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Estado de Minas ECONOMÊS EM BOM PORTUGUÊS

As exportações que mascaram a produção e o (des)emprego

Com cenário econômico incerto e em meio à vacinação desordenada e lenta, o país vai adentrar no segundo semestre com o desafio de reaquecer a demanda interna


08/06/2021 06:00

Exportação de frangos para a China(foto: Wikimedia Commons)
Exportação de frangos para a China (foto: Wikimedia Commons)


Crescimento empobrecedor ocorre quando uma multinacional decide vir para o país para alcançar seu mercado consumidor, uma vez que as barreiras à importação de seus produtos externos inviabilizam sua comercialização local.

Assim, as multinacionais se instalam nesse mercado e passam a produzir localmente, porém gerando produtos com características inferiores àqueles equivalentes no mercado internacional. No final, acabam construindo reserva de mercado favorecida pelas mesmas barreiras que antes as impediam de importar. Ótimo exemplo são carros produzidos nacionalmente comparados aos similares internacionais, que além de tecnologicamente inferiores, são ainda mais caros.

O economista Edmar Bacha escreveu, no último 31/05, artigo no jornal Valor Econômico (Por que a indústria não exporta?) remontando ao conceito de crescimento empobrecedor para explicar porque o Brasil tem um resultado elevado do Produto Interno Bruto (PIB) e medíocre em sua performance exportadora. O resultado acumulado dos cinco primeiros meses da Balança Comercial brasileira é fruto sobretudo do crescimento de 58,2% das exportações da indústria extrativa mineral e 31,3% da agropecuária, e muito menos da indústria de transformação, com 19,6%, o que endossa os argumentos de Bacha. 

A pauta exportadora da indústria de transformação não teve, como já ocorre há tempos, nenhuma representatividade nos grupos de alta e média-alta intensidade tecnológica – que significam níveis mais elevados de investimento em pesquisa e desenvolvimento. Extrativa mineral e agropecuária compõem os grupos de média-baixa e baixa intensidade tecnológica, respectivamente, e têm sido extremamente favorecidos pela retomada da atividade econômica mundial e seus aumentos de preços no mercado internacional.

Nossa pauta exportadora diz muito sobre nosso estágio tecnológico de desenvolvimento. Seguimos tentando inventar estranho modelo em que o setor privado assuma as rédeas da atividade econômica, mas mantidos protecionismos e barreiras que não estimulam nem a concorrência nem o investimento em pesquisa e desenvolvimento, além de criarem falsas percepções de avanço e desenvolvimento econômico. Vibrar com o resultado do Produto Interno Bruto do primeiro trimestre e da Balança Comercial nos cinco primeiros meses do ano soa pura aposta política de curto prazo.

Mas o curto prazo também traz preocupações e desafios nada desprezíveis. A crise hídrica que se aproxima servirá, dentre outras coisas, para produzir impacto ainda mais forte sobre os preços da energia para o consumidor final, além de riscos de racionamento de água e potenciais prejuízos tanto à agropecuária quanto ao turismo. Enfim, a crise hídrica fará estragos no segundo semestre de 2021. 

Com cenário econômico incerto e em meio à vacinação desordenada e lenta, o país vai adentrar no segundo semestre com o desafio de reaquecer a demanda interna, lembrando que seu nível de desemprego dos três primeiros meses do ano é de 14,7% e sua política assistencial bem menos robusta que a de 2020. 

John B. Taylor, ex-secretário do Tesouro americano e professor da Universidade de Stanford, publicou, na plataforma Project Syndicate, em 02/06, artigo intitulado The Stimulus didn’t work, again (Os estímulos não funcionam, novamente) mostrando que os estímulos à economia americana através de programas de auxílio de renda têm tido efeito bem maior sobre a poupança do que sobre o consumo.

No Brasil, o auxílio emergencial em 2020 gerou parcialmente o efeito verificado na economia americana, com aumento da poupança, mas é bem provável que em 2021 o consumo se dê via redução da poupança pessoal e não se sustente em 2022. 

O artigo Another reason why unemployment can remain high even in a recovery (Outra razão por que o desemprego permanece alto mesmo na recuperação) publicado na última edição (02/06) da revista The Economist, apresenta o conceito de “desemprego contagioso” como explicação adicional para justificar a permanência do desemprego elevado mesmo após retomada da atividade. 

O conceito de desemprego contagioso evidencia, na prática, que o custo de recrutamento para as empresas, contrariamente ao que preconiza a teoria, torna-se mais elevado em momentos de retomada da atividade.

Pesquisa americana recente indica que as pessoas desempregadas enviam dez vezes mais solicitações de emprego que aquelas empregadas que desejam trocar de emprego e têm uma taxa de sucesso por aplicação de menos da metade do que aquela verificada para pessoas que querem mudar de emprego. Enfim, trocar de emprego é muito mais fácil que se reempregar, mesmo em tempos de retomada. 

desemprego contagioso gera efeito perverso sobre a perspectiva das pessoas mais afetadas pela fraca atividade econômica, culminando no crescimento do contingente de pessoas desalentadas – aquelas que acabam por desistir de buscar trabalho, embora estejam disponíveis.

No Brasil, dentre as pessoas de 14 anos de idade e mais fora da força de trabalho, mas que podem compor o contingente de pessoas em idade de trabalhar, o grupo das desalentadas tem subido continuamente, desde o segundo trimestre de 2014, quando ainda representavam 2,3% daquele total e atualmente alcançaram o nível de 7,8%. 

Parece irônico, mas em tempos em que usar máscaras virou antídoto para sobrevivência, o desempenho de nossa pauta exportadora sem participação relevante de produtos com maior intensidade tecnológica continua mascarando os conceitos de crescimento empobrecedor e desemprego contagioso, invisivelmente espraiados em nossa economia

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