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Estado de Minas PADECENDO

Ninguém solta a mãe de ninguém

Os pedidos de ajuda vêm chegando numa quantidade muito maior do que as doações. Não é só o coronavírus que pode matar, a fome também mata


postado em 05/07/2020 04:00 / atualizado em 04/07/2020 12:08

(foto: Depositphotos)
(foto: Depositphotos)

Depois de 100 dias de isolamento por causa do novo coronavírus, a crise econômica vem se agravando. As pequenas empresas, que resistiriam por três meses, não conseguirão resistir por muito tempo e o isolamento precisa continuar, porque nos três meses que se passaram ele não foi levado a sério como deveria.

Em meio à pandemia, as questões que envolvem as mães não podem ser deixadas para depois. Enquanto o relatório do TCU aponta que o auxílio emergencial criado para ajudar pessoas de baixa renda durante a pandemia da COVID-19 foi pago para 620 mil pessoas que não tinham direito ao benefício, muitas mães estão sem renda nenhuma.

A situação é desesperadora para muitas mães, especialmente para aquelas que criam seus filhos sozinhas, como é o caso da Joana (codinome para preservar a identidade).

Quando era criança, Joana foi abusada pelo padrinho, e os abusos se repetiram por anos. Ela não tinha coragem de contar para ninguém, tinha medo dele e se sentia culpada, a gente sabe que a culpa nunca é da vítima, mas a sociedade faz a vítima acreditar que é culpada.

Hoje, Joana tem 22 anos e é mãe de duas crianças. O genitor (não dá para chamar de pai um sujeito que abandona mulher e filhos e vai viver como se eles não existissem) abandonou a família há tempos e sumiu no mundo. Com o isolamento social, Joana perdeu o emprego e não tem com quem deixar os filhos para sair e procurar trabalho porque os filhos estão sem escola.

Ela vai ser despejada em alguns dias se não conseguir dinheiro para pagar o aluguel. Está tão apavorada com a possibilidade de ir morar na rua com duas crianças que chegou a pensar em se matar e os dois filhos, já que, se ela morrer, eles não terão com quem ficar. O desespero é tanto que ela está pensando em se prostituir para colocar dinheiro em casa. Uma mãe faz qualquer coisa para alimentar seus filhos.

Foi nessas condições que Fernanda Braga Sacramento encontrou Joana e está buscando ajuda para ela através do projeto “Ninguém solta a mãe de ninguém” (@ninguemsolta_amaedeninguem).

Uma cooperativa de crédito rotativo para as mães empreendedoras criado por um grupo de mulheres que se propõe é arrecadar recursos – qualquer quantia – de pessoas que podem doar para assistir essas mães que tanto precisam de ajuda neste momento crítico.

Sueli (codinome para preservar a identidade) tem 34 e foi vítima de uma tentativa de feminicídio no ano passado. O marido a chutou no rosto até que ela ficasse desacordada e fugiu, o filho de 3 anos chorou e gritou chamando a atenção dos vizinhos, que chamaram a polícia. Ela estava estudando técnica em eletrônica, mas teve que parar por conta da falta de renda causada pela pandemia.

Não teve mais condições de pagar seu curso. Estava com várias contas em atraso. Ela e o filho passavam fome. O projeto “Ninguém solta a mãe de ninguém” conseguiu cestas básicas e material para Sueli fazer e vender caldos e voltar a ter uma renda. Na semana passada o ex-marido foi preso e ela pode recomeçar sem medo.

As integrantes do projeto são mães de Belo Horizonte. Elas chegaram a ajudar mães em São Luiz do Maranhão, em São Paulo, mas a demanda em Minas está muito alta, por isso agora elas estão restringindo a ajuda às mães que moram no estado.

Segundo a jornalista Ana Karenina, “as mulheres têm se deparado com mais dificuldades, são as que sofreram com a redução da renda ou o desemprego, principalmente as mães, e mais ainda as mães solo.

Vale lembrar que a maioria delas está em empregos informais e é mal remunerada, como é o caso das empregadas domésticas: 71% delas trabalham sem carteira assinada e ficaram sem nenhum tipo de amparo trabalhista legal neste momento crítico. Além disso, não é clichê dizer que a mulher ainda enfrenta a sobrecarga com os cuidados da casa e dos filhos, no eterno acúmulo de funções.

Na hora do salve-se quem puder, poucos pensam em independência financeira, autonomia, carreira profissional e empreendedorismo feminino. É como se temas tão relevantes perdessem a importância e saíssem da pauta. As mulheres já são as maiores vítimas dessa pandemia e da crise econômica que se agravou com ela.

Não é novidade para ninguém que elas são, na maioria, a sustentação financeira das famílias e da sociedade, porque cuidam de tudo e de todos e ainda trabalham como empregadas domésticas, cozinheiras, diaristas, babás: 92% das pessoas que realizam trabalhos domésticos remunerados são mulheres. Isso equivale a 5,7 milhões de brasileiras. Desse total, 3,9 milhões são mulheres negras.”

Os pedidos de ajuda vêm chegando numa quantidade muito maior do que as doações que o projeto vem recebendo. Não é só o coronavírus que pode matar, a fome também mata. Mas as histórias de empatia e solidariedade também não são poucas. Uma mãe que é assistida pelo projeto doou fraldas do seu filho para o filho de outra mãe mesmo quando não tinha o que comer.

Não podemos deixar as questões que envolvem as mães para depois. A proposta do “Ninguém solta a mãe de ninguém” é unir forças, buscar parcerias, estreitar laços de solidariedade e compartilhar tudo o que for possível, de recursos a conhecimento. O resultado do que for feito hoje vai impactar profundamente em um futuro breve na nossa sociedade. Queremos viver num mundo onde “ninguém solta a mãe de ninguém”

Você pode ajudar a mudar histórias de vida como as da Joana e da Sueli sem sair de casa, não deixe o vírus circular. Espalhe solidariedade. Conheça o projeto. Seja voluntário. Ajude, participe, faça parte e mude a realidade dessas mães.

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