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Estado de Minas COLUNA HIT

Os desafios da pandemia para quem se reconhece privilegiado

Em sua primeira crônica, o poeta Daniel Cruz Fonseca diz que a COVID-19 ensinou-lhe o valor de viver, desfrutando cada dia


08/05/2021 04:00


Daniel Cruz Fonseca
Poeta

Sou privilegiado. Estou passando por esta pandemia inteira sem sair de casa nem mesmo por um segundo, desde 8 de março de 2020. Já trabalhava em home office, prestando consultoria jurídica preventiva para empresas do país todo. Sou um privilegiado e agora percebo isso; não estou à mercê das decisões de chefes ou governos quanto ao risco a que devo me expor para poder meramente trabalhar. Sou privilegiado até mesmo por ter uma profissão em um dos momentos de maior índice de desemprego na história do nosso país desde a democratização.

A pandemia me mostrou isso, eu, que sempre achei ser azarado por ter uma rara doença genética que impede o desenvolvimento muscular do meu corpo (tornando-me uma pessoa que utiliza cadeira de rodas), sou na verdade um privilegiado. É verdade que meus pulmões não funcionam direito, mas, veja só, estou no grupo das pessoas com comorbidade e terei o privilégio de receber a vacina antes de muitos que estão se expondo mais do que eu.

Porém, não quero ficar aqui dizendo o quanto sou privilegiado, mesmo sem ver ninguém há sei lá quantos dias. Estes parágrafos anteriores são apenas uma pequena apresentação sobre minha situação e como vou vivendo este momento único da história mundial. Perdoem minha escrita confusa, é meu primeiro artigo para o jornal. Venho da poesia, onde é tudo mais curto e figurado.

O desafio proposto era escrever sobre o que a pandemia nos ensinou. Acredito que cada um tenha obtido aprendizado singular. Muitos perderam a fé, outros se agarraram a ela como tábua de salvação. Muitos perderam entes queridos, outros tantos tiveram filhos neste período. Muitos perceberam que a política manipula para passar a boiada quando ninguém está vendo, outros perceberam que uma boa política pode salvar vidas.

A minha geração nunca havia passado por uma Grande Guerra, fome ou caos como este momento. Era uma geração inteira acostumada com a estabilidade mundial. Se tem algo que todos experimentamos nesta pandemia é a instabilidade, o chacoalhar das coisas, a perda de controle, o medo do futuro, a ansiedade. Veja bem, até o eixo político virou, com a China se tornando a grande potência. Nada será como antes e não há um especialista sequer capaz de prever exatamente como será. Vivemos um marco histórico.

E o medo do escuro, das sombras, da fragilidade humana e da morte bate diariamente à porta. Alguns tentam fugir, fingir e se esconder. Outros tentam assumir as rédeas do próprio destino e lutar contra a situação. Tentei deixar um legado, fiz um livro e alguns quadros. Tentei realizar sonhos, evoluir, aprendi idiomas, li livros que adiava, vi filmes clássicos, ouvi músicas e aprendi o valor de viver desfrutando cada dia sem saber se amanhã haverá sol.

Quando isso passar, vou abraçar meus avós e olhar a vida agraciado, porque no fim estou descobrindo que sou privilegiado.

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