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Estado de Minas TIRO LIVRE

Episódio envolvendo Galo Doido mostra: é preciso combater o machismo

Não pode ser passada a mensagem de que é natural esse tipo de olhar sobre a mulher, esse tipo de atitude e de comportamento


postado em 21/02/2020 04:00 / atualizado em 21/02/2020 01:06

Homem vestido de mascote atleticano se desculpou por ter assediado a jogadora da equipe feminina alvinegra Vitória Calhau(foto: Rodrigo Clemente/Esp. EM/D.A Press %u2013 27/11/11)
Homem vestido de mascote atleticano se desculpou por ter assediado a jogadora da equipe feminina alvinegra Vitória Calhau (foto: Rodrigo Clemente/Esp. EM/D.A Press %u2013 27/11/11)


O episódio envolvendo o homem que se veste como mascote do Atlético e a jogadora Vitória Calhau reacendeu uma discussão que é muito necessária e não pode se encerrar com o vídeo feito pelo Atlético, com um pedido de desculpas à jogadora, ao time feminino e à sociedade. Pelo contrário. Tudo o que aconteceu desde aquele condenável gesto de assédio do homem para com a atleta, no domingo, demonstra como é necessário falar mais sobre o assunto. Explicar quão nocivo é o machismo. Esclarecer, quantas vezes forem necessárias, o verdadeiro conceito de feminismo – especialmente para quem insiste em imputar um sentido pejorativo ao termo. Diante de tantas atrocidades dirigidas a mulheres nos últimos tempos, urge ampliar o debate, para demonstrar a necessidade do movimento que luta pela igualdade entre os gêneros.

Uma passada de olhos pelos comentários nas redes sociais, em reação à iniciativa atleticana, além de embrulhar o estômago, deixa explícito o grau de ignorância das pessoas sobre o ocorrido. A forma maliciosa como o homem que se veste de Galo Doido se reporta à atleta é atenuada de todas as formas, por homens e até mulheres.

Só para o leitor da coluna Tiro Livre ter uma ideia, reproduzo alguns desses comentários, da maneira como foram escritos pelos usuários nas redes sociais. “Nossasenhora, parece que o coitado do mascote estuprou, esquartejou e ocultou o cadáver da muié. Uma brincadeira que foi problematizada e mimimitizada através dos lacradores nas redes e prog esport, a 'vítima da brincadeira”'se jogando na vitimização e histeria sem sentido”, escreveu o usuário Felipe (@felipenine).

“Legal... Mas parece que o cara cometeu um crime hediondo. Menos gente, bem menos. Não houve nenhum desrespeito com a atleta, houve uma brincadeira feita por um personagem caricato. Infelizmente o mimimi Ta dominando a sociedade”, postou Mauricio Cardoso (@mcardoso78). Na mesma linha, Gabriel Silva (@BielSiilva1904) “indagou”: “O galo doido espancou a moça foi? Kkkk meu deus hoje em dia é muito mimimi, daqui uns dias temos que primeiro pedir desculpas por ser homem”.

Até mulheres deixaram comentários machistas. “É por isso que esse pessoal sobe em cima. O cara não fez nada, manda uma banana para os histéricos do politicamente correto”, postou Viviany Estevam (@viviany_estevam). Maria IsAbel Aliança pelo Brasil (@misabelmelo1) escreveu: “Ridiculo Atletico obrigar funcionário escrever carta pedindo perdão por falta que ele não cometeu isso sim é assédio tomara que esse funcionário um dia processo o galo por esse absurdo como torcedora deixo meu repudio a diretoria e a essa porcaria de time feminino”.

Muita gente ainda não entendeu que o caso merece sim toda a polêmica e os clamores por repreensão. Porque um gesto daquele não pode ser relativizado. Não pode ser passada aos 15 mil torcedores que estavam no Mineirão e a tantos outros que acompanharam a cena de longe – entre eles, crianças – a mensagem de que é natural esse tipo de olhar sobre a mulher, esse tipo de atitude e de comportamento. Os desdobramentos do machismo, as consequências nefastas que chegam a agressões físicas e feminicídio começam assim.

Movimento muito semelhante ocorreu no lançamento do uniforme do Atlético em 2016, quando foram colocadas modelos desfilando de biquíni. A coleção não contemplava artigos de beachwear, não havia homens de sunga na passarela, nada justificava a presença feminina naqueles trajes, a não ser, claro, a exposição do corpo das modelos. O único contexto era o da objetificação.

Na ocasião, fui interpelada por um representante do clube que discordava da minha indignação pública sobre o fato. Não faltaram torcedores associando as críticas às feministas (obviamente, deslegitimando a causa), considerando “mimimi” o barulho causado nacionalmente e até colegas jornalistas afirmando não se tratar de machismo ou exposição gratuita das mulheres. Foi exposição gratuita sim. Foi machismo.

A cada exemplo desse fica claro como é necessária a desconstrução do machismo na nossa sociedade. Os clubes de futebol precisam reconhecer sua importância nesse processo de conscientização e partir para ações mais con- cretas. A parte mais importante do vídeo divulgado pelo Atlético foi a declaração de Vitória Calhau reafirmando quão errado foi o comportamento do homem vestido de mascote, diante dele, ainda que aceitasse as desculpas. O Atlético (e outros clubes) poderiam aproveitar a ocasião para um trabalho interno e externo sobre o machismo. Sem teatralização. Com a palavra de psicólogos, de especialistas sobre o assunto. Só assim há esperança de que realmente as lições de mais um triste episódio tenham sido aprendidas.


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