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Estado de Minas padecendo

Todo mundo tem um herói dentro de si

Descobrimos que não temos tempo a perder e vamos fazendo o que nosso coração deseja, como se não houvesse amanhã


06/09/2020 04:00 - atualizado 03/09/2020 12:27


(foto: Depositphotos)
(foto: Depositphotos)


Quase seis meses sem aulas presenciais, evitando sair de casa, evitando aglomerações, usando máscara, tomando banho de álcool em gel, falando com a família e os amigos por vídeo. Poderia ter sido pior, há 20 anos não teríamos tantos recursos tecnológicos disponíveis.

Sigo me dividindo entre os cuidados com a família, a casa, os textos. Comecei um livro novo. Inventei receitas de bolo (vai que eu preciso mandar uma receita para substituir um texto vetado por algum órgão de censura, nunca se sabe o que esperar de 2020).

Sempre achei que minha família fosse progressista, a escolha por ter um filho só, a educação antirracista, feminista, que acredita que amor é amor, que acredita na ciência. Em agosto, nos deparamos com uma história tão surreal que nem novela mexicana seria capaz de ter uma trama daquelas.

A supermãe que tem mais de 50 filhos, que se casa com o filho adotivo, que diz que homossexualidade é uma aberração, e que faz swing e coisas bem mais esdrúxulas. 2020 me deixou careta, afinal, sou monogâmica, embora não  condene quem faz swing. Ensino meu filho que incesto é errado, mas que amar alguém do mesmo sexo não é. Me sinto na contramão de tudo.

E nessa onda de polêmicas, acabei entrando na do Felipe Neto, aquele que passou a ser visto na minha casa por causa dos vídeos de Minecraft. Meu filho tem 11 anos e, além de ler muito e passar as tardes fazendo aula on-line, joga Minecraft, na verdade programa mais que joga, ele adora o Creators.

Me vi tendo que entender o que é “dropar”, o que é um “creeper”, é preciso tentar falar a linguagem dos filhos quando eles entram na adolescência, ou perdemos a conexão. Fui julgada, censurada e condenada por comentar que aqui Felipe Neto não é proibido.

O que não significa que o acesso seja irrestrito e sem supervisão. Quem sabe o que é ter uma criança atípica dentro de casa que atire a primeira pedra.

Depois disso, precisei de uma dose extra de coragem para voltar a encarar o hospital em tempos de pandemia. Retirei um câncer de mama em junho de 2019 e faço controle com a oncologista a cada três meses, e a cada seis meses com a mastologista. Adiei consultas e exames que deveria ter feito em maio, o hospital nem estava realizando exames naquela época, só os de urgência.

Os meus exames podiam esperar. Cancelei a consulta oncológica de junho. Marquei tudo para agosto. Saí do isolamento quatro vezes para ir ao hospital, tive retorno com a mastologista, com a oncologista e fiz raio-x do tórax, ultrassom abdominal, ultrassom das mamas e ultrassom do pescoço.

O último para verificar um calinho que eu achei bem em cima do osso da saboneteira. Eu conheço meu corpo como a palma das mãos. Tudo que aparece de diferente eu noto, foi assim que descobri o câncer de mama. O carocinho do pescoço podia ser um linfonodo, mas era só um lipoma.

E enquanto eu fazia meus exames de controle, o mundo perdia Chadwick Boseman na luta contra um câncer de cólon, aos 43 anos. É assustador pensar num herói perdendo essa luta. Justamente por causa de histórias como a dele, o protocolo para a colonoscopia mudou, a primeira colonoscopia, para quem não tem sintoma nenhum, nem histórico de nada, deve ser feita aos 45 anos, não mais aos 50, como era até pouco tempo.

Foi o único dos exames que me foram pedidos que ainda não fiz, mas já vou marcar. Se você já passou dos 45 e ainda não fez, não perca tempo! Quanto mais cedo a gente descobre, maiores são as chances de cura.

O ator Chadwick Boseman, mundialmente conhecido pelo papel do Pantera Negra, partiu após quatro anos de luta contra o câncer, o legado dele ficou. A representatividade ficou. Tenho certeza de que ele viveu esse tempo tentando não deixar nada para depois.

Acho que é assim que funciona quando nos tornamos pacientes oncológicos. Descobrimos que não temos tempo a perder e vamos fazendo o que nosso coração deseja, como se não houvesse amanhã. Todo mundo tem um herói dentro de si.

#wakandaforever


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