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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Tardelli agora é um de nós. Entrou jogador, sai torcedor

Não conheço um jogador do Crüzëirö que tenha feito tanta raiva no atleticano como Tardelli o fez no lado de lá


29/05/2021 04:00 - atualizado 28/05/2021 23:31

Tardelli foi responsável por gols emblemáticos na história atleticana, incluindo o do título da Copa do Brasil em 2014(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press %u2013 28/2/21)
Tardelli foi responsável por gols emblemáticos na história atleticana, incluindo o do título da Copa do Brasil em 2014 (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press %u2013 28/2/21)


Foi-se dom Diego, e nessas horas o atleticano fica numa dor de corno danada. Verdade que há, hoje, os atleticanos pragmáticos, certificados no curso de coaching, especialistas no custo e benefício – e para que essas coisas funcionem a contento, a premissa básica é possuir um coração de pedra. Para os atleticanos normais, contudo, o fim do contrato de Tardelli corresponde ao abrupto rompimento com a mulher amada, ou o homem amado, tanto faz. “Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer. Aquela aliança, pode empenhar, ou derreter.” O disco do Pinxinguinha certamente não fará diferença: Tardelli, que nunca vai tarde, gosta mesmo é de um molejão.

Com a partida de Tardelli (desculpe se isso parece um obituário), morre em definitivo o velho Mineirão. O atleticano do coaching dá graças a Deus, ele queria levantar a taça e ela não vinha nem pra um diabo. Os normais se regozijam com aqueles tempos difíceis, mas repletos de uma energia louca, da qual era combustível o chope dos bares diversos e diversificados, cada um ao seu modo. O Tardelli de 2009, número amarelo às costas, me remete de imediato às nossas patas de caranguejo, desenvolvidas a partir do manejo seguro de oito copos de chope ao mesmo tempo, quatro em cada pata – e rezando a Deus para que ninguém lhe batesse a carteira no tortuoso trajeto até a arquibancada.

Quando dom Diego chegou, arquibancada era arquibancada, o traseiro no cimento, no máximo naquelas almofadinhas que os mais velhos levavam, de modo a preservar a poupança. Vínhamos de traulitada atrás de traulitada, só levando na cabeça. Caímos e subimos, porque time grande cai e sobe, mas andávamos imersos na mala onda havia um tempo, comendo o bolinho de feijão que o diabo amassou. Tardelli era um craque de bola. Já acostumados a colher no mercado os nossos Mexiricas, não entendi por que dom Diego decidira amarrar conosco a sua égua.

Pois bem: a gente precisava do Tardelli, e o Tardelli precisava da gente. Tínhamos, ambos, um déficit de amor que precisava ser abatido. O atleticano morreu de amores pelo Tardelli, e o Tardelli se rendeu ao Atlético, onde fez valer a máxima do nosso RH: entra funcionário e sai torcedor. E quem acha que foi diferente possui um coração de pedra.

Assim como Jesus, o Galo tem os seus a.C. e d.C. Antes e depois de São Victor, antes e depois de Ronaldinho. Pois Tardelli foi o único, dentro de campo, a viver as duas fases, o antes e o depois. Com sua passada de Cerezo – Marrony também tem –, trilhou o caminho do ídolo inconteste. E a simbologia de seu lugar na história é a imagem da comemoração de um gol em que homenageou Reinaldo: puxou o calção pra cima, como se usava antigamente, e ergueu o punho cerrado. Não é sacrilégio dizer que ambos se equivalem.

Sua marca, no entanto, foi a arminha com a mão. Matador, ou seja, fazedor de gols. Curiosamente, o símbolo que entrará para a história pelas mãos de outro matador. Antes do Darth Vader, porém, aquilo nos enchia de uma esperança arrebatadora. Ainda mais que dom Diego estava sempre pronto a matar o cruzeirense de ódio, nessa época em que o ódio era sentimento trivial e aceitável, e não uma política genocida de extermínio. Saudade desses tempos.

Quando ele voltou (e como esperamos por aquela bendita tuitada!), já não era o mesmo: era melhor. Tinha um quê de Zidane, que também tinha a passada do Cerezo. Já não figurava centroavante, mas onipresente por toda parte, gastando a bola e a sabedoria. Levantou a taça da Libertadores, e poderia ter feito o gol do título. Perdeu. Perdeu mas ganhou. É nóis.

Taaardeeeli! Gol! Gol! Que tormento foi dom Diego para o crüzëirënse, Ave, Maria! O gol do título da Libertadores converteu-se no gol do título da Copa do Brasil de 2014, a Copa de Todas as Copas. Sinceramente, não conheço um jogador do Crüzëirö que tenha feito tanta raiva no atleticano como Tardelli o fez no lado de lá. Ele e Marcos Rocha ostentado a 9 e a 2, alusão ao 9 a 2 eterno, é a imagem do que significou dom Diego para o arquifreguês.

Que Tardelli tenha, em grandissíssimo estilo, a despedida que merece. Aliás, vão se acumulando protagonistas para o convescote final: Tardelli, São Victor, Ronaldinho. Que a Arena MRV seja, enfim, o palco para o jogo final desse trio maldito.

Obrigado, dom Diego! Se posso lhe oferecer uma sugestão, respeite meu peito tão dilacerado, não vista outra camisa, aceite para sempre a nossa armadura. Quando for assaltado por pensamentos nostálgicos, as marcas de amor nos nossos lençóis, as nossas melhores lembranças, então bote pra tocar a Marselhesa do Galo: “Nós somos do Clube Atlético Mineiro...”. Sim, você agora é um de nós. E quando o Hulk levantar a taça, seremos todos levantando a taça, eu, você, o Éder e o Reinaldo. E sem a arminha, por favor. Dom Diego, você foi demais.

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