A entrada de tilápia importada no mercado brasileiro, movimento que levou o governo de Minas Gerais a editar, neste ano, um decreto elevando o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o produto, acendeu um sinal de alerta no setor aquícola. Diante da concorrência externa, produtores são pressionados a aprimorar o manejo, com o objetivo de ampliar a produtividade e reduzir custos.

A tilápia representa quase 95% de todo o volume de peixe produzido em Minas Gerais. Os municípios mineiros com maior número de tanques-rede, estruturas instaladas dentro de corpos d’água naturais ou artificiais, são Morada Nova de Minas (com 6.518 tanques-rede), Alfenas (1.612), Felixlândia (1.458), Carmo do Rio Claro (1.451) e Patrocínio (1.158). Já os municípios com maior área de produção de viveiros escavados são Monte Sião (com 178 hectares), Esmeraldas (177 ha), Ouro Fino (149 ha), Juiz de Fora (143 ha) e Muriaé (137 ha).

A condução adequada da criação de tilápia está diretamente associada ao ganho de peso dos animais, à redução da mortalidade e à qualidade final da carne. Esses fatores contribuem para o crescimento da produção nacional, que avançou 6,83% em 2025 na comparação com o ano anterior, alcançando 707.495 toneladas. Minas Gerais aparece como o terceiro maior produtor do país, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), com 73,5 mil toneladas, atrás apenas de Paraná e São Paulo.

Para o médico veterinário Gleidson Salles, especialista em zootecnia, biotecnologia e biociências, há espaço para elevar ainda mais esse desempenho com ajustes no manejo. Ele ressalta que a aparente ausência de reação dos peixes não significa ausência de impacto. “Estudos demonstram que, assim como outros vertebrados, os peixes liberam adrenalina quando submetidos ao estresse”, afirma. Entre os fatores estressantes estão enfermidades, alta densidade populacional, baixa qualidade da água e práticas inadequadas de manejo e transporte.

Nesse contexto, a qualidade da água é apontada como elemento central. Mesmo quando visualmente limpa, ela pode conter níveis elevados de substâncias tóxicas. “A água pode estar cristalina e, ainda assim, apresentar concentrações perigosas de amônia, nitrito e nitrato, que não são visíveis a olho nu. Esses compostos comprometem as brânquias e dificultam o transporte de oxigênio no sangue”, explica Salles.

Monitoramento frequente

Gerente técnico da MSD Saúde Animal, o especialista defende o monitoramento frequente da água e a adoção de medidas corretivas sempre que necessário. “Se o nível de oxigênio estiver baixo, por exemplo, é possível corrigi-lo. Da mesma forma, o controle de nitrato e nitrito pode ser feito com o uso de produtos específicos, melhorando o ambiente de criação”, afirma.

 

Com demanda em alta, o Brasil produziu mais de 700 mil toneladas de tilápia no ano passado

Nelson Almeida/AFP – 11/8/25

Outro ponto crítico é a superlotação. Segundo Salles, a alta densidade favorece a competição por oxigênio, aumenta a agressividade e pode causar lesões entre os animais. O resultado é a queda no ganho de peso individual e na rentabilidade do produtor. O manejo alimentar também exige atenção. “Cada fase do desenvolvimento demanda uma nutrição específica. Ao compreender essas necessidades, é possível ajustar a quantidade e a composição da ração”, diz.

O processo de vacinação também integra as boas práticas de manejo. Para reduzir o estresse, recomenda-se que os peixes permaneçam o mínimo possível fora da água e passem por períodos controlados de jejum antes do procedimento.

No transporte até o abatedouro, o cuidado deve ser mantido. É necessário garantir densidade adequada de peixes por volume de água e níveis suficientes de oxigênio, buscando reproduzir condições próximas ao ambiente natural. “Nessa fase, os animais também permanecem em jejum para evitar a contaminação da água por dejetos”, afirma Salles. Ele recomenda, ainda, que o transporte seja realizado em horários de temperaturas mais amenas e por rotas previamente planejadas.

As práticas de bem-estar animal se estendem até o momento do abate. Antes de qualquer procedimento, os peixes devem ser submetidos a métodos de insensibilização imediata, como a elétrica, que interrompem a atividade cerebral e evitam sofrimento. Em seguida, realiza-se a sangria por meio do corte nas brânquias ou nos principais vasos.

Boas práticas

Falhas nessa etapa, segundo o especialista, podem comprometer tanto o bem-estar dos animais quanto a qualidade do produto final. Após o abate, os peixes seguem para a linha de processamento, que inclui evisceração, lavagem, filetagem e congelamento — etapa que preserva frescor e nutrientes antes da distribuição ao mercado.

Para Salles, a adoção de práticas adequadas não é apenas uma exigência ética, mas também econômica. “Produzir sem considerar o bem-estar animal não se sustenta no longo prazo. Quando se trabalha com densidade adequada, vacinação correta, nutrição balanceada e ambiente favorável, o animal expressa melhor seu potencial genético, cresce mais rápido e gera um produto de maior qualidade”, afirma.
Ele destaca ainda que o bem-estar está diretamente ligado à eficiência produtiva. “Há uma melhor conversão alimentar, ou seja, o produtor utiliza menos ração para obter um quilo de carne, o que reduz custos e aumenta a rentabilidade”, explica.

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Além disso, o mercado consumidor vem se tornando mais exigente. “Não se trata apenas de preço. Há um nicho crescente que busca produtos certificados, com padrões éticos de produção. Atender a essas demandas agrega valor, diferencia o produto e fortalece a relação com compradores no longo prazo”, conclui.


O que diz o Decreto 49.215?

  • O Decreto 49.215/2026 suspendeu o diferimento (adiamento) do ICMS na importação de tilápias em Minas Gerais. A medida, válida até 31 de outubro de 2026, restabeleceu a cobrança integral da alíquota de 18% do imposto, encarecendo o produto estrangeiro em até 25% para proteger os produtores locais. A partir da medida, a importação de tilápia (seja fresca, resfriada, congelada, inteira ou em filé) passou a recolher os 18% de ICMS de forma integral.
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