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Estado de Minas COLUNA DO JAECI

De todos os dirigentes, Elias Kalil foi o maior que vi em atividade

Foi uma pena ter havido um Wright no caminho do Atlético. Não fosse ele, o Atlético teria conquistado o continente e o mundo, tamanha a capacidade daquele time que o doutor Elias montou


postado em 02/02/2020 04:00

Mesmo tendo presidido o Atlético somente por cinco anos, a obra de Elias Kalil na presidência tem caráter histórico(foto: ARQUIVO EM/D.A PRESS)
Mesmo tendo presidido o Atlético somente por cinco anos, a obra de Elias Kalil na presidência tem caráter histórico (foto: ARQUIVO EM/D.A PRESS)

Começo dos anos 1980. Estudante da Universidade Gama Filho, apaixonado pelo Flamengo, eu não perdia um jogo no Maracanã, pertinho da minha casa, em São Cristóvão. Eu ia e voltava a pé. Confesso que vi muitos craques e estava cansado de ver Zico destruir defesas adversárias. Porém, quando o jogo era contra o Atlético, que no Rio chamamos de Atlético Mineiro, eu me encantava com dois gênios. Um, dentro de campo, Reinaldo. Em entrevista a mim, na Turquia, Zico disse: “Não fossem as contusões, Reinaldo seria um novo Pelé”. Ele tem razão. O outro gênio não estava dentro dos gramados, mas fora dele: o doutor Elias Kalil, presidente eterno do Clube Atlético Mineiro. E por que eu idolatrava um cara que eu nunca tinha visto e nem conhecia pessoalmente? Simplesmente porque ele era genial, visionário e montara o maior time da história do Atlético: João Leite, Nelinho, Luisinho, Osmar Guarnelli e Jorge Valença, Chicão, Cerezo, Palhinha, Pedrinho, Reinaldo e Éder. Eu ia para o Maracanã e sabia que dificilmente o Flamengo venceria, mesmo tendo Zico, Adílio e cia. Kalil era um dirigente de pulso firme, um pai e um cara respeitado, nacional e internacionalmente.

Criei um perfil no Twitter apenas para espantar os fakes. Há muitos com o meu nome. Não o uso. Mas recebo as mensagens de quem tem. Sexta-feira, Alexandre Kalil, filho do doutor Elias, o mais vencedor presidente da história do Atlético, publicou em seu Twitter o comentário do também saudoso e meu amigo Osvaldo Faria, o maior radialista da história de Minas Gerais, gravado no dia da morte do doutor Elias, em 21 de setembro de 1993. Foi de arrepiar. Sábias palavras do homem que tinha “Coragem para dizer a Verdade”. Assino embaixo de tudo o que ele escreveu e falou. Em 1986, me mudei para Belo Horizonte, oriundo da Globo Rio e Globo Juiz de Fora. Pude, então, realizar meu sonho de conhecer o doutor Elias. Várias vezes fui à sua casa fazer entrevistas pela TV Manchete ou pela TV Globo de BH, ali em frente ao antigo Chico Mineiro. Entrei na casa dele e tremi. Eu estava diante de um mito, de um cara que eu admirava. Alexandre era jovem, como eu. Somos da mesma geração. Ele ficava na poltrona, assistindo à entrevista, calado, observando. Doutor Elias era uma sapiência, pensava na frente 20 segundos, uma espécie de Reinaldo fora de campo, tamanha sua genialidade. Como aprendi com ele. E, vale lembrar, como muito bem disse Osvaldo Faria, Doutor Elias montou uma equipe de trabalho nobre e poderosa: Ivo Melo, Temer Maurício Ferreira, Marum Patrus, Evandro de Pádua Abreu. O conselho do Atlético era formado por desembargadores, juristas, políticos do mais alto nível, todos seguidores daquele craque chamado Elias Kalil.

Foi uma pena ter havido um Wright no caminho do Atlético, pois, sem dúvida nenhuma, não fosse ele, o Atlético teria conquistado o continente e o mundo, tamanha a capacidade daquele time que o doutor Elias montou. Era a base da Seleção Brasileira de Telê Santana. Diga-se de passagem, Zico e cia não têm culpa das cagadas de Wright. Flamengo e Atlético eram seleções. Contaram-me uma passagem da final de 1980, no Maracanã, quando o doutor Elias, sempre gentil e receptivo, convidou seu colega, Márcio Braga, para jantar em seu apartamento, no Leme, logo após o jogo Flamengo 3 x 2 Atlético, decisão do Brasileiro daquele ano. Pelo que o árbitro e os bandeiras fizeram com o Galo, doutor Elias ficou possesso. Márcio Braga chegou por volta das 21h, pediu ao porteiro para interfonar e a resposta do doutor Elias foi imediata: “Diga a ele que não vou recebê-lo em minha casa”. Desligou, e Braga saiu com o rabinho entre as pernas, entendendo a mensagem. Doutor Elias era um homem justo, mas não admitia que roubassem seu Atlético. O Galo era admirado no exterior, convidado para torneios de verão. Quem não queria ver Reinaldo, Éder, Cerezo e cia?

Doutor Elias foi presidente de 1980 a 1985, mas parece que foi mais, tamanha sua capacidade de administrar. Ganhou todos os troféus Guará e foi pentacampeão mineiro com aquele time imbatível, que só perdia para as arbitragens. Foi ele quem comprou o terreno e iniciou as obras da Cidade do Galo, um orgulho para os atleticanos. Em 21 de setembro de 1993, já no jornal Estado de Minas, onde trabalho até hoje, fui escalado para a missão das mais difíceis da minha vida: cobrir o velório e o enterro daquele dirigente que eu admirava, idolatrava, mesmo sem ser eu atleticano. Foi difícil. Dei um abraço em Alexandre, em Dona Leila e na Giselle, filha do casal, e fiz a reportagem que eu jamais queria fazer. É da vida. Doutor Elias foi embora muito jovem, aos 63 anos, mas deixou um legado, uma história que muitos que viveram 100 anos jamais escreveram ou teriam escrito. Meu ídolo como dirigente já não estava mais nesse plano, mas nunca me esqueci das entrevistas em sua casa, na sede do Galo, seu olhar por trás dos óculos, sua firmeza como homem correto, honesto e decidido. Que ele continue descansando em paz.

Mas a obra do doutor Elias não estava terminada. Havia alguém que aprendera tudo com ele e que poria em prática anos depois, recuperando aquilo que do seu pai tomaram. Alexandre Kalil, que também chamo de eterno presidente do Atlético, ganhou a Libertadores de 2013, 33 anos depois que derrubaram o Atlético no Serra Dourada na “mão grande”. E, de lambuja, ganhou a Copa do Brasil de 2014 e a Recopa Sul-Americana. E assim que o juiz apitou o fim do jogo contra o Olimpia, em entrevista, Alexandre Kalil olhou para o céu e disse: “Esse título da Libertadores é para o meu pai”. Uma justa homenagem a quem realmente fez a diferença no futebol brasileiro. Osvaldo Faria é um dos meus ídolos no jornalismo, e seu comentário foi de arrepiar. Me fez relembrar os velhos e bons tempos em que eu ia entrevistar o doutor Kalil e, depois da entrevista, ficava admirando-o e ouvindo suas histórias e seus ensinamentos sobre futebol. Descanse em paz, doutor Elias. O senhor sempre terá a minha admiração, meu respeito e minha gratidão. E, tenho certeza, do orgulho que o senhor tem aí em cima do seu filho. O presidente mais vencedor da história do seu Galo, um gestor com G maiúsculo, que hoje governa BH com a mesma competência de quem tirou o Galo de uma fila imensa sem taças. Fica aqui a minha homenagem e o meu respeito ao senhor, num dia em que mais uma vez chorei a sua morte com o comentário brilhante do também saudoso Osvaldo Faria, por quem também chorei, na Contorno, quando Emanuel Carneiro anunciou na Itatiaia a morte dele, em Paris. Os ídolos não morrem jamais. O senhor, doutor Elias – era assim que eu o chamava –, é eterno!


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