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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Sobre o velho COVID e os perdigotos expelidos no grito de Galo

Se havia o coronavírus, era um covidizinho de apenas um dígito, que amigavelmente trocamos. Não havia COVID-19, o que nos matou foi o Renato Gaúcho


postado em 28/03/2020 04:00

Lance do jogo entre Atlético e Flamendo no Mineirão, pela Copa União, em 1987. O rubro-negro venceu por 3 a 2(foto: Arquivo EM - 2/2/87)
Lance do jogo entre Atlético e Flamendo no Mineirão, pela Copa União, em 1987. O rubro-negro venceu por 3 a 2 (foto: Arquivo EM - 2/2/87)


Agora que estamos apartados uns dos outros, é possível verificar a eficiência de um abraço bem dado. Apertar alguém contra o peito enquanto se acariciam as costas ou se bate levemente nela – que santo remédio!

Em 1987, aos 15 anos, eu e o meu amigo Daniel tomamos escondidos um ônibus na rodoviária e fomos para o Maracanã ver o Galo de Telê jogar a partida de ida da semifinal da Copa União, o Brasileiro daquele ano, contra o Flamengo. Invictos até então, perdemos com um gol de Bebeto. Na volta, em Belo Horizonte, havia um clima de guerra – o troco pela violência sofrida por torcedores atleticanos no Rio de Janeiro. Foi a única vez que ouvi a Massa gritar por “VINGANÇA! VINGANÇA!” nas arquibancadas do Mineirão. Das poucas vezes que vislumbrei, num estádio de futebol, o cenário perfeito para uma tragédia de verdade.

A tragédia porém se deu em campo. O Flamengo, que só havia se classificado porque o Galo ganhara os dois turnos, abriu 2 a 0. Naquela época essa ainda não era a senha para o atleticano falar com Deus. Era tão somente a pá de cal no nosso sonho impossível, a revanche de 1980 e 1981, quando o time oficial da Ditadura ganhou do Atlético, na mão grande, o Brasileiro e a Libertadores (e, por consequência, o Mundial).

Aos 15 anos, eu ostentava o ápice de minha forma física, posteriormente conhecida como chassi de frango (ou chassi de louva-a-deus). Em todo caso, já era idade suficiente para ter abandonado meus tios na “torcida do América” (espaço ocupado pela Galoucura a partir de sua fundação, em 1984) e migrado para o meio do campo, entre os Dragões da FAO e a Super Força Viva. Ali precisamente, onde se dava o furdunço todo, a porrada comia solta e os copos de xixi sobrevoavam as cabeças cozidas pelo sol.

Naquele dia, quando toda a desesperança se abatia sobre nós, Sérgio Araújo partiu pelo meio e, da entrada da área, fez o gol de empate. “VINGANÇA! VINGANÇA!” Não sei o que foi feito de mim. Meu chassi de louva-a-deus foi abalroado por uma gente louca, um descarrego de igreja evangélica se misturou a corpos convulsionantes, o xixi, o chope e o tropeiro voaram pelos ares, o Atlético ia tirar o Flamengo e ganhar a porra de um Brasileiro, eu só precisava sobreviver para assistir àquilo – mas naquele momento mágico também já podia morrer, tava tudo certo.

Daquela loucura de mil ácidos lisérgicos fui resgatado por um negro desconhecido, alto e forte, que assistira ao jogo ao meu lado, o coração carcomido por agruras variadas, entre elas as injustiças todas contra o seu Galo querido. Esse negro desconhecido me apertou contra o seu peito como um filho que não via há décadas. Meus pés saíram do chão e naquela hora eu me lembrei de quando o meu tio Carlos Alberto me arremessava para o alto, lá na “torcida do América”, quando o Galo fazia um gol. Isso era um tanto pavoroso, confesso.

O negro desconhecido agora chorava abraçado comigo, o meu chassi de frango ameaçando trincar naquele abraço desbragado, aquela inocência do corno na hora do reatamento. Eu apertava o negro desconhecido contra o meu peito, e estapeava as suas costas numa felicidade desmedida. Se havia o coronavírus, era um covidizinho de apenas um dígito, que amigavelmente trocamos, entre perdigotos expelidos na “VINGANÇA! VINGANÇA!”. Bem, não havia COVID-19, o que nos matou foi o Renato Gaúcho. Filho da p...

Quando o Galo ganhou a Libertadores, escrevi esta minha coluna do celular, sentado na arquibancada, chorando (sou um misto de punk rock com Reginaldo Rossi, Ratos de Porão com Odair José). “O jogo acaba de acabar, e não caibo em mim de felicidade e merecimento. Cada atleticano ao meu lado carrega uma aura em torno de si, uma luz que brilha dos olhos e do coração. A história de cada um deles será diferente a partir de hoje. O amor que floresce em cada uma dessas pessoas nesta noite – pretos, brancos, pobres, ricos – vai tornar o mundo mais justo e humano. Eu quero ter braços gigantes pra abraçar todas elas.”

Parabéns, Clube Atlético Mineiro, pelos seus 112 anos de vida. Na falta de um abraço, deixo o meu namastê, que merda... Quando voltarmos desse universo paralelo, vamos expelir sem culpa os nossos perdigotos no grito de “GAAAAALOO”. Por ora, lembremos papai Kalil: “O melhor marketing é bola na casinha”.

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