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Estado de Minas

"Ser trabalhador da cultura é como andar numa geleia invisível"

Violeiro mineiro Bemti conta como enfrenta a pandemia e seus efeitos na paralisação de projetos e shows


21/09/2020 04:00

Diário da quarentena

Geleia invisível

Bemti
Violeiro, cantor, compositor e cineasta

 Os últimos dias têm me afogado num ritmo próximo ao que eu vivia antes da pandemia. Sigo em casa, mas cansado de um jeito que não me sentia há meses. Ser trabalhador da cultura no Brasil hoje parece ser como andar numa geleia invisível: o que já era difícil ficou exponencialmente pior. Estou exausto, girando as engrenagens do meu segundo disco (que sairia esse ano, mas que adiei pro ano que vem).

De janeiro até março, eu e minha viola caipira tocamos, em ordem, em Belo Horizonte, Buenos Aires (esgotado, meu primeiro show fora do Brasil), Montevidéu, Porto Alegre, Brasília, Rio, São Paulo e Recife. Botei o pé em Recife quando as datas seguintes foram todas canceladas e esse último show já aconteceu sob um clima fantasmagórico em que ninguém estava entendendo muito bem o que viria. Esse início do ano parece agora um delírio distante, memórias que parecem mais longe do que coisas que vivi anos atrás.

Comecei 2020 me gabando por entrar no ano mais organizado da minha vida. Lembro muito bem da satisfação de saber em janeiro o que eu faria na segunda quinzena de novembro, e de ouvir minha produtora falando depois de uma reunião: “Pode comprar o chester pro Natal, seu ano está pronto!”. Como bom mineiro desconfiado, devia ter sabido que estava bom demais pra ser verdade, mas nada podia me preparar pro que realmente destruiu aquele cronograma tão inédito pra mim...

Saí de Recife direto para o Triângulo Mineiro, e passei os quatro meses seguintes com meus pais numa quase zona rural. Canalizei o luto pelo cronograma desfeito e pela situação completamente trágica do Brasil de diferentes formas. O desespero – no micro e no macro – primeiro me fez assistir séries demais e comer doce demais. Depois, passei a correr e a fazer exercícios todos os dias, me sentindo grato por ter um espaço que a maioria dos meus amigos em Belo Horizonte e São Paulo não tinham.

Em pouco tempo, estava correndo em torno de 4km por dia e, em junho, já havia emagrecido 7kg. Durante as corridas, muitas vezes acompanhado do meu pai, consegui me reaproximar dele de um jeito que talvez não conseguiria no ritmo “normal” das coisas. Também correndo, encontrava motivação para trabalhar nas músicas do segundo disco, um projeto que eu sempre planejei como um tratado sobre o poder do afeto numa sociedade em colapso, e que ironicamente se chama Logo ali. Minhas letras românticas apocalípticas de antes da pandemia ganharam um peso completamente novo.

Nas redes, vejo as fotos do meu amigo músico que dividiu o palco comigo em Montevidéu: desde maio, ele voltou a fazer shows no Uruguai. Uma amiga cineasta perdeu um trabalho, pois a produção desistiu de gravar no Brasil e foi para o país vizinho. Não sei quando farei shows com público de novo. No momento em que escrevo esse texto são 45 mortos por COVID-19 no Uruguai. É como se no Brasil fossem 2.700 mortos e não 130 mil. Como se em Minas Gerais fossem 270 mortos e não 6 mil (com uma subnotificação imensa). A mesma terra e a mesma fronteira, mas sociedades diferentes. O fardo tropical de ser brasileiro inunda o meu segundo disco, mas o afeto segue sendo arma e escudo, mesmo no pior do pior do pior do pior dos cenários possíveis. Com afeto aguentaremos.

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