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Infecção intermitente pode ser sinal premonitório de câncer

Estudo japonês identificou que pacientes oncológicos tiveram taxas anuais de prevalência de influenza, gastroenterite, hepatite e pneumonia superiores nos anos antecedentes ao diagnóstico de câncer


postado em 04/05/2020 06:00 / atualizado em 04/05/2020 11:52

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)

Sabe-se que o câncer pode se desenvolver em um ambiente inflamatório causado por infecções, interrupção da imunidade, exposição a agentes cancerígenos químicos ou condições crônicas ou genéticas.

Agora, um estudo inovador realizado pelos pesquisadores japoneses Shinako Inaida e Shigeo Matsuno – publicado na conceituada Cancer Immunology Research – mostrou que pacientes podem experimentar uma maior ocorrência de infecções nos anos que antecedem o diagnóstico de câncer. Ou seja, a presença intermitente de infecções poderia ser um sinal premonitório do corpo sobre o possível aparecimento de um tumor.

Estudos anteriores há haviam sugerido um aumento de infecções antes do desenvolvimento de neoplasias hematológicas, como linfoma, leucemia linfocítica crônica e mieloma (tumor maligno que se desenvolve nas células plasmáticas). No entanto, poucos estudos examinaram a infecção antes do desenvolvimento de tumores sólidos.

Neste estudo retrospectivo de controle de caso, os pesquisadores, Dr. Inaida, juntamente com Shigeo Matsuno, PhD, examinaram um banco de dados de reclamações médicas, no Japão, para determinar a taxa anual de infecções em adultos, entre 2005 e 2012.

Indivíduos com 30 anos ou mais, sem nenhuma imunodeficiência registrada, foram incluídos no estudo. O grupo caso foi composto por 2.354 indivíduos com diagnóstico de câncer maligno realizado entre julho de 2010 e junho de 2011. Já o grupo controle, para comparação, foi composto por 48.395 indivíduos, sem diagnostico de câncer registrado entre janeiro de 2005 e dezembro de 2012.

As taxas anuais de prevalência de influenza, gastroenterite, hepatite e pneumonia foram calculadas para cada grupo. O grupo caso incluiu 1.843 homens e 511 mulheres; o grupo controle tinha 37.779 homens e 10.616 mulheres. A idade média dos indivíduos no grupo caso foi de 45,1 anos, enquanto a idade média dos indivíduos no grupo controle foi de 43,9 anos. 

Os cânceres mais comuns diagnosticados no grupo caso foram digestivos e gastrointestinais, de cabeça e pescoço e de estômago. Além desses, os outros tipos diagnosticados se enquadravam nas seguintes categorias: respiratória e torácica; célula germinativa; geniturinário; fígado; mama feminina; hematológico, sangue, osso e medula óssea; endócrino;  e cânceres desconhecidos ou outros.

Maiores taxas de ocorrência de infecção


Os autores descobriram que os indivíduos do grupo caso apresentaram taxas mais altas de infecção nos seis anos anteriores ao diagnóstico de câncer do que aqueles do grupo controle, no mesmo período.

As maiores diferenças nas taxas de prevalência anuais de infecção ocorreram no sexto ano, um ano antes do diagnóstico de câncer. Durante este ano, as taxas de prevalência de infecção no grupo caso foram superiores ao grupo controle em 18% para influenza, 46,1% para gastroenterite, 232,1% para hepatite e 135,9% para pneumonia.

Para os indivíduos do grupo de casos, as chances de infecção ajustadas por idade aumentavam a cada ano. Durante o primeiro ano, tiveram uma probabilidade 16% maior de infecção do que o grupo controle. No sexto ano, esse risco ficou 55% maior no grupo caso. 

Durante o sexto ano, a maior taxa de chances de infecção ajustada por idade foi observada para a infecção por hepatite, com os participantes do grupo caso tendo uma probabilidade 238% maior de infecção do que os do grupo controle.

Associação de certas infecções a tipos específicos de tumores


Outro ponto interessante da pesquisa foi a descoberta de que certas infecções parecem ter uma associação maior com certos tipos de câncer. As chances de infecção por influenza imediatamente antes da detecção do câncer, por exemplo, eram maiores para aqueles que desenvolveram câncer de células germinativas masculinas.

Além disso, as chances de pneumonia foram maiores naqueles que desenvolveram câncer de estômago e as chances de infecção por hepatite foram maiores naqueles que desenvolveram câncer hematológico, sanguíneo, ósseo ou da medula óssea. Como se dá essa associação? É uma das perguntas que ainda precisam de respostas.

Obviamente, o estudo não é a resposta final para este assunto e possui naturalmente algumas limitações. Uma delas é a falta de informações sobre exposições ambientais, estilos de vida ou condições genéticas ou médicas subjacentes, que poderiam ter contribuído para o aumento da infecção, além de causar câncer.  Outra limitação foi que as informações relacionadas à infecção foram baseadas apenas em diagnósticos registrados no banco de dados. Portanto, pode haver variabilidade nos diagnósticos entre diferentes médicos e algumas infecções podem não ter sido diagnosticadas ou registradas. O pequeno tamanho da amostra para cânceres raros foi uma limitação adicional.

Apesar disso, os resultados são interessantíssimos e um importante passo para se conseguir algumas respostas faltantes. Acredita-se que a imunidade de um indivíduo seja um fator no desenvolvimento do câncer, mas são necessárias pesquisas adicionais para entender a relação entre imunidade pré-cancerosa, infecções e desenvolvimento do câncer. Esta informação pode contribuir para os esforços para prevenir ou detectar o câncer.
 
Se você tem dúvidas sobre o tema ou quer sugerir um assunto, envie mensagem para andremurad@personaloncologia.com.br.
 
*André Murad é oncologista, pós-doutor em genética, professor da UFMG e pesquisador. É diretor-executivo na clínica integrada Personal Oncologia de Precisão e Personalizada. Exerce a especialidade há 30 anos, e é um estudioso do câncer, de suas causas (carcinogênese), dos fatores genéticos ligados à sua incidência e das medidas para preveni-lo e diagnosticá-lo precocemente.

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