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Estado de Minas CORONAVÍRUS

Utopia em movimento

No 'Diário da quarentena', publicação especial da Coluna Hit, o rapper Roger Deff discute o papel da arte nestes tempos de pandemia


postado em 01/07/2020 04:00

Roger Deff
Rapper



Ao escrever este diário, vários assuntos vieram à mente sobre o mundo pandêmico que, diferentemente do que previam, segue em sua “normalidade” absurda, onde protestos pelo direito à vida e contra o racismo se fazem mais do que necessários. Mesmo em tempos estranhos, seguimos nessa estranha normalidade.

No meu diário da quarentena, questiono o papel da minha arte, cuja matéria-prima é a palavra nestes dias de isolamento. Chego à conclusão de que é o mesmo papel de outros tempos. Situações extremas deixam alguns muito confortáveis com sua natureza egoísta, ao mesmo tempo em que fazem com que outros demonstrem altruísmo. Agem assim porque precisam, pois não conseguem pensar de outra forma que não seja coletiva, a exemplo dos jovens das periferias que coletam e distribuem cestas básicas para as pessoas sem renda neste período de pandemia, ou mesmo os diversos voluntários que se empenham em combater a disseminação da doença nas vilas e favelas. Muitos nem moram lá.

Meu olhar é de análise do contexto. Alimento-me disso para produzir minhas letras e percebo que há pessoas, mesmo sem muitas condições, desempenhando papéis mais relevantes do que aquelas em posição de poder.

Comecei o texto questionando o papel da minha arte neste lugar e tempo, mas o olhar deve ser para as artes como um todo neste tempo e lugar, onde lutamos contra uma doença que se espalha globalmente, mas também é uma guerra de narrativas. Talvez o segundo maior espaço de embate se dê no lugar do simbólico, das interpretações, na construção da visão de mundo das pessoas. Nosso desafio é demonstrar que é possível um mundo inclusivo, onde Marielle Franco, George Floyd, a menina Ágatha e o menino João Pedro não morram só por ser quem são.

"A reflexão que fica é: não existe mudança no mundo sem que mudemos a nossa forma de estar nele"



Sempre pensei o hip-hop, cultura na qual cresci e me estabeleci, como o espaço para pensar a pluralidade e a coletividade. Essas noções se fazem mais necessárias do que nunca agora, nestes dias em que valores ligados à ideia de coexistência e respeito à diferença são prontamente combatidos. A arte tem papel fundamental aí, justamente pela capacidade de enxergar além do preestabelecido, de ser a própria utopia em movimento. As pessoas precisam de esperança, mesmo diante da indignação (necessária) com as injustiças.

Nas várias conversas que tive, em lives ou mesmo bate-papos informais com amigos, pontuei a ironia de que logo a cultura, tão atacada recentemente, ser responsável por manter a sanidade das pessoas agora, além de contribuir para outros olhares sobre este momento.

Sobre as mudanças, é certo que muitas vieram e outras virão, mas a divisão social que nos caracteriza enquanto sociedade continua a mesma. Alguns poucos podem se manter isolados, com trabalhos em home office, outros tantos permanecem nos aglomerados, sem opção de isolamento e até de trabalho.

"A arte tem papel fundamental justamente pela capacidade de enxergar além do preestabelecido"



Textos e postagens dizendo o quanto poderíamos mudar neste momento surgiram aos montes nas redes durante os primeiros dias de quarentena. Mas a reflexão que fica é: não existe mudança no mundo sem que mudemos a nossa própria percepção e a nossa forma de estar nele, a despeito de qualquer cenário. Que a arte nos ajude a pensar e a agir nesse sentido.


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