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Estado de Minas COMPORTAMENTO

A estética da violência e a 'crise do macho'

Nossa 'estética da virilidade' está na representação fálica da arma, interpretada por Freud na psicanálise como um símbolo de poder


(foto: Saul Loeb/AFP)
(foto: Saul Loeb/AFP)
Na semana passada, viralizou a imagem de Jake Angeli, manifestante pró-Trump, que invadiu o Capitólio em Washington e foi preso no último sábado (09/01). O extremista em questão apareceu em fotos da invasão da Câmara dos Deputados usando chapéu de chifres, pele de animais e rosto pintado com as cores da bandeira norte americana. Apesar de se apresentar como membro do QAnon, um grupo de teorias conspiratórias infundadas, sua estética viking está ligada ao tribalismo masculino ou "masculinismo": um movimento radical e violento, marcado pelo ódio contra mulheres, negros, pessoas LGBTQIA+ e suas conquistas por direitos.

De acordo com a antropóloga Rosana Pinheiro Machado, os “masculinistas” acreditam que mulheres são objetos que servem apenas à reprodução humana. Eles buscam reafirmar a virilidade masculina perdida em função de uma suposta “ditadura feminista”. Por esse motivo, cultivam o ódio às mulheres e acreditam que elas deveriam ser, literalmente, caçadas.

Estamos assistindo à chamada “crise do macho”. Em função dos avanços conquistados a duras penas por meio da luta feminista, boa parte dos homens ainda se vê dentro do padrão comportamental definido pelo sexismo e não aceita a perda de privilégios. A maneira de ser do homem foi colocada em xeque. Violência, controle e agressividade são comportamentos que foram historicamente ligados ao masculino e que hoje tem sido combatidos. Nesse sentido, para muitos homens a identidade viril masculina foi perdida pela imposição do “politicamente correto”.

As conquistas das mulheres e de sujeitos antes oprimidos transformaram a condição masculina, é verdade. Para haver avanços de grupos sociais minorizados, é preciso que os grupos privilegiados abram mão dos seus ganhos sobre a opressão do outro. Entretanto, o pensamento conservador e reacionário masculino mais extremista traz a ideia de que a “natureza” dos homens precisa ser resgatada por meio da violência e o feminismo, combatido.

A estética do “masculinismo” pode trazer elementos vikings, ligados aos índios norte-americanos e até aos espartanos. Tudo para simbolizar um elogio ao confronto físico, à guerra e a um senso de honra baseado na fúria. No Brasil, a representação do combate aos ideais feministas e progressitas não está necessariamente na ostentação de chapéus de chifre ou peles de animais. A nossa “estética da virilidade” está na representação fálica da arma. Interpretada por Freud na psicanálise como um símbolo de poder, a arma é o principal símbolo do ódio na estética brasileira do radicalismo masculino.

A situação se agravada ainda mais pela crise econômica. Diante do desemprego e da impossibilidade de ser provedor, o homem de classe média brasileiro se vê incapaz de cumprir a sua principal função social. Muitos desses homens culpam o feminismo pela sua perda de protagonismo e privilégios, mas não conseguem enxergar que o feminismo não é só uma luta para empoderar mulheres, mas também para libertar os homens da prisão do sexismo. A incompreensão sobre o feminismo é um projeto que serve à manutenção do capitalismo, do patriarcado e da opressão feminina.

A estética bélica presente tanto no “masculinismo” americano quanto nos grupos brasileiros de direita representam um risco real de violência contra as mulheres e de repressão as suas conquistas. Em um país onde as mulheres já são quase 67% das vítimas de agressão física, de acordo com o Mapa da Violência de Gênero, o machismo é estimulado politicamente e o resultado é o entendimento do feminicídio e do estupro como formas de reaver a honra masculina e controlar mulheres.

Nossa sociedade está doente. Nós mulheres, não queremos nos igualar aos homens no seu poder destruidor. Queremos apenas ser livres e viver em uma sociedade onde ninguém precise viver em estado de ódio para reafirmar o seu gênero. O feminismo é a esperança para a libertação masculina das amarras do patriarcado.

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