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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Astros como Tostão ajudaram a inflamar de amor a Nação Azul

Torcedores-símbolo do Cruzeiro, como a professora Marcinha, representam a paixão de mãe pelo clube celeste


05/05/2021 04:00

Um dos ícones do futebol brasileiro e do Mineirão, Tostão deixou gravados os pés mágicos para o acervo do Gigante da Pampulha (foto: Pedro Vilela/Agência I7 %u2013 5/9/17)
Um dos ícones do futebol brasileiro e do Mineirão, Tostão deixou gravados os pés mágicos para o acervo do Gigante da Pampulha (foto: Pedro Vilela/Agência I7 %u2013 5/9/17)


O final de 1969 se aproximava. O tempo de ventania ensaiava despedida. Era chegada do calor de verão ameno em Belo Horizonte. No Bairro Barro Preto, o som do apito das fábricas se misturava ao dos treinos do Cruzeiro Esporte Clube. As ruas também eram algazarra, com a molecada correndo atrás da bola, sonhando ser os próximos Tostão, Dirceu Lopes, Raul e Natal.

Nas casas, sobrados e cortiços, mães, donas de casa ou operárias em fim de expediente se juntavam para um dedo de prosa ao café da tarde, em meio ao cheiro do pão fresco vindo da Padaria Primavera. Assim, a vida seguia no reduto do Time do Povo Mineiro, enquanto, Brasil afora, só se falava na Academia Celeste, que em 1966 havia tirado o futebol mineiro do regionalismo e apresentado Minas Gerais ao mundo.

Nesse tempo, a professora Marcinha já era uma daquelas mães do Barro Preto. Filha da região de Santa Efigênia, reduto do América, time de torcida restrita à primeira geração de funcionários públicos da capital, depois de se casar com um cruzeirense de quatro costados e se mudar para o bairro dos italianos, ela viu seu coração ser tomado – para sempre – por um amor incontrolável pelas cinco estrelas.

A casa de Marcinha era grudada na da sogra, Maria. Rua Paracatu, entre Guajajaras e Timbiras. Ali vivia com o esposo Walbert e os filhos, Beto, Maria Regina e Ricardo. O Barro Preto ainda era um reduto de imigrantes italianos, operários, com uma classe média despontando. Onde ainda se bebia o leite deixado em vasilhame de vidro, nos alpendres, pelo moço da carrocinha.

A Avenida Augusto de Lima era uma divisa imaginária entre os italianos “de cima” e os “de baixo”. No centro disso, o Estadinho JK como um coração pulsante, irrigando paixão azul e branca por todos os lados. Em algumas casas, o verde e vermelho dos primórdios do Palestra/Cruzeiro ainda tinha o seu espaço, como na alfaiataria de Tonho, um dos primeiros sócios do Palestra Itália.

Mas naquele 1969, o Mineirão já havia se consolidado como o novo palco do esquadrão montado pelos jovens Felício Brandi e Carmine Furletti. A recém-inaugurada sede campestre se tornara o ponto de encontro para as jovens famílias cruzeirenses e os velhos palestrinos, jogadores de bocha e tressette.

Assim, o Estadinho JK, no Barro Preto, começava a perder sua majestade. Mas ainda era onde o time treinava e os meninos podiam viver alguns momentos ao lado dos ídolos, após os treinos, no balcão do Bar Buru, do Jarbas, instalado bem na entradinha da Rua Guajajaras.

Se os jogos ocorriam longe, na Pampulha, as ruas do Barro Preto continuavam a ser palco das comemorações dos seguidos títulos do Cruzeiro. Na sacada do casarão da bisavó Dinha, 19 bisnetos se juntavam para celebrar o campeão. Marcinha, sorria de longe, os vendo tremular as bandeiras azuis e brancas costuradas, uma a uma, por ela.

Marcinha viveu todos esses momentos alegres intensamente e, nos tristes, usou seu sentimento de mãe para amenizá-los. Um deles ocorreu na noite de 24 de setembro daquele 1969. Longe dali, no Pacaembu, em São Paulo, numa partida do Cruzeiro contra o Corinthians, o menino Tostão levou uma bolada no olho.

Desde então, foram dolorosos e longos dias de recuperação para o verdadeiro super-herói da molecada do Barro Preto. Foi quando Marcinha pegou papel e caneta, juntou os filhos e se pôs a redigir uma cartinha de incentivo para Tostão.

Como certa vez disse um poeta da vida, era tempo em que a solidariedade ainda existia. Foram só dois quarteirões entre a casa na Rua Paracatu e o Estadinho JK, onde deixaria a carta para ser entregue ao ídolo ferido, mas, certamente, Marcinha fez o trajeto cantarolando uma das suas paródias musicais, criadas para animar a criançada cruzeirense: “A bandeira azul é do benquerer/a bandeira azul e branca, eu hei de amar até morrer”.

(*) Dedico a história de Marcinha a todas as mães cruzeirenses e palestrinas. Que tenham um feliz Dia das Mães

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