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Estado de Minas EDUCAÇÃO

Como fechar a sua escola: o caminho que você não deve seguir

Saiba tudo o que não deve e não pode ser feito para evitar que a sua escola chegue à obsolescência e ao fracasso final


postado em 28/01/2020 04:00 / atualizado em 26/01/2020 22:06


Cada início de ano a história se repete. Todos nós retomamos projetos, promessas e sonhos engavetados, feitos por nós a nós mesmos: levar a sério a academia e emagrecer; aperfeiçoar o  nosso inglês; ler mais; visitar aquele amigo que não vemos faz tempo; tocar o instrumento  musical dos nossos sonhos; poupar mais; fazer aquela viagem e dar mais atenção para a família. Baita programa que, este ano, vai dar certo!



Com as escolas privadas acontece algo parecido a cada ano, misturando ilusão e pavor: será que vamos perder muitos alunos? E as escolas vizinhas concorrentes? E as contas, vão fechar esTe ano? Teremos que demitir muita gente? E como vai reagir a comunidade? E os conflitos sindicais? As decisões que tomamos foram acertadas? E o governo, vai ajudar ou atrapalhar? Mas, temos tradição, nome, trabalhamos sério e, além do mais, a nossa escola está linda, pintada, trocamos os computadores e compramos mobília nova. Vai dar tudo certo!

Acabei de ler o excelente ensaio Como as democracias morrem (Editora Zahar), dos professores da Universidade Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. No livro, os autores alertam para o perigo da subversão da democracia em andamento nos Estados Unidos e outros países (citam explicitamente o Brasil), “através de uma escalada autoritária que se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o Judiciário e a Imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data”. Sou devedor a esse livro pela inspiração do título e de algumas ideias deste texto. 

Assim como as democracias, algumas instituições educacionais privadas correm sério risco de morrer. Pensemos, por exemplo, em quantas escolas privadas fecharam as suas portas nos últimos anos. Somente no estado do Rio de Janeiro, 218 escolas fecharam entre 2013 e 2015; 220 escolas privadas fecham por ano no Ceará; em Minas são 2 ou 3 por semana, e o ensino privado, como um todo, encolheu 27 no Brasil nos últimos anos. E a fila anda!

Algumas das causas dessa falência são exógenas, outras endógenas. São a essas últimas a que me refiro, embora entendo que muitas vezes as externas também têm um papel fundamental. Só que, muitas delas, independem de nós.

Os passos que você vai ler a seguir querem indicar um caminho, que você, diretor, colaborador ou dono, precisa seguir para levar a sua escola à obsolescência e ao fracasso final. Leia e entenda que o correto é o avesso, por favor.

Olhe mais pelo retrovisor do que pelo para-brisas. Insista em que qualquer tempo passado foi melhor e que, portanto, há pouco mais a aprender. Seja saudosista, no sentido mais negativo possível, e fique ancorado no passado.

Continue acreditando que um “monte de eu” é mais do que nós; alimente os grupinhos e as fofocas internas. Divida as equipes e nunca tente formar times. Siga a velha máxima de “divide e vencerás”. Não pode se fortalecer muito ao grupo, pois existe o perigo de que mandem mais do que você.

Trate minimamente bem aos seus professores e funcionários, não exagere nas boas condições de trabalho e cuidado com os salários. Ao final das contas, ninguém se faz professor para ser rico. Professor tem que ser esforçado e, minimamente, sofredor. Essa história de incentivar e investir em formação continuada e atualização, nem pensar. Eles que se virem.

 Os estudantes e suas famílias têm o seu lugar já bem definido, ao final eles estão aqui para aprender e as famílias, em geral, não entendem nada de educação. Não faça muita questão de escutá-los e torná-los partícipes ativos da sua escola, para que não se sintam os donos e mandem e desmandem ao seu bel prazer.

Crie uma bolha opaca e desenvolva nela a sua escola. Deslegitime tudo e todos que queiram trazer temas atuais, de raiz, que afetam o ser humano e o convívio escolar. Não deixe olhar para fora. Lá tudo é problemático, político, conflitivo e a escola não é lugar disso. Crie seu próprio mundo e fuja do mundo real

Não inove e nem se preocupe com as novas linguagens educacionais, as novas metodologias e o avanço das tecnologias e suas novas possibilidades para a aprendizagem. Afinal, vocês sempre fizeram desse jeito e deu certo. Por que não continuar assim?

Isole-se, não procure outras escolas, não troque, não partilhe. Afinal, não se dá dicas ao concorrente, seria como dar o ouro ao bandido. Você faz melhor do que eles e não tem nada a aprender. Guarde seus projetos educacionais só para você.

É tempo de cuidar do planeta, das pessoas e da vida como um todo, mas não se preocupe com isso. Isso é papo de vegetariano e esquerdista, que não tem o que fazer. Na sua escola, só trate de temas que interessam e que ofereçam “futuro” aos seus alunos. Seja exigente sem enfeites e nem frescuras. Carro apertado é que canta pneu!

Não atualize os seus sistemas administrativos, financeiros e de gestão. Fique por fora das novas técnicas e processos de comunicação, marketing e suas linguagens, das novas métricas e do feed back do mercado e dos seus usuários. 

Deixe para trás os seus sonhos e suas utopias, torne-se bem pragmático e esqueça do brilho nos olhos que um dia você já teve quando falava de educação e que, agora, percebe que era irreal e sem sentido. Agora, sim, você tem o pé no chão.

Eis aí, caro educador, o caminho que você NÃO deve seguir.

Francisco Morales Cano, foi diretor geral do Colégio Santo Agostinho-BH durante 20 anos. Atualmente é Diretor Pedagógico do Grupo Educacional Vereda.

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