Publicidade

Estado de Minas PANDEMIA

Isolamento deixará como legado as transformações sociais

Ciência fundamentada, tecnologia bem aplicada, informação objetiva e política séria e responsável têm se mostrado a equação para enfrentar as pandemias e que está sendo apresentada à população


postado em 06/04/2020 04:00 / atualizado em 06/04/2020 07:19

Brasileiros estão ganhando conhecimento diversificado e acesso à ciência que permitem análise crítica dos fatos(foto: Fred Bottrel/EM/D.A Press )
Brasileiros estão ganhando conhecimento diversificado e acesso à ciência que permitem análise crítica dos fatos (foto: Fred Bottrel/EM/D.A Press )

Desde que o mestre do suspense Alfred Hitchcock dirigiu o filme “Janela Indiscreta” (1951), as janelas não foram as mesmas. Nele, conta-se a história de um fotógrafo profissional, que está confinado em seu apartamento por ter quebrado a perna. Sem muitas opções de lazer, bisbilhota a vida dos seus vizinhos pela janela com um binóculo, montando um quebra-cabeça que o leva, a partir de alguns acontecimentos, a suspeitar de que um assassinato foi cometido.

Isolados pela pandemia provocada pelo coronavírus, as janelas ganharam um novo status. Elemento essencial na arquitetura, as janelas deixaram de ser apenas elementos vazados por onde entram luz, ar e tempo, para ganhar um papel social, tornando-se elementos de comunicação, de observação da vida e análise dos acontecimentos que vivemos. Hoje, somam-se às janelas físicas as virtuais. São janelas para o mundo e chegam até nós, pelas telas das tevês, das mídias sociais e de toda a parafernália comunicativa. Através delas, vamos acumulando informação, ganhando conhecimento diversificado e tendo a possibilidade de realizarmos uma síntese crítica do que está acontecendo.

Algumas lições vão ficando claras neste momento conturbado, rico e perturbador ao mesmo tempo:

– A crise que estamos vivendo é uma crise humanitária, atinge a humanidade como um todo, e nos mostra duas coisas: por um lado, a fragilidade do ser humano isolado (seja como indivíduo ou como nação), e, por outro, a necessidade de uma governança mundial para os assuntos que afetam a todos nós. Nesse sentido, repensar uma governança política mundial, de saúde e de educação, passa por repensar a ONU e OMS.

Ciência fundamentada, tecnologia bem aplicada, informação objetiva e política séria e responsável, vêm
se delineando como a equação adequada para enfrentar as pandemias. O compartilhamento e a troca de informações verídicas é hoje mais necessário do que nunca.

– A presença significativa de pessoas nas ruas mudou: moradores e menores de rua, catadores de lixo, sem teto, flanelinhas, junto com caminhoneiros, funcionários de farmácias e supermercados, taxistas, policiais e bombeiros, médicos, enfermeiras e sanitaristas, configuram um novo perfil social das ruas e avenidas.

– Os templos modernos, símbolos de desenvolvimento e status, sejam econômicos (bancos), de consumo (shoppings), de lazer (estádios), de religião (igrejas), de política (assembleias e parlamentos), ou financeiros e burocráticos (grandes prédios de escritórios), estão às moscas. Quitandas, padarias, entregadores de comida, comércio de bairro e agricultores suprem as nossas necessidades, ganhando notabilidade e nova visibilidade.

– Como avaliar, pais e escola, a experiência de “aprendizado escolar dentro de casa”? Valorizaremos as escolas, os professores e todo o ambiente escolar, entendendo que o espaço escolar é fundamental para o convívio, que o aprendizado em comunidades educativas é um valor ímpar? Estarão as escolas preparadas para receber os “estudantes quarentenials”, marcados por essa experiência e com alguns pressupostos mudados? Ou continuaremos priorizando conteúdos, provas, formalidades e deixando escapulir as grandes lições do momento?

– Ainda falando de escola, duas constatações. Fica comprovado que é ardilosa e irresponsável a tese de alguns pais e movimentos de que política não deve ser discutida na escola. O momento nos mostra o contrário. Política como preocupação com o bem-estar de todos, com os rumos da “coisa pública”, deve fazer parte, sim, do debate escolar. Devemos ampliar o conceito de saúde que é trabalhado nas escolas, que não mais deverá se restringir às DST, controle de vacinas ou conhecer o próprio corpo, mas sim deverá se ampliar ao estudo das políticas públicas sobre sanidade no país.

– Salta à vista a importância da tecnologia para o aprendizado (parabéns às escolas e universidades pelo esforço ímpar). Da mão dela, também a cultura, o esporte e as artes, relegadas, muitas vezes, a gatas borralheiras das escolas, têm sido fundamentais nessa situação. Parece urgente uma mudança de compreensão sobre essas matérias nos currículos escolares.

– Fica evidente a importância de uma espiritualidade humanizada e pessoal, que nos ajude a dar sentido ao viver, seja suporte nos momentos mais difíceis e nos alimente para o engajamento social. Nossa compaixão e solidariedade com as famílias que perderam ou perderão seres queridos, deve ser inquebrantável.

– Traremos o planeta terra, por fim, para dentro de casa e das nossas consciências? A experiência desses dias vivendo com menos, alimentando-nos melhor e mais frugalmente, esvaziando os nossos armários, poluindo menos e cuidando do ambiente familiar, se traduz num agradecimento da terra: escute os pássaros e os grilos, respire o ar limpo, sinta a natureza se reequilibrando e nos mandando uma mensagem clara e de profundo agradecimento.

É tempo de esperança e de compromisso. Esperança de que novos aprendizados nos ajudem a corrigir rumos, fortalecer alianças e criar uma nova realidade. De compromisso, porque somente uma blindagem de amor e solidariedade será capaz de nos proteger de essa e de outras pandemias que são, faz tempo, desafios para a humanidade. Ou, por acaso, não são pandemias para grande parte da humanidade a fome, a falta de escolas, os campos de refugiados, as guerras e a exclusão social?

Observem desde as suas janelas!

Francisco Morales Cano é morador do planeta Terra. Atualmente está em quarentena social, voluntária e solidária.

Compartilhe no Facebook
*Apenas para assinantes do Estado de Minas

Publicidade