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Festival Mundial do Circo tem mineiro como atração de hoje

Luis Sartori apresenta o projeto 'Co-vid 3B - Brasil', que pode ser acessado das 10h à meia-noite desta segunda (19/07), no site do festival


19/07/2021 04:00

O malabarista Luis Sartori faz número circense com três bolinhas (foto: Ricardo Santos/Divulgação)
O malabarista Luis Sartori faz número circense com três bolinhas (foto: Ricardo Santos/Divulgação)

Apesar da saudade do Brasil, ainda não será desta vez que a família e os amigos de Luis Sartori, de 39 anos, poderão abraçá-lo. Virtualmente, ele aparecerá nesta segunda (19/07) na programação da 20ª edição do Festival Mundial de Circo, que vai até o próximo domingo (25/07). 

Diferentemente de “Portmanteau”, que ele apresentou há dois anos, no Galpão Cine Horto, "Covid 3B - Brasil" não é propriamente um espetáculo, segundo Sartori. "Foi um projeto desenvolvido especialmente para o formato de vídeo, com curta duração, pensado mais como um ‘jogo’, sem muita preocupação com roteiro ou dramaturgia. É uma coreografia construída pouco a pouco, com cada participante criando sua movimentação a partir da última ação do participante anterior, inspirada pelo conceito de cadavre exquis, desenhos e escritas coletivas criados pelos surrealistas há quase um século."

Ele conta que, no meio do ano passado, enquanto ainda tentava descobrir como lidar com esse período de pandemia, teve a ideia de fazer um pequeno projeto coletivo de vídeo usando o malabarismo como forma de unir artistas que estavam isolados ou em quarentena por causa da pandemia. Como todas as apresentações e turnês haviam sido canceladas e não era possível viajar ou encontrar outras pessoas, essa seria, de acordo com Luis, uma forma de interagir com outros artistas, apesar de fisicamente isolados. 

"Conversando com um amigo francês (Bogdan Illouz, também malabarista) fizemos uma lista de alguns amigos em comum que trabalhavam principalmente com três bolinhas e que gostavam de usar bastante o corpo em cena. Pouco a pouco, o projeto foi crescendo e comecei a convidar cada vez mais artistas diferentes, de diversas partes do mundo, alguns que já não praticavam mais, outros já bem famosos, que imaginava que nunca dariam retorno. Foi bastante trabalho de produção, logística, contatos, edição... e o resultado foi um vídeo colaborativo intitulado ‘Covid 3B’, que fez bastante sucesso, reunindo 40 talentosíssimos malabaristas de 20 países diferentes."

Foi no fim do ano passado que o projeto ganhou uma cara brasileira. Um amigo malabarista (Marcelo Mamute, de Ribeirão Preto), propôs a Luis uma versão brasileira do projeto, já que tantos artistas no Brasil haviam sido fortemente afetados pela pandemia. “Juntos fizemos uma lista de 21 artistas brasileiros, alguns vivendo no país, outros vivendo fora, e o resultado foi o ‘Covid 3B - Brasil’", conta, sobre o projeto que participa do festival.

Luis não esconde a tristeza e a preocupação de ver como as artes cênicas, e o circo em particular, foram fortemente afetados pela crise sanitária. "Famílias vendendo material de trabalho para sobreviver, outros largando completamente a profissão. É fundamental que exista investimento, suporte e iniciativas para dar apoio aos mais afetados e à arte em geral, principalmente neste período em que muitos tiveram o trabalho interrompido e não têm outra forma de garantir sua subsistência. A cultura é um investimento tão importante quanto a saúde, a segurança e a educação", diz.

O cachê da participação no festival será destinado à campanha Rede Fortalece Artistas, que busca prestar apoio emergencial para artistas de rua e do circo de todo o Brasil. "Artisticamente, o circo vai se reinventando, como sempre aconteceu. Essa edição do Festival Mundial do Circo é uma ótima forma de ver como os artistas estão se adaptando a essa nova realidade", comenta.

Como a pandemia mudou sua vida profissional?
A pandemia foi um choque para todo mundo, especialmente para quem trabalha com arte. Sendo artista cênico, a maior parte da minha vida profissional gira em torno de apresentações e turnês de espetáculos, encontros com público, o que foi uma das primeiras coisas afetadas com as restrições de viagens e aglomerações. Estava em um momento superativo, com diversos projetos em paralelo, tanto em circulação quanto em criação. De um dia para o outro, tive a agenda completamente alterada, apresentações, viagens e residências canceladas ou adiadas sem uma data certa, incluindo um espetáculo anulado no dia da estreia. Foi, e continua sendo, um período de muitas frustrações e incertezas. Tive a sorte de estar vivendo na Finlândia e poder contar com o auxílio de bolsas e subvenções que me deixaram dar continuidade ao trabalho artístico, apesar da situação, o que é realmente um privilégio. Como tenho ainda muitos projetos na gaveta, tento aproveitar esse tempo para me dedicar à elaboração, à pesquisa e à criação de projetos futuros, apesar de não saber ainda quando eles irão ganhar vida. E tenho me concentrado também um pouco mais no trabalho em vídeo, apesar de confessar que ainda não consigo me adaptar a essa realidade de espetáculos on-line. O trabalho físico foi substituído por mais tempo na frente do computador, tentando lidar com todas as mudanças de contratos, logísticas, reescrevendo projetos...

Pedro, seu irmão, criou em Belo Horizonte a Brava Escola de Circo. Você contribuiu de alguma forma com o projeto?
No início da criação, contribuí com algumas ideias e com a elaboração da logo/identidade gráfica da escola, mas não consegui me envolver tanto quanto gostaria por estar vivendo longe e com outros projetos. E em 2019, participei da abertura da escola, com apresentações e workshops, enquanto estava de passagem pelo Brasil. Estou morrendo de vontade de voltar logo e poder contribuir mais e fazer mais colaborações! A escola está linda, super bem-equipada, com ótimos artistas e professores! Para quem não conhece, vale a pena visitar e descobrir mais. 

Como você compara a situação do combate à pandemia no Brasil e na Finlândia? Como está a vida aí e qual sua preocupação com o Brasil?
São duas realidades bastante diferentes, quase opostas… Logo no início da pandemia, o governo finlandês tomou precauções, impondo algumas restrições de circulação e fechando fronteiras e espaços com aglomerações, como escolas, bares, teatros, etc. O uso de máscara foi sugerido mais como uma recomendação, mas foi respeitado por todos. Todos que podiam começaram a trabalhar remotamente. É realmente uma personalidade do finlandês não ter problemas em seguir regras e confiar bastante nas autoridades, o que ajudou muito, além do apoio do governo em forma de bolsas emergenciais, por exemplo. Infelizmente, assim como em vários outros países, o setor cultural foi fortemente afetado, e poderia ter tido mais apoio. Os teatros e festivais foram os primeiros a ser cancelados e seremos os últimos a voltar às atividades. Mas, pessoalmente, não posso reclamar muito. Tive a sorte de conseguir continuar trabalhando em meus projetos, apesar de ter apresentações canceladas por mais de um ano, e de conhecer outros artistas que passaram por mais dificuldades. E a vida do dia a dia já está voltando ao normal pouco a pouco. Logo recebo minha segunda dose da vacina e, se tudo der certo, voltamos aos palcos em agosto. Confesso que ando bastante assustado e preocupado com a situação no Brasil. Vendo de fora, a forma como o governo tem agido é tão absurda que acho que ainda não consigo entender como está a realidade por aí.

O que instiga sua pesquisa artística?
Meu interesse é explorar o diálogo e a interação entre as artes circenses e outras formas de arte, conceitos e técnicas, em uma constante pesquisa para desenvolver estéticas novas e poéticas dentro das artes cênicas. Como artista de circo, meu interesse é explorar as habilidades técnicas como ferramentas de comunicação, ao invés do virtuosismo. Ao trabalhar com conceitos universais e identificáveis por todos, pretendo criar uma ligação mais forte e sensível com o público. Com foco em metáforas poéticas, visuais, estéticas delicadas e minimalistas, meu objetivo é convidar o público a interpretar e sentir uma performance baseando-se em suas próprias experiências pessoais. 

Você vem de uma família de artistas plásticos. Há influências de seus pais em sua atuação como artista circense?
As artes visuais sempre tiveram um papel importante no meu trabalho. Tanto no nível estético, na criação de luzes, cenários e dramaturgia, quanto conceitualmente. A delicadeza, a poética e o minimalismo do trabalho de meus pais são uma forte influência! Em paralelo ao trabalho cênico, continuo desenvolvendo projetos entre ilustração, vídeo, fotografia e instalações.

Como foi sua trajetória até a chegada e adaptação na Finlândia?
Após me formar em artes do circo pela Spasso Escola de Circo e em artes visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG, me mudei para Bruxelas, na Bélgica, em 2005, onde me formei pela Escola Superior de Artes do Circo, em 2008. A partir daí, trabalhei e colaborei com diversos artistas por diversos lugares, incluindo as companhias Archaos (França) e Les 7 Doigts (Canadá). Desde 2012, tenho me focado em desenvolver trabalhos autorais, mas ainda colaboro eventualmente como intérprete em outros espetáculos. Sobre minha adaptação na Finlândia, é claro que, em um primeiro momento, tive um pequeno choque cultural. Mas foi um país que me acolheu bem. Hoje em dia, tenho o privilégio de ser reconhecido pelo meu trabalho e poder viver integralmente disso. O circo na Finlândia é ainda pequeno em relação à dança e ao teatro, mas recebe bastante apoio de diferentes instituições públicas e privadas e está crescendo cada vez mais. Mas somos ainda poucos artistas estrangeiros em atuação por aqui.

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