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Estado de Minas COLUNA

O quase-silêncio de cada casa, de cada um

"Lembro-me com saudade de todas as casas pelas quais passei. Não me esqueço do silêncio e do não silêncio de cada uma delas"


(foto: Bertvthul/Pixabay)
(foto: Bertvthul/Pixabay)

Existem coisas que me fascinam. Coisas simples.

Às vezes acordo de madrugada e caminho pela casa no escuro. É como caminhar dentro da própria alma.

A propósito, não há alma que não tenha uma cadeira para ser tropeçada. Não há alma que não xingue ao pisar em brinquedos largados pela casa. Não há alma que não perdoe e não esqueça o que é para ser esquecido.

As madrugadas nos brindam com o silêncio. Ou um quase-silêncio. Quando ficamos quietos e prestamos bastante atenção, o relógio com seu tique-taque nos lembra que o apetite de Cronos é insaciável, assim como o da companhia elétrica que mantém o ruído monofônico de uma geladeira.

Um carro ao longe, o vento pela fresta da janela, um latido, uma tosse. COVID?! Não, pigarro.

Mesmo querendo abraçar o silêncio, o quase não nos permite.

Tudo na vida é quase. Quase feliz, quase bom, quase-silêncio, quase, quase...

Mas não importa. Quase, já é uma prova que você tentou.

É no quase silêncio que o universo sopra a poesia. Os sons não se propagam no espaço, mas vibrações sim.

Toda casa tem seu silêncio próprio e seus ruídos típicos. DNA familiar expresso no jeito de ser dos que ocupam aquele espaço.

Os ruídos familiares são como a cor dos olhos, a impressão digital e as linhas das mãos que estabelecem o destino daquele mundo. Só nós sabemos o quase silêncio que nos abriga e aconchega.

Os passos noturnos da minha mãe, a tábua solta no piso, a água caindo no copo, a descarga e a torneira do banheiro, a mola enferrujada da porta, o ajeitar da coberta. Um pum...

O pigarro do meu avô, a lenha no fogão, a tampa do bule, o café na caneca, o aroma.

Calçou as botas, pegou o balde, caminhou até o curral, peou a vaca. O leite bateu no fundo do balde, encheu. Raspou as botas no facão da porta.

Casas e úteros têm muito em comum.

Lembro-me com saudade de todas as casas pelas quais passei. Não me esqueço do silêncio e do não silêncio de cada uma delas.

Mundos visitados, mundos vividos, silêncios a percorrer, novos ruídos a serem decifrados e degustados.

*Este texto é dedicado á Glorinha, enfermeira com a qual trabalhei quase uma vida e que nos deixou nesta madrugada silenciosa

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