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Estado de Minas COLUNA HIT

O futuro chegou como um filme B

No 'Diário da quarentena', a atriz Patrícia Gasppar registra reflexões sobre o roteiro imposto pela pandemia


20/08/2020 04:00


“Era uma vez...”
´
Era sempre assim que as histórias começavam. As histórias de ficção, as que a gente só imaginava e que nos alimentavam tanto, no sonho e na fantasia. Uma história real era bem diferente. Parecia já vir com a tarja preta: “Baseada em fatos”. E mesmo que esses fossem bons, havia uma dureza que a própria realidade limitante trazia – e traz.

Minha avó, que era de 1900, custou muito a acreditar que o homem realmente havia pisado na Lua. Seu Nilo, o pedreiro e pintor que vivia trabalhando em alguma reforma de casa, morreu achando que aquilo tudo tinha sido truque. Eu, que já tenho
59 anos (e todo dia isso me parece um espanto), passei um grande período dessa quarentena entre o “era uma vez” e “baseada em fatos”, tentando lidar com esse sonho real, ou pesadelo, a duras penas.

Quem poderia supor que o futuro que chegou nos traria este filme B? Por mais que as coisas estivessem sendo encaminhadas pra isso, esse roteiro não podia ser previsto. Na minha vida, já passei por fatos históricos como a chegada do homem à Lua, a queda do Muro de Berlim, o ataque às Torres Gêmeas, o tsunami, o massacre do Carandiru, mas desta vez a história está dando uma rasteira geral, com dimensões gigantescas.

E foi entre a dor e o estado de apoplexia que tenho vivido que comecei a perceber o estranho prazer de estar presente neste momento da Terra. Penso no meu pai, jornalista que morreu em 1993, que entrava em êxtase por ser testemunha dos acontecimentos do mundo e de seu tempo. Talvez, por herança, eu exercite o mesmo gozo.

Mas há outro fator que me parece inusitado. Diante de um futuro tão incerto, em que o imprevisível é quase tudo o que temos, viver o presente deixou de ser qualidade dos que buscam a consciência através de caminhos espirituais e meditações, para ser a condição de sobrevivência na quarentena. É de cair o queixo. Não precisamos mais fazer o caminho de Santiago, ir a um ashram ou à praia deserta. Me vejo tão inteira nos meus afazeres cotidianos que outro dia, ao cozinhar salsichas, olhando a água fervendo, fui abduzida para um estado de consciência inédito pra mim.

Aquela água em ebulição que tanto atraía meu olhar ao centro da panela me fez, enfim, criar um espaço interno vazio onde só havia paz. Mais tarde, salsichas, claro. Mas o que interessa é que nunca senti tão concretamente que o passado está no seu lugar de memória e o futuro só depende da entrega real ao aqui e agora. Fazer o que tem de ser feito, não calar o que pode ser dito e inventar, porque criar é preciso. E, assim, as histórias começam diariamente baseadas nos fatos que vivemos.

O que faremos com tudo isso é o que estamos construindo a partir deste instante. Por isso, atenção: todo cuidado é pouco. Saúde!

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