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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

O orgulho do cruzeirense pendurado nas paredes pelo interior de Minas

Recordar o tempo em que eu vivia com pessoas, para as quais, o Cruzeiro era simplesmente o Cruzeiro, e nada mais


07/07/2021 04:00 - atualizado 06/07/2021 21:05

Poster do time campeão do Brasileirão em 2013. Lembranças que fazem esquecer as sucessivas crises do clube(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press %u2013 13/11/13)
Poster do time campeão do Brasileirão em 2013. Lembranças que fazem esquecer as sucessivas crises do clube (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press %u2013 13/11/13)

O corpo e a mente às vezes nos pedem clemência. O coração azul, machucado, tem doído além do normal. Quando em vez, para não o deixar parar, tento o exercício de esquecer o Cruzeiro por alguns segundos. Uma ilusão para dar sobrevida à minha paixão. Mas aqui no Vale do Jequitinhonha, onde Minas Gerais bebe história e resiliência, é impossível ser alheio a uma terra cruzeirense por natureza.
Sábado passado, foi assim, quando resolvi subir a encosta para degustar a famosa canjiquinha com caldo de feijão do Bar do Batista, em Capelinha, reduto celeste do Jequi.

Na parede ladeando as mesas, Everton Ribeiro, Ricardo Goulart e todo o escrete do bicampeonato de 2013/2014 me olhavam sorridentes. Na outra, ao lado do freezer de cerveja, os campeões das conquistas da década de 1990, em pôsteres pendurados, me devolviam aos tempos da arquibancada lisa do Mineirão.

Quando vi meu amigo e Mestre Raimundo “Cruzeiro” Nonato da Silva, Marcelo Ramos, Dida, Ricardinho e Fabinho, postados no gramado do Parque Antarctica, fechei os olhos como quem sente uma pontada forte no peito. Apertei, concentrei o pensamento para tentar retornar à posição de esquecimento. Mas quando fui pedir o vidro de pimenta para derramar sobre o caldo na caneca, ouvi o narrador gritar na TV, presa sobre o vão da entrada dos banheiros, avisando que, em instantes, Cruzeiro e Brasil de Pelotas entrariam em campo.

Batista já baixava as portas do boteco. Pediu que fosse rápido no degustar da canjiquinha encorpada com nacos de costelinha e avermelhada pelas gotas picantes derramadas sobre o cheiro verde. Fiz como me pediu. Não sei se por companheirismo ao dono daquele reduto raiz, onde ainda se pendura orgulho nas paredes, ou se para fugir da comichão por assistir à peleja. Certo foi que, me sentindo de volta ao meu universo encantado de cruzeirense do interior, resolvi esquecer a podridão da política do clube, o egocentrismo de uns e a vingança destilado por outros nas redes sociais e nos corredores do clube, em Belo Horizonte. E me permiti assistir ao sofrível embate.

Dias antes do 0 a 0 em Pelotas, numa fazenda de café, conheci Duarte. Ainda quase bebê, migrou para o Brasil com a mãe africana Manuela e pai português Miguel. Tornou-se um genuíno filho do Vale do Jequitinhonha. E assim como eu, ele não fugiu à regra: se fez um cruzeirense interiorano do mais alto sonhar com as estrelas.

No sábado, antes da canjiquinha no Batista, a turma havia programado um churrasco para celebrar a semana de labuta pelas chapadas do Jequitinhonha. O encontro foi vetado categoricamente por Duarte: não admitia qualquer evento ou desvio de foco no horário de jogo do nosso Cruzeiro.

Marcou para o dia seguinte, pois queria me pedir que escrevesse sobre o que realmente interessa a nós, cruzeirenses interioranos: a bola, a paixão e a dádiva de fazer algo pelo Cruzeiro. Duarte nem sonha sobre o deprimente bastidor de uma diretoria sofrível e egocêntrica, de oposições retrógradas e oportunistas, de empresários birrentos e de “cruzeirenses” alimentando toda essa destruição por pura falta de desprendimento em prol da coletividade. Para ele, o Cruzeiro são 11 em campo (atualmente, 11 pernas de pau)  e milhares na torcida incondicional pela instituição, sem “poréns” ou condicionantes.

Essa volta ao mundo do bem-querer ao time estrelado, me tirou da posição de entrega ao esquecimento e me devolveu o desejo de lembrar. Recordar o tempo em que eu vivia com pessoas, para as quais, o Cruzeiro era simplesmente o Cruzeiro, e nada mais. Fosse no Vale do Jequitinhonha ou na minha Mariana.

A postura de Duarte me deu a chance de – ao menos um pouquinho – voltar a ser o menino sonhador azul do interior de Minas. Puro, orgulhoso e que jamais teria a mesma postura tóxica daqueles que sempre sonharam com a nossa destruição.
Quanta falta faz ao Cruzeiro os Duartes, os Batistas, os redutos interioranos, os pôsteres nas paredes dos botecos.

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