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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Amizades seladas por Deus

Amigo é aquele que sempre se apresenta quando ninguém mais aparece


postado em 29/09/2019 04:00


 
 
Faça sol ou chuva, faça luz ou treva, faça frio arrepiante ou calor ardente, faça festa ou luto, faça jantares ou passe falta de tudo, seja jovem, maduro ou velho, com dinheiro ou sem dinheiro, certas amizades vão se apurando com o tempo e com os percalços da vida.
 
Tem amizade que fica para sempre, mesmo a distância, sem a presença constante. Tem amizade que é delicadeza, que é afeto. Tem outras que vão sumindo com o passar da vida, pois se você algum dia falar em dificuldade, a pessoa trata de sair de fininho. São amigos de conveniência, dependentes do seu sucesso, da sua influência, do seu poder, do tanto que você pode dar, seja em dinheiro ou ideias. Esses amigos não trocam, não agem pelo coração, mas pelo quanto você tem. São pessoas tóxicas, amargas, narcisistas, principalmente nos tempos de hoje quando a linguagem é a do ódio. Nunca perdoam, pois o veneno fica pingando no coração até intoxicar o relacionamento.
 
Amizade de verdade, para qualquer tempo – bom ou ruim – é uma espécie de amor, um laço feito de lealdade que nada pede ou exige do outro. Amizade é uma presença que não se desfaz com os estragos do tempo. Ela é imune ao esquecimento e a distância. Amigo é aquele que sempre se apresenta quando ninguém mais aparece.
 
Ela tem uma dessas amigas do bem, que sempre tem um mimo para ofertar, uma ternura para trocar. Um jeito de ser que segura qualquer barra. Essa amiga às vezes diz frases que ela nunca ouviu. Em uma das suas viagens de férias para o Pantanal, onde tem uma chácara, voltou com uma dessas. “Dona Bela é minha vizinha de chácara, que me ama até hoje e que me trouxe as primeiras ervas. Não sabe ler nem escrever. Mas pediu à filha Tatiana para escrever em um coração vermelho. Muito obrigada por nossa amizade selada em Deus.”
 
Até hoje ela tem amizades seladas em Deus, com lacre de cera e tudo, desses que não se encontram mais, que é preciso ser encomendado aos artífices, artesãos da vida. Ela tem amigos que valem mais do que tesouros ou prêmios bilionários, que pensam, sentem e gostam de poesia tanto quanto ela. Gente de coração de ouro. O perigo é que essas pessoas correm risco constante, pois todo mundo quer roubar um pedacinho e levar para a casa delas, já entupida de falsos metais.
 
Ela tem amigas que oferecem, outras que tiram o que podem e o que não podem, que conseguem invadir o seu coração com flechas certeiras, que fazem um silêncio constrangedor quando o pedido é de ajuda. Algumas amigas têm espírito enluarado, outras de trevas.
 
Com o passar do tempo, ela consegue enxergar tudo com seus olhos míopes, hoje acrescidos pelo cansaço da idade, pelos cabelos anelados e embranquecidos. Pois envelhecer é assim, mostra o quanto somos vulneráveis e dependentes, o quanto a morte é real. Só a velhice para mostrar a nossa fragilidade, pois a morte pode chegar na esquina ou num quarto contíguo, com a família toda ao lado.
Ela sempre teve olhos grandes e míopes para compreender a insensatez dos humanos, a dimensão de um Universo difuso, etéreo e vago, a névoa da superfície do ser. Ela sempre fez questão de enxergar o lado bom da vida, apesar do cansaço dos olhos.
 
Tem certos dias que essa míope, de imensos olhos cansados e castanhos, prefere andar de óculos no lugar das lentes para ver se as pessoas podem ser vistas de outra maneira, sem tanta dor, sem tanto cansaço, sem tanto tédio. Tem certas noites em que essa míope faz de conta que enxerga o lado bom da vida, as veias abertas do coração, a pulsação do nervo óptico, as estrelas apagadas do céu interior. Tem certas tardes que essa míope põe a lente para enxergar melhor os olhos mórbidos de quem nunca viu nada.
 
Nas amizades seladas em Deus, ela tem algumas que nunca a abandonam, que enchem a bagagem dela não só de comida para nutrir o corpo, mas que conseguem alimentar a alma com palavras doces, isentas a qualquer glicemia alta. São palavras recheadas do mais puro chocolate, palavras decoradas com glacê e castanhas, com nozes de sabor exótico. Palavras embriagantes, melhores do que qualquer vinho com trufas. São palavras que a tiram do chão, e que criam asas e restauram a dignidade dela, em um mundo onde só há ameaças e sentenças de morte.
 
Nas amizades seladas em Deus tem médico que é anjo, psicanalista que mergulha nos oceanos da alma, tem bruxa que é a própria Fernanda Montenegro, tem escritora de livros inquietos, tem amigo histórico que nunca falta, tem artista plástica que desenha bordando, tem jornalista de primeira grandeza. Tem amigo até para rir e chorar. Tem amigo bem-humorado e outros amargos como fel.
 
Amizade é assim, sempre dá o tom. Tem amigo que é bálsamo, mas muitos ainda querem abrir feridas. Tem uns que provocam dor, outros que despertam seus anjos. Outros que cutucam os seus demônios, mas sem amizade ninguém sobrevive a esse tempo louco, de dor, estéril, gelado. Amigos, porém, conseguem criar úteros cósmicos para aninhar a ternura que ainda resta.

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