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Estado de Minas COLUNA HIT

Canção de Chico César é abordada por Ronaldo Fraga em ''Qual é a Música''

Os reis do agronegócio é, na visão do estilista, "um hino-manifesto contra a velha chaga brasileira da exploração desenfreada"


03/10/2021 04:00 - atualizado 02/10/2021 09:25

O agro-business que envenena a terra
Ilustração de Marcelo Lelis

Ronaldo Fraga
Estilista

Todos os movimentos de resistência à ditadura militar tiveram a chamada MPB como um dos mais fortes aliados na tomada de consciência do que se passava de verdade nos porões do regime. Célebres composições daquele período, hoje, nesse momento de cheiro de enxofre no ar e renitentes ameaças à democracia, soam mais atuais do que nunca. “Divino e maravilhoso”, de Gil e Caetano (1968); “A hora do almoço”, de Belchior (1971); ou “Comportamento geral”, do Gonzaguinha (1973), são alguns exemplos da força da poesia musical como vetor de manifesto contra o autoritarismo e alienação política em qualquer época. A música brasileira naquele período nos deu coragem pra seguir viagem quando a noite veio e continua fortalecendo, seja com as históricas composições ou com os artistas contemporâneos.

Se ontem nas trincheiras da resistência entoamos Chico Buarque, hoje temos a força poética-política do paraibano Chico César. A composição “Os reis do agronegócio “, com letra de Carlos Renó, é um hino-manifesto contra a velha chaga brasileira da exploração desenfreada e sem limites que sempre permearam e deram o tom da história do Brasil.

Ontem, o ouro, a cana-de-açúcar, a mineração; hoje, o agro-business que envenena a terra, reforça o rombo social e elimina os pequenos produtores de alimentos estimulando a produção industrial de commodities. Os reis do agronegócio abrem feridas profundas nas terras do coração do Brasil e nos impõe uma perversa e nefasta ditadura econômica, financiando políticos que dão musculatura à bancada ruralista no Congresso Nacional, aprovando leis e fazendo lobby que favorecem a cultura de transgênicos e afrouxamento das leis ambientais com o intuito simples de devastar mais em busca de mais e mais lucros.

Sob esse aspecto, o Brasil já vive sob uma nova ditadura, econômica, imposta pelas bancadas da Bala, da Bíblia e da Soja.  Nessa canção-manifesto, seus autores criticam o desmatamento, o uso indiscriminado de agrotóxicos, a invasão de terras indígenas e as relações que o sistema capitalista das grandes corporações estabelecem com o meio ambiente e os direitos humanos. 

A discussão levantada por essa música não é recente. Não se trata de uma chaga nova, mas, nesse momento, ganha novos contornos ameaçando fontes de recursos naturais, empurrando uma horda de trabalhadores para a miséria e a demonização dos pequenos produtores que são efetivamente quem produz os alimentos no Brasil.

Essa música é mais que uma canção de protesto, é um manifesto contra a atual geopolítica que rege a economia mundial nesses tempos em que o Brasil se tornou o país que mais utiliza fertilizantes, pesticidas e agrotóxicos do mundo. Somos o campeão da estupidez contra nós mesmos e o meio ambiente.

“Ó donos do agrobiz, ó rei do agronegócio/ ó produtores de alimentos com veneno/ vocês que aumentam todo ano a sua posse e que poluem cada palmo de terreno/ e que possuem cada qual um latifúndio/ e que destratam e destroem o ambiente/ de cada mente de vocês olhei no fundo e vi o quanto cada um no fundo mente.”

“Reis do agronegócio” fala da mentira dos grandes produtores de soja, milho, gado, que dizem produzir alimentos para a população, mas, na verdade, 70% desses alimentos são para alimentar o gado de corte.

Um trecho da música resume bem o espírito da nossa época: “Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes/ tal como eu vejo com amor a fonte linda/ e além do monte o pôr do sol porque por sorte vocês não destruíram o horizonte… ainda.”

É este o sentimento que temos quando assistimos tantos absurdos acontecerem sem que quase nada –  efetivamente – seja feito.

Que os Chicos do Brasil não se calem jamais.

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