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A nação angustiada diante da pandemia e da crise que não dão trégua

Matança da pandemia não cessa, governo continua acéfalo, e vem aí a CPI da COVID e mais barulho para tumultuar o ambiente econômico


11/04/2021 04:00 - atualizado 10/04/2021 19:24

Com o agravamento da doença, o país adotou ações de isolamento moderadas, enquanto em outros países as medidas forma mais severas(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Com o agravamento da doença, o país adotou ações de isolamento moderadas, enquanto em outros países as medidas forma mais severas (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


Quando voltaremos a fazer o que amamos sem medo de adoecermos nem de infectarmos os outros? Essa é a dúvida que nos aflige desde que a pandemia começou em fevereiro do ano passado e só se fez agravar 14 meses depois pelo desgoverno de Jair Bolsonaro e seus acólitos.

A incapacidade de o governo transmitir esperança, garantindo doses de vacinas para ontem e para todos, não para as poucas empresas que poderão comprá-las à revelia do SUS, objetivo de lei aprovada pela Câmara, esgarça a coesão social, que sempre foi frágil, e expõe o barbarismo dos sem noção e o descaso de governantes e políticos com o bem-estar de seus constituintes independentemente de quem sejam.

A pandemia é um evento mundial, como alega Bolsonaro, vitimizando-se ao dizer que ninguém é mais criticado que ele, indiferente a que muitos governos se mostraram eficientes no controle das sequelas do vírus com lockdowns severos, não os meia-boca feitos aqui, além de contratarem vacinas quando pouco se sabia sobre a sua eficácia.

O que ele fez? Nada. Em agosto, o laboratório Pfizer ofereceu 70 milhões de doses de sua vacina então em testes aqui, com a primeira entrega em dezembro. Não teve resposta. Negou também até não poder mais o imunizante do Butantan, que dizia ser a “vachina” do Dória. E caçoa de quem usa máscara, critica o distanciamento social etc.

Do que funcionou, como o auxílio emergencial, só assumiu como seu depois que Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, indicou ter força para aprovar o chamado orçamento de “guerra”, com a ajuda aos trabalhadores informais. Para o ministro da Economia, Paulo Guedes, teria sido de R$ 200, seria de R$ 500 pela Câmara, elevado a R$ 600 para Bolsonaro aparecer bem na foto. Mas o fez com relutância.

Para ele, “o país está quebrado”. Insólito foi Guedes se espantar com o tamanho da população habilitada a receber o auxílio, cerca de 66 milhões com emprego precário, que chamou de “invisíveis”, embora sempre fossem mais de dois terços da força de trabalho do país. E impróprio foi Bolsonaro atacar as ações de lockdown moderado sob a falsa presunção de que elas, não a pandemia, provocam desemprego.

Fórum contra injustiças

Se o presidente se sente injustiçado, terá a chance de se explicar à CPI da COVID, que estava engavetada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a pretexto de não ser a hora de buscar culpados, e o ministro do STF, Luís Roberto Barroso, mandou instalar, acolhendo reclamação de senadores. Se o requerimento atende a Constituição e o regulamento do Senado, Barroso fez o certo e agiu tecnicamente.

Pacheco é que politizara o que estava absolutamente correto, com 32 assinaturas de senadores, mais que o mínimo legal de 27, e o fez para não embaraçar Bolsonaro, que o apoiou para presidir o Senado, assim como apoiara o deputado Arthur Lira, na Câmara.

Qual seu receio? “A CPI poderá sim ter um papel de antecipação de discussão político-eleitoral de 2022, de palanque político, que é absolutamente inapropriado para o momento”, alegou. Soaria sincero, se Bolsonaro cuidasse mais de governar que da reeleição, além das encrencas dos filhos. Lira, nesse caso, é mais franco que Pacheco.

O que a CPI tem para investigar poderá ajudar a melhorar as ações da saúde, começando por rever decisões sem evidências científicas nem baseadas nas experiências bem-sucedidas da Inglaterra, Israel, os absurdos do general Pazuello, que fizeram do Brasil um criatório de variantes do Sars-CoV-2. Em sua live semanal, Bolsonaro voltou a falar de medicamentos experimentais, não de esforços para arrumar mais vacinas, e a achar culpados para seu governo disfuncional.

Governança de equivocados

A verdade é que Bolsonaro se elegeu menos por ele que pela revolta de parte da sociedade, alimentada pela criminalização da política, em especial do ex-presidente Lula, pelos agentes da Lava-Jato, com a ajuda da imprensa. E é o que ele renegou que trouxe de volta – o cambalacho com caciques dos partidos fisiológicos, seus parceiros nos 28 anos passados na Câmara como deputado inexpressivo.

A governança do Estado excedeu a sua aptidão tanto política quanto administrativa, experiência que nunca teve, afora criar conflitos – precisamente o que disse não precisarmos, ao se referir à CPI.

“O Brasil está sofrendo demais, e o que nós menos precisamos é de conflito”, se queixou. Ele acabara se sair de longas reuniões, na quinta-feira, para desatar o nó que ele e Guedes permitiram que o Congresso criasse ao inflar o dinheiro dos projetos paroquiais dos parlamentares, chamados de emendas, à custa do gasto com rubricas cuja despesa é obrigatória, como aposentadorias e verbas sociais.

A pandemia foi o inesperado que aguçou o que já estava ruim, com o crescimento estagnado e o anacronismo da gestão do Estado – ambos agravados pela inabilidade gerencial da pasta da Economia, inchada com o Planejamento, Trabalho, Previdência, Indústria e Comércio Exterior, e a utopia da ortodoxia liberal num país com uma maioria de pobres, sem empuxo industrial, desigualdades regionais etc.

Modelo econômico em causa

O que começa a despontar não é bem a hora da verdade de Bolsonaro, mas a difícil discussão sobre que modelo econômico importa para dar tração ao desenvolvimento perdido ao longo dos últimos 40 anos.

Não é trivial tal discussão. É ela que explica o dissenso entre o Congresso, associado a setores do governo, e o ministro da Economia em torno da Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovada com atraso e na dependência de Bolsonaro sancionar para entrar em vigor. A lei traz gastos inexequíveis à luz da legislação da responsabilidade fiscal.

No fundo, parte do establishment político e empresarial, aliado à burocracia do Estado, manifesta exaustão com um sistema fiscal que se desestruturou por má governança mais que pelo gasto em si, dando margem para alocações gravosas, decisões perdulárias em proveito da própria máquina pública e uma cadeia de comando disforme, desconexa dos propósitos de servir à sociedade que lhes provê o sustento.

Não há dúvida de que a prioridade do crescimento é consensual. Não tão certo é se o liberalismo antiquado de Guedes e o keynesianismo tosco dos ministros e políticos insatisfeitos com as omissões e os conflitos sem causa do presidente sejam a solução. O momento é de discussão e decisão. Se não para agora, para o que poderá ser depois de 2022.
 

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