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Estado de Minas COLUNA HIT

Gabo, o companheiro de Flávio de Castro nestes dias de solidão

No 'Diário da quarentena', fotógrafo revela como os livros de Gabriel García Márquez o ajudam a enfrentar a distopia imposta pela pandemia


postado em 28/06/2020 04:00 / atualizado em 26/06/2020 18:11

“Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem”.

Assim começa um dos capítulos mais memoráveis de Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Livro que, a despeito da solidão em seu título, impregnada na existência de seus personagens, tem sido meu companheiro desde os tempos da adolescência. Sempre retorno a ele como alguém que visita um velho amigo.

Neste momento de incertezas diante da realidade distópica com a qual a pandemia nos confronta, nada como um velho amigo que me recorda que a realidade é capaz de produzir fatos extraordinários.

A epidemia do novo coronavírus trouxe em seu bojo uma transformação radical do cotidiano. De repente, o fluxo de festas e outros momentos de alegria e confraternização que capturo com minha câmera fotográfica tiveram seu fôlego interrompido. Sorrisos e abraços, a dança e o brinde com aqueles que mais amamos seguem suspensos até que cesse o dilúvio. Isolado no meu quarto, registro o silêncio ruidoso da nossa dúvida e assombro diante dessa novíssima realidade.

Como fazer home office se a matéria que dá substância ao meu trabalho está proibida por tempo indeterminado? Me refugio nos livros, tantos acumulados em 30 anos de vida... Em momentos de arroubo minimalista, cheguei a me questionar se era mesmo preciso ter tantos e me desfiz daqueles que hoje devem estar a fazer companhia a outros que, como eu, buscam na ficção e na literatura a possibilidade de sobreviver à dura realidade.

No livro de Gabo, reencontro a personagem Úrsula, matriarca da família Buendía e fundadora, junto de seu marido José Arcádio, da cidade de Macondo, que é, sem dúvidas, um dos sítios imaginários mais fantásticos da literatura universal. A personagem, tão intimamente familiar, me acolhe como uma avó, posto que não posso ter o colo da minha neste momento. É tempo de proteger. Como uma mãe, posto que não posso visitar a minha, enfermeira há mais de três décadas que está na linha de frente como tantos outros profissionais da saúde pública no Brasil. É tempo de cuidar.

Úrsula, em sua tenacidade inquebrantável, é a força motriz de todo um universo familiar, capaz de dar sentido e direção ao enredo, mesmo em meio a desatinos das guerras e revoluções fantasiosas manejadas pelos homens de sua família. Procuro dentro de mim a mesma resiliência e firmeza com que a personagem se agarra à vida no tempo do grande dilúvio, prometendo a si mesma sobreviver ao imperativo das águas que caem incessantemente e ameaçam o mundo.

Todas as noites, ao abrir o livro – companhia de papel que me oferece a única viagem possível nestes tempos de rude incerteza –, tento me concentrar na leitura, mas o pensamento divaga, corre até aqueles que não posso ter por perto e o peito tem urgência em dizer-lhes: Amigos, naveguemos pelo presente sem nos afastarmos muito, após o tempo das tormentas florescerá o tempo dos abraços.

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