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Cirurgia de catarata pode prevenir doenças crônicas

Pesquisa recém-publicada na revista JAMA Ophthalmology mostra que a maior entrada de luz nos olhos depois da operação beneficia pacientes, aumentando produção de melatonina


postado em 17/03/2020 04:00 / atualizado em 16/03/2020 18:15

Olho acometido pela catarata: opacificação do cristalino responde por 49% dos casos de perda da visão no Brasil(foto: Sérgio Eduardo/Divulgação)
Olho acometido pela catarata: opacificação do cristalino responde por 49% dos casos de perda da visão no Brasil (foto: Sérgio Eduardo/Divulgação)
Tenho ouvido aqui e ali que recorrer ao SUS em busca de atendimento para cirurgia de catarata é uma ótima saída para o problema – apesar da demora do atendimento. E vale a pena recorrer e esperar porque a catarata, opacificação do cristalino que responde por 49% dos casos de perda da visão no Brasil, é a doença ocular que mais cresce no país. Pior: a estimativa do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) é de que só 1 em cada 4 brasileiros que precisam operar passam pela cirurgia. Significa que 75% da população com mais de 60 anos pode ter doenças sistêmicas associadas à falta desta cirurgia, único tratamento para catarata. Isso porque uma pesquisa japonesa recém-publicada na revista JAMA Ophthalmology mostra que a maior entrada de luz nos olhos após a cirurgia de catarata pode prevenir doenças crônicas. Realizada com 169 participantes de 60 anos ou mais, o estudo chegou a esta conclusão depois de constatar maior excreção de melatonina no exame de urina dos participantes, três meses depois de terem passado pela cirurgia.

Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, de São Paulo, a melatonina é um hormônio indutor do sono que alinha nossas funções biológicas no período de 24 horas, conhecidas por ciclo circadiano.“A falta deste hormônio faz as pessoas com mais de 60 anos perderem o sono conforme o cristalino vai ficando opaco pela catarata”, afirma. A produção da melatonina, explica, depende de dois fatores: ambiente escuro durante a noite e quantidade de luz azul que penetra nos olhos durante o dia para estimular a produção de um pigmento chamado melanopsina pelas células ganglionares da retina. Por isso, trocar o dia pela noite e usar o celular que emite luz azul antes de dormir provoca queda na produção deste hormônio. Já quem adia a cirurgia de catarata e recorre às cápsulas de melatonina pode até dormir, mas desequilibra o organismo, corre maior risco na cirurgia, por causa do enrijecimento do cristalino e de contrair outras doenças decorrentes da baixa produção do hormônio.

Queiroz Neto ressalta que por ser essencial à indução ao sono, a melatonina tem importante papel no combate à depressão. Também tem ação antioxidante, além de regular a produção do cortisol, adrenalina e insulina. A operação é sempre feita primeiro em um olho e depois no outro. Alguns pacientes já referem melhora no estado emocional após operar o primeiro olho. Isso porque as cores ficam mais vibrantes e a qualidade de sono tem melhora imediata. O oftalmologista afirma que tanto o cortisol quanto a adrenalina são hormônios responsáveis por nosso estado de vigília que atingem níveis elevados quando a melatonina é insuficiente. Já a insulina produzida pelo pâncreas regula os níveis glicêmicos na corrente sanguínea e sofre queda quando a concentração de melatonina é menor. O excesso de cortisol, explica, predispõe ao ganho de peso e ao colesterol alto que altera os delicados vasos no fundo do olho e dobra o risco de surgir a degeneração macular, uma degradação da mácula, porção central da retina responsável pela visão de detalhes. É também um dos principais fatores de risco do infarto ou desenvolvimento de outras complicações cardíacas, salienta.

Outro efeito do aumento do cortisol registrado pelo profissional é a elevação da glicemia que também pode ser causada por uma deficiência da produção de insulina pelo pâncreas ou resistência das células à insulina, alterações que provocam o diabetes tipo 1 e tipo 2. Após 10 a 15 anos convivendo com o diabetes, pode surgir a retinopatia diabética, importante causa de perda da visão, mesmo quando a glicemia é bem controlada. A boa notícia é que se a retinopatia for descoberta no início dificilmente leva à perda da visão. O tratamento com aplicações de laser e injeções tem alcançado bons resultados quando o diagnóstico ocorre no início.

Portanto, todo diabético deve consultar o oftalmologista anualmente e até em períodos menores conforme indicação médica. O especialista explica que a adrenalina ou hormônio do estresse em alto nível acelera o coração, aumenta a pressão arterial e o risco de AVC (acidente vascular cerebral). A hipertensão arterial força o sistema cardíaco, pode causar alteração na retina e rins. Todos estes problemas de saúde podem ser detectados em consultas oftalmológicas periódicas. Prevenir é melhor que remediar, conclui

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