleno. Tem liderança de fato. Conhece o Brasil e entende o mundo globalizado do século 21. Combina o passado e o presente da história política militar. Deverá ser uma espécie de primeiro-ministro. Vai estar sempre na cola do presidente da República. Funcionará também como bombeiro no momento de alguma crise entre os ministros. Como camisa dez vai ditar o ritmo do governo: em alguns momentos, mais célere; em outros, valorizando a posse da bola.

O último grupo é aquele que orbita em torno do ministro Sérgio Moro. Tem enorme apoio popular. Aguarda-se uma excelente gestão à frente da pasta da Justiça e Segurança Pública. Até o momento, não deu nenhuma dor de cabeça ao governo. Estão trabalhando para dentro, preparando medidas que serão enviadas no momento da reabertura do Congresso Nacional. Imagina-se que o ministro sonha suceder ao presidente, que já manifestou ser contra a reeleição. Moro deve errar muito pouco. Será cauteloso. E vai buscar através de sua ação ministerial – construir uma sólida carreira política. Mas terá de obter resultados expressivos no primeiro ano de gestão.

Esses grupos vão ter de conviver no interior do mesmo governo. O presidente da República será o árbitro quando ocorrer disputas – inevitáveis dada a pluralidade ideológica. E deverá escolher de que lado vai ficar. A maior divergência deverá ser com os cruzadistas. É o polo politicamente mais frágil. Não têm unidade e agem por impulsos irracionais.


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