
O Atlético foi eliminado da Copa do Brasil por um time cujo goleiro usa boné à noite. Por haver uma marca comercial estampada na peça, aventou-se a possibilidade de o arqueiro ser um frentista de posto que acabara de sair do trabalho. Na verdade, paira sobre a carcaça craniana de Wallef o logotipo de uma pousada em Afogados da Ingazeira. “É meio que um patrocínio”, disse ele ao UOL. “Eu divulgo a marca e não pago, aí tenho moradia, quarto, alimentação”.
Wallef merece. Assim como a Campinense merecia e o Afogados mereceu. Não foi zebra. Foi jogo jogado, tudo bem que no estilo Arranca-Toco contra o Tabajara Futebol Clube, pelada dos casados contra os solteiros da firma. Zebra foram os solteiros, naquela ressaca, terem conseguido o empate contra os conjes na primeira fase da Copa do Brasil, a Lampions League (valeu, Xico Sá). Em Afogados da Ingazeira apenas deu a lógica.
Eu já havia cantando a bola aqui mesmo neste espaço, me desculpem a urucubaca: quando vi que havíamos pegado um time de nome Afogados, previ o pior. O atleticano que tem o coração carcomido por tantos dissabores, a eliminação para o Brasiliense, o Brasileiro perdido para Bangu, Coritiba e Brasil de Pelotas, o 6 a 1, o Raja, ele sabe: o Atlético não pode ver uma vergonha e já quer passar. Se o time se chamasse, vamos dizer, Ingazeiros Futebol Clube, passaríamos batido. Sendo os Afogados, nos atiramos de cabeça, morrendo numa regan de meio metro. Que carma, senhores, que carma.
Com março a bater à porta, o Galo de 2020 é o mais ridículo em muitos anos. Não é apenas um esquema que não se encaixa — é ridículo mesmo, incapaz de fazer frente a clubes do interior no campeonato estadual, goleado por um Bangu na Argentina, eliminado por um Afogados cuja folha de pagamentos inteira é menor do que o menor salário entre seus jogadores. Um clube que teve três ou quatro meses pra pensar na temporada seguinte e que depois disso mantém em seu elenco um Maidana para a zaga, um Zé Welison para o meio e um Di Santo para o ataque. Vejam onde o Tardelli foi amarrar sua égua.
Não se contrata nem sequer um estagiário sem obter dele alguma boa referência. Quando se trata de um alto posto executivo, absolutamente tudo é checado: os índices de sucesso nos trabalhos anteriores, as estratégias que cada candidato adotou para se chegar lá, o que deu errado e por quê, o que essa experiência ensina sobre novas estratégias para o futuro etc. Se alguém no Atlético se informou sobre Dudamel, fez um péssimo trabalho. Se não se informou, idem. A rescisão de seu contrato custará em torno de R$ 1,5 milhão. Saem Dudamel e Rui Costa, ficam os jogadores indicados pela dupla. Rezemos.
Sette Peles fez certo ao demitir Dudamel, e mais ainda ao mandar embora quem o contratou, o diretor Rui Costa. (Marques, coitado, estava no lugar errado na hora errada, e sobretudo em péssima companhia.) Em seu terceiro ano de mandato, esse talvez tenha sido o seu melhor momento. Ressalve-se apenas o óbvio: se é coerente demitir Rui Costa pela contratação da piada que é Dudamel, é mais coerente ainda mandar embora aquele que contratou Rui Costa. Sette Peles, pois, deveria demitir-se do cargo que ocupa, o que seria, este sim, o ápice de sua gestão.
O Galo encontra-se numa enrascada federal: foi sequestrado por uma gente cheia de vaidade e no entanto esvaziada de qualquer conhecimento sobre o futebol. Uma gente esperta que, no afã de produzir ganhos pessoais, é capaz de deixar-se fotografar pendurada às bolas de Jair Bolsonaro, e usando o clube para esse fim. No mesmo trapézio agarra-se aquele opositor solitário que questionou as contas da atual gestão. Tamo lascado.
Conta-se que um dos motivos da meteórica passagem de Dudamel foi a oposição dos jogadores, incomodados com uma certa rigidez de comportamento imposta pelo treinador “até na hora de comer”. Não se sabe se Duda queria impingir à tigrada alguma etiqueta no manuseio dos talheres. Coitado. Aqui é Galo, meu amigo! Aqui é a casa da Mãe Joana! A democracia atleticana na gestão do nosso Bozo: não há qualquer comando, e no caso de alguma emergência, “cortem as cabeças!”. E salve-se quem puder.
