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Estado de Minas Diário da quarentena

Em plena pandemia, Lucas Rodrigues acredita que a grande mudança acontecerá dentro de nós mesmos

Depois de sete meses, o Diário da quarentena, edição especial da coluna HIT, chega ao final


13/10/2020 04:00


 
210 dias depois que o primeiro caso, suspeito ou não, foi confirmado no Brasil... De amarelo, perco o ouro prometido antes mesmo de chegar ao continente do meu objetivo. De azul, vou parar nas profundezas dos oceanos, atacado por todo e qualquer exército de outra cor, os ocupantes dos territórios vizinhos. Fico roxo da vida quando constato ou considero ser o centro das atenções dos ataques adversários. E vermelho diante do entrave do jogo na hora derradeira de atacar. Nem se estou de verde a esperança da vitória me alcança e, finalmente, me torno cinza para além da cor do meu sexto e último exército imaginário (não sinto afeição por armas), junto a mais uma batalha perdida.
 
A guerra acontece lá fora, acontece nesse tradicional jogo de tabuleiro que descobri no modo virtual no isolamento da quarentena e também aqui, dentro de mim. A passos lentos estou, engatinhando enquanto a Terra ainda gira em meio às máscaras, álcool em gel, ruas quase desertas e comércios fechados. Faço uma venda de bateria de carro aqui, outra de caminhão acolá, forneço 150 caixas de bergamota para um matuto atravessador, mais 250 para outro desconfiado como eu, bons mineiros que somos, entre os frios ares montanhosos do interior.
 
Nessas idas e vindas pontuais, da capital para a roça e vice-versa, paro, reflito, questiono-me, muitas vezes nos intervalos de outra derrota no War. O que irá me motivar, além de ganhar dinheiro para comer, beber, tentar um sono tranquilo e quem sabe me casar e procriar? Concluo que sair dessa zona de conforto em que me meti, cíclica e traiçoeira, passa por um tesão profissional alheio àquele em que buscamos em e/ou com outra pessoa, na cama quente, no meio do mato, no sofá em que teimo logo resisto a começar outra batalha... Virtual.
 
Não estendo mais o tapete de ioga, corro quase nada e caminho só de vez em quando. O peso aumenta, na balança e nas costas. Se cuidar de si pode se tornar um fardo, cuidar do outro então... Passo uma noite plena com minha namorada depois de dias de luta e insatisfações (da minha interna para o “quando um não quer, dois não brigam”), transamos, gozamos, dormimos. Sonhamos.
 
A manhã seguinte nasce com novos velhos desafios: a descoberta do tal tesão profissional, a calmaria quiçá utópica na tormenta de um amor abalado, mas escolhido. De segunda a sexta-feira, há novas batalhas perdidas, palavras cruzadas de jornais vencidas, sonos adiados, tapete enrolado, corridas suspensas, nem sequer caminhadas. Tem também uma voz interior que urge não sei de onde me trazendo de volta ao mundo real, alertando-me sobre o futuro que eu quero ter. “Sim, é você mesmo quem deve determiná-lo!”, ela brada das entranhas.
 
Antes submerso em atrasos, confortos e ilusões quaisquer, vou pouco a pouco reaprendendo a respirar. Ou melhor, aprendendo a respirar de verdade: devagar, com calma, sem medo de viver, distinguindo não o que é certo nem errado, mas o que merece ou não fortes emoções ou somente transpirações superficiais. Ainda é cedo, amor, mas nunca é tarde. Enquanto espreito verdades mais substanciosas, preparo um happy hour árabe regado a vinho chileno.
 
À espera da surpresa dela, sirvo quibe cru, pasta de grão-de-bico e pãezinhos libaneses em pequenas cumbucas de cerâmica produzidas artesanalmente por uma tia querida. De doce, macarons desenhados em formato de coração e bombom de malban com pistache. No rótulo do Valle Central, um balão vermelho a gás convida a um vuelo. Na sobriedade de aromas e sabores, decido também me surpreender e querer ir mais fundo no ofício que abandonei recentemente, depois de quase 10 anos de atuação profissional.
 
Em pleno século 21, sob a cortina do neocapitalismo e a despeito destes tempos pandêmicos, não estou a esperar grandes mudanças no estilo de vida da população em geral. Não no sentido de compartilhar, desapegar, preocupar, ouvir, amar (mais) o próximo. Acho que viver a realidade passa essencialmente por começar a fazê-las aqui mesmo, dentro de mim. “Em casa.”

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