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Estado de Minas

A fotógrafa Márcia Charnizon faz um brinde à utopia

A pandemia deixa evidente a urgência de transformações nas políticas públicas, na educação e na saúde. Estamos mesmo dispostos a mudar?


postado em 14/05/2020 04:00 / atualizado em 13/05/2020 20:33

DIÁRIO DA QUARENTENA

Xeque-mate

Márcia Charnizon
Fotógrafa

Amigo, em que dia da quarentena estamos? Não sou de diários. Mas vou te contar sobre ontem. Abri o portão da minha garagem e me deparei com uma festa. Sim, uma festa. Ultrapassaram todos os limites e entraram, sem a minha permissão, no jardim.

Comecei a suar de nervoso. Escorria das minhas mãos um líquido transparente que cheirava a álcool em gel. Ainda não uso óculos, mas nessa hora, por pura vergonha, busquei meus óculos escuros dentro da bolsa. E vi. Meu jardim estava estranho.

A multidão, aglomerada, dançava descompassada com headphones nos ouvidos. Não era um encontro de pessoas más, nem de pessoas boas. Eram só pessoas. Olhei para o lado. Sentada na minha varanda estava uma senhora, na casa dos seus 80, isolada e observando tudo em silêncio. Cheguei perto e me posicionei sob sua pele, mais pela curiosidade de sentir sua dor. Ardeu, como uma ferida que está sendo limpa. Ela me disse, tristonha:

– E você não sabia?

Mudei de assunto e respondi que estava em isolamento social. Ela não disse nada, só apontou para minha cozinha. Não acreditei! Os convidados não cuidaram do próprio lixo e vermes tomaram conta de toda a bancada. Fiquei ali, paralisada, pensando em como me ver livre daquele nojo que me subia à cabeça. E então percebi, durante esse tempo em suspensão, algo em que nunca tinha prestado atenção. Minha casa estava dentro de uma bolha. Olhei com mais atenção e, na verdade, cada pessoa lá no jardim da festa também tinha uma bolha à sua volta. Eu mesma estava embolhada, também a velhinha.

Tirei os óculos, sentei, cansada, e senti o golpe! Aquela festa esquisita era para eu perder o juízo. Só podia!

A senhorinha na varanda, assistindo à minha aflição, falou com a tranquilidade de quem não se importa mais com o juízo nem com o tempo:

– Calma, minha filha, isso não é nenhum pesadelo. Bolhas sempre existiram. Vermes também.

Levantei-me às 7h com aquela sensação pesada de quem sonhou acordada a noite inteira e busquei pelas últimas notícias. Tive a sensação de ter saído de um sonho e acordado num pesadelo, como a velhinha tinha me soprado na madrugada. A festa dos infernos, numa provocação bonita e dolorosa, me faz pensar no passo lento que a história produz enquanto a gente vive e sonha. Somos todos testemunhas da história, apreendendo os fatos a partir das nossas próprias bolhas. “Elas sempre existiram”... Mais um sopro sábio daquela velha de guerra.

Levantei com a necessidade de fincar, de uma vez por todas, esses meus pés na areia movediça e enxergar bolhas que antes me eram invisíveis. Muitas delas, inclusive, são necessárias para me ajudar com os vermes que se aproximam, principalmente bolhinhas perfumadas de conhecimento, solidariedade e arte.

Para finalizar, meu querido amigo tão diário, estamos no olho do furacão, travando uma guerra contra o vírus que parece se fortalecer quando em simbiose com o individualismo e suas imensas desigualdades sociais, fake news e ignorância.

Do alto da montanha privilegiada onde vivo, como fotógrafa e empresária, meu sonho é poder tirar os headphones e me imaginar na pele de outros. Fazer doações, ajudar quem precisa são sempre ações necessárias de socorro, mas não posso me esquecer do que está em jogo: as mudanças estruturais. Esse é o xeque-mate que a pandemia lança no tabuleiro.

As transformações acontecem pelas políticas públicas, passam pelo voto, pelas escolhas da educação, saúde, arte e ciência como dispositivos sagrados. Fora desse caminho, manteremos, de forma assustadora, as bolhas individualistas. E isso, sim, é um pesadelo que a quarentena desnuda e me joga na cara. Será mesmo que mudaremos?

Me resta levantar um brinde à utopia, necessária. Em videoconferência, com os amigos.

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