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Estado de Minas FRANCISCO MORALES

São inúmeras as lições que a escola pode tirar dos efeitos da pandemia

Muito se articularam rapidamente para responder ao desafio de oferecer continuidade na formação dos seus estudantes. Mas, de forma virtual, repetimos as mazelas da prática educativa presencial


postado em 04/05/2020 04:00 / atualizado em 03/05/2020 23:07

Período de quarentena da pandemia de coronavírus impõe às escolas desafio de buscar novos formatos(foto: EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS %u2013 12/3/20)
Período de quarentena da pandemia de coronavírus impõe às escolas desafio de buscar novos formatos (foto: EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS %u2013 12/3/20)


Como num passe de mágica, a crise do coronavírus nos tirou do prumo e balançou, de forma avassaladora, as fundações de um projeto civilizatório aparentemente sólido e vencedor. Conceitos, pressupostos e formas de vida que nos pareciam secularmente consolidados ruíram como um castelo de areia. Algo assim como se o “tudo que é sólido se desmancha no ar”, de Marshall Berman, tivesse se concretizado.

Três dos pilares básicos do capitalismo moderno foram atingidos por esse tsunami: a sacralização do dinheiro, traduzido em consumo desenfreado e na busca de status e poder; a corrida frenética contra o tempo (time is money!) e a relação predatória com o espaço/natureza. Nada de ócio criativo (Domenico de Masi), ou relações cordiais e respeitosas com os outros e o entorno. Durante muito tempo fomos levados a crer que o nosso modo de vida deveria de ser obrigatoriamente esse e ponto final.

Essa mentalidade formatou e contaminou as nossas relações, familiares, sociais, com o meio ambiente e com outras instâncias do nosso viver, como o ócio, a cultura e o entretenimento. Evidentemente, a educação e todo seu entorno não escapuliram dessa visão dominante e redutora, o que nos levou a graves problemas pelos quais agora nos sentimos presos.

Frases como “quando tudo voltar à normalidade”, faremos isso ou aquilo, ou “nada será como era antes”, pois a experiência está sendo muito marcante, são escutadas diariamente. Ao final, tudo vai ou nada vai mudar? Voltará tudo a ser como era antes ou algumas coisas permanecerão? As mudanças afetarão por igual a economia, o trabalho, a saúde e a educação? Conseguiremos lançar “um novo olhar” sobre os antigos problemas?

A grande chave de leitura é essa: estamos experimentando que é possível outra forma de viver; que podemos nos relacionar com o tempo de forma mais sadia; que é possível subsistir de maneira mais frugal e sustentável; que os nossos relacionamentos devem passar pela colaboração e enriquecimento mútuos; que podemos conviver com a natureza de forma respeitosa e harmônica. Enfim, que outra existência é possível.

Começar já: após algumas semanas de desorientação, compreensível pelo abrupto do novo cenário, muitas escolas se articularam rapidamente para responder ao desafio de oferecer continuidade na formação dos seus estudantes. O problema é que, inconscientemente e de forma virtual, repetimos as mazelas da prática educativa presencial: muito conteúdo e normativa, conduzindo o processo educativo de forma tutelada. A virtualidade da tecnologia não eleva o nível de uma instituição escolar, ao contrário, a consolidada no seu posicionamento real. Escola deficiente presencialmente, possivelmente o será mais ainda na modalidade virtual. Mas escola considerada competente presencialmente não tem garantia de sê-lo também no formato virtual.

Redes colaborativas: nesse contexto, estamos perdendo uma ocasião única de promover práticas colaborativas entre professores e estudantes e estudantes entre si, compartilhando conteúdos e produção pessoal, criando redes de aprendizado e troca, e já estabelecendo, assim, alguns padrões para o futuro da educação. Deveria ser preocupação das escolas criar uma rede de formação e suporte para os professores nesse momento totalmente novo para a maioria deles.

A mudança como padrão: a mudança parece que será a única constante no futuro. Ela irá exigir dos profissionais da educação flexibilidade mental, desenvolvimento de habilidades socioemocionais e atitude contínua de aprendizado (aprender a aprender). Somado a isso, o autoconhecimento e a clareza dos novos cenários, para poder organizar o aparente caos externo, a partir de um ordenamento interior, e assim poder atuar de acordo.

Refundar a alma da escola: para repensar valores e alterar a sua escala, a escola deve aproveitar o momento histórico da quarentena para estabelecer novos parâmetros que nos ajudem a definir o que é sucesso e o que é fracasso (pessoal, escolar, social).

Isso exigirá passar de valores como a procura do sucesso individual, acima de tudo e por cima de todos, ao respeito mútuo e ao estabelecimento de relações justas e de serviço.

Valorização do cotidiano: a riqueza do dia a dia escolar é incontestável, pois é nele que criamos um clima adequado para a relação e o crescimento, propiciando o suporte para novos desenvolvimentos pessoais e coletivos. Levando em conta que as pautas escolares, agora mais do que nunca, deverão ir do real para o teórico, e não dos bancos escolares para a realidade, devemos promover um olhar crítico e fundamentado sobre a realidade, a relação interpessoal e a autonomia colaborativa

Apropriar-se da tecnologia, com tudo o que ela traz de bom, de facilitador, criando compartilhamento, democratização e personalização do saber. Aliada fundamental no aprender a reaprender, merece capítulo à parte.

Estimular outros modelos possíveis de futuro: combater a distopia, a desilusão, os cenários catastróficos, alimentando uma sadia utopia, que colabore com a nossa saúde mental, abra perspectivas de um futuro promissor e alimente um otimismo realista sobre o ser humano. Humanização é a palavra-chave.

Sabemos que a pandemia poderá ser intermitente durante alguns meses. Preparemo-nos para tempos novos que, apesar do sofrimento e da incerteza, poderão ser mais humanos, mais fraternos e mais benévolos para todos nós.

Mãos à obra!




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