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Estado de Minas ESPUMA ESSENCIAL

Na receita uma gota de fantasia

"Estava de fato surpreso. Foi redesenhando a elaboração e, modelo que soava ideal, tirou os olhos do caderno para matar uma dúvida. Ar de espanto, viu tão somente o gato Nicolau"


postado em 03/01/2020 04:00

 
 
 
Jornalista, escritor e cervejeirou

Havia uma só luz na fábrica, tarde da noite, naquele começo de novembro. A turma toda já desplugada, e restava ali um Guto afinando a receita da Apa. Havia quebrado a cabeça numas três produções, e a cerveja longe do ponto com que sonhava. Um ajuste, mais outro, e ainda sem chegar ao buquê e ao equilíbrio esperados. Num ano em que tinha mais a agradecer, o acerto daquela American Pale Ale o fizera cruzar noites insones.
Uma conta, uma projeção, os sinais de que estava perto de solução, foi que ouviu a voz. Um susto monumental, o pulo da cadeira e de pronto agarrou-se à chave de fenda. O celular à mão esquerda no modo socorro. Coração descompassado, conferiu: entre a panela de cozimento e a de clarificação, a figura corpulenta. Estática. Emudeceu e, reordenando as ideias, se perguntou se delirava ou se corria risco de verdade.
Agora, não entendia mais nada. O homem lhe sorria. Armou-se em posição de defesa e escutou a frase na contramão:
– Calma, Guto, calma.
– Mas que porra é essa? Um doido fantasiado de Papai Noel... Quer morrer? Quer me matar? É uma pegadinha essa merda?
Entre o suor quente e o calafrio, tremendo, não se desgarrava da chave de fenda. Um movimento em falso e estaria pronto pra atacar.
– Mas que diabos quer? Quem te contou meu nome? Quem, afinal, é você?
– Sou o que você está vendo, sem tirar nem pôr: Papai Noel.
– Se não sair daqui nesse instante, já vou ligando pra polícia.
– Calma, Guto, calma.
– Calma o cacete. Que zona é essa? Pra começar, você nem existe. De mais a mais, não confio em estranhos. E nem Natal é.
Os dois ficaram se olhando, medindo mutuamente os gestos, como numa cena de faroeste.
– Vim pra presentear, ajudando com a Apa. 
Ele atônito com a referência à Apa. 
Seguia trêmulo.
– Ah, não... Quem armou essa palhaçada? Juarez, Vânia, Virgílio?
No entremeio das frases, ia conferindo a indumentária do desconhecido. Num rubro denso. Barbão num branco neve. Botas que remetiam às temperaturas impiedosas do Polo Norte, muitíssimo longe de combinar com o sol a pino do Brasil. No fundo, se acalmara.
– Escuta, quem fez essa armação toda nem pensou em disfarçar a cafonice dessa roupa, dar uma tropicalizada?
– Relaxa. Deixa o imaginário coletivo manter vivas essas tradições.
– Tradição de quê? Você nem existe. É produto comercial, miragem.
O visitante parecia ter acusado o golpe. Fixou-se em Guto com ar de autocompaixão. Mirou-o por sobre os óculos e deu tom sereno à voz.
– Estou aqui por você. Pela sua Apa. Se realmente preferir, me despeço e parto.
Ah, valei-me! Guto, na verdade, não sabia como proceder. Não acreditava em nada daquilo e julgava que o tomariam por louco se contasse desses diálogos. Era, grosso modo, como uma conversa de bêbados: um mestre cervejeiro trocando impressões sobre carga de lúpulos e concentração de malte com ninguém menos que... Papai Noel.
Parecia finalmente disposto a ouvir, meio cético, meio crédulo. Ainda assim, ironizou.
– Tá bom, o que tem a dizer o meu guru?
– Menos é mais, Guto.
Deu foi uma gargalhada.
– Porra, sai do cafundó pra vir com uma frase decorada de reality gastronômico? Clichezão de autoajuda?
Mas acabaria, em seguida, ouvindo minúcias sobre uma receita da qual raros tinham conhecimento.
– Tire um percentual X dos maltes especiais, reduza o grau daquela lupulagem. Troque o perfil do terceiro lúpulo por esse, mais próximo do que busca.
Estava de fato surpreso. E a conversa ganhava ar de camaradagem. Foi redesenhando a elaboração e, modelo que soava ideal, tirou os olhos do caderno para matar uma dúvida. Ar de espanto, viu tão somente o gato Nicolau esparramado sobre as caixas de papelão. O tal Papai Noel? Nem rastro.
Talvez houvesse mesmo delirado. Mas os cálculos refeitos da Apa, demônios, emergiam ali cristalinos. E apostaria neles. No dezembro, cerveja pronta, embasbacara-se. Sen-sa-cio-nal! Com buquê e equilíbrio como poucas.
Não escutaria outra coisa de amigos e de quem mais provava que não fosse a expressão de contentamento. Entre um e outro elogio, pensava na figura do Papai Noel que – real ou fantasia – o visitara. No abrir e reabrir o caderno com todos os passos da produção, se deparou com o fio longo de barba, num branco alvo. Aquilo o tirou do prumo. Conferiu ao redor. Ninguém mais que o grupo cervejeiro.
E Vânia, tom sempre provocador:
– Essa receita é sua mesmo?
Foi seco:
– Não.
Os olhos voltando inquisitoriais, gargalhou.
– Minha não. É de outro mundo. É do Papai Noel, seus filhos da puta. Amo vocês.

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