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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Que o voto 'sim' triunfe no acordo da SAF Cruzeiro

Argumentos apresentados por Ronaldo para que as Tocas sejam cedidas à SAF, cuja decisão caberá aos conselheiros, parecem justos


23/03/2022 04:00 - atualizado 23/03/2022 11:46


Depois que a procissão passa, não adianta tirar o chapéu. Ouvi de um companheiro de arquibancada. Estopim para me posicionar aqui a favor do acordo entre a associação Cruzeiro e a empresa de Ronaldo para viabilizarem em definitivo a Sociedade Anônima do Futebol (SAF).

“Posso não concordar com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la.” A frase do filósofo francês Voltaire resume meu respeito ao direito do Conselho Paquiderme Deliberativo questionar os termos da negociação. Porém, nela também arvoro minha indignação com os rumores do que parece estar por trás dessa movimentação, que, infelizmente, dá sinais de novas picuinhas políticas.
 
 
torcida do Cruzeiro
Que a China Azul, o maior patrimônio do Cruzeiro, não seja atropelada por uma disputa de egos tão comum no clube nos últimos anos (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)
 
Mas, como dito, prefiro refletir sobre os questionamentos lançados ao ar. Em primeiro lugar, é preciso entender que não estamos tratando de uma ação de caridade. O que está em curso é uma negociação – das grandes. De um lado, a lenda viva do futebol mundial que se transformou em empresário, que só emprestando sua imagem já coloca na mesa cartas preciosas que nenhum outro comprador no mundo possui, seja ele um investidor inglês, um magnata russo, um xeque árabe ou um bilionário do Brasil Miséria.

De outro lado, uma associação esfacelada por anos de negligência do próprio Conselho Paquiderme Deliberativo, pela organização criminosa de 2018/2019 e por seguidos presidentes desde a década de 1990. Dito isso, vamos aos pontos levantados como “lesivos”.

1 – A incorporação das Tocas da Raposa ao negócio. Primeira informação estranhamente não dita pelos críticos: a Toca da Raposa I já está em iminente risco de ser alienada, pois a associação Cruzeiro, sem receita, está descumprindo o acordo com a Procuradoria-Geral da República para o pagamento da dívida tributária de R$ 180 milhões. Nele, a sede do Barro Preto, 20% da receita da instituição e a Toca da Raposa I foram dadas como garantia. Ou seja, ela pode ir a leilão enquanto você está lendo essa frase.

Aqui, uma curiosa incoerência dos neoindignados. Em 2019, um senhor de nome Itair Machado se reuniu com o mesmo Conselho Paquiderme Deliberativo e apresentou uma proposta mirabolante de empréstimo de R$ 300 milhões. E qual era a garantia? A mesma Toca da Raposa. Como foi a nota de repúdio naquela ocasião? Ela não existiu.

Colocar as Tocas na negociação da SAF não é só uma saída para o futebol gerar receita para a associação, mas também é uma forma de a dívida com a Receita Federal ser paga e o bem patrimonial não ser alienado.

2 – “Ah, mas o Ronaldo não vai assumir a dívida R$ 1 bilhão.” Aqui, XP Investimentos, Ronaldo e o presidente Sérgio Santos Rodrigues erraram ao não cortar o ruído de comunicação no nascedouro das negociações, impedindo falsas expectativas ou ilações.

A explicação está na própria Lei das SAFs: é obrigatório ao comprador destinar 20% de suas receitas e 50% dos dividendos para que a associação (o clube) tenha condições financeiras de quitar suas dívidas pregressas. No caso do Cruzeiro, Ronaldo teria seis anos para gerar receitas (ou aportar do seu próprio bolso) para pagar 60% da dívida e, assim, ganhar mais quatro anos para quitar o restante (40%). Caso ele não cumprisse, automaticamente se tornaria credor solidário e responsável pelo pagamento integral (cerca de R$ 1 bilhão). Isso não será diferente para Botafogo, Vasco ou qualquer outro clube.

3 – “Ah, mas ele não vai colocar 400 milhões do bolso.” Verdade. Ele poderia ter pago essa quantia em cash, entregado ao Cruzeiro e agradecido. Daí por diante, qualquer aumento na receita (que hoje, sem Ronaldo, é zero), não seria rateado com a associação. Em vez dos 80/20, como está no acordo, seria 100% da SAF.

Sendo assim, aos digníssimos senhores da Mesa Diretora do Cruzeiro e aos demais signatários da nota contrária ao acordo da SAF, reitero meu profundo respeito, mas também deixo o pedido de um mero torcedor da arquibancada que sou. Tenham muita responsabilidade nesse instante delicado. Se houver (espero que não) qualquer motivação política ou disputa de egos, que os senhores procurem um meio judicial para dar cabo a ela, mas não joguem com nossa esperança.

O Time do Povo Mineiro não é gigante por vocês, por presidentes, pelo Ronaldo ou qualquer outro investidor. Ele é por conta da sua torcida, essa, sim, o único patrimônio inalienável do Cruzeiro Esporte Clube. Por isso, digo a todos vocês: virem a página das picuinhas e nos deixem chegar até a luz do fim do túnel de uma vez por todas.

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