TRANSPORTE

Presidente do Sintram fala sobre subsídio e tarifa zero em Minas Gerais

Rubens Lessa foi o entrevistado do "Em Minas" neste sábado (14/3). Ele falou sobre a situação atual do transporte público e as perspectivas para o futuro

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O “Em Minas”, programa do Estado de Minas, Portal Uai e TV Alterosa, recebeu neste sábado (14/3) o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram), Rubens Lessa. Ele esclareceu várias dúvidas que rondam o dia a dia de milhões de brasileiros. 

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Entre os assuntos abordados pelo programa estão a discussão acerca da Tarifa Zero, os problemas enfrentados pelas empresas de ônibus, a modernização da frota e o futuro da mobilidade urbana no Brasil. Lessa também explica a necessidade e a função dos subsídios concedidos pelos municípios: “O subsídio é muito importante. Com ele, podemos aumentar o número de linhas, de viagens e de atendimento, além de diminuir o tempo de espera no ponto de ônibus”. 

Sobre a concessão da Tarifa Zero, o presidente do Sintram defende que o projeto deve ser muito bem estruturado para que funcione na prática. “Quando se fala em tarifa zero em municípios maiores, no sistema metropolitano ou no Estado, tem que se fazer uma base bem feita para não ser um projeto que fique de pé. Vira um caos se não parar de pé. Por isso, nós defendemos uma reformulação na lei do vale-transporte”, declarou.

Rubens também atua como presidente do grupo Saritur, é diretor da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e conselheiro da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), destacando-se como especialista em transporte em âmbito nacional.

O programa está disponível no YouTube do Portal Uai. Você pode conferir a entrevista na íntegra a seguir:

Ricardo Carlini: Olá, tudo bem com vocês? Boa noite, um prazer mais uma vez encontrá-los aqui no "EM Minas". Hoje recebendo um convidado que sabe tudo de mobilidade e transporte. É o homem mais consultado no Brasil quando os temas são esses. Rubens Lessa, tudo bem? Prazer te receber.

Rubens Lessa: Tudo bem. O prazer é meu de estar aqui hoje com você para podermos informar como funciona a mobilidade em Minas Gerais e no Brasil.

Ricardo Carlini: Rubens, a maioria das pessoas conhece você pela presidência do Sintram, que é o sindicato das empresas que fazem o transporte metropolitano. Mas você também é presidente da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado de Minas Gerais (Fetram), presidente do grupo Saritur, diretor da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e conselheiro da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). A experiência metropolitana te levou a estudar e assumir essas responsabilidades nacionais?

Rubens Lessa: Exatamente. Já tem um tempo que estou no Sindicato de Transporte Metropolitano (Sintram) e, com essa experiência adquirida, fui convidado para ir para a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros (Fetram). Posteriormente, fui para a NTU e para a presidência da seção de passageiros da Confederação Nacional do Transporte (CNT). A CNT é uma entidade de nível nacional que congrega todas as federações do país, além de vários sindicatos, empresas e associações nacionais.

Ricardo Carlini: E o Sintram? Quando a gente fala de ônibus metropolitano, é o Sintram que cuida de tudo?

Rubens Lessa: É o Sintram o responsável pelo transporte na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Portanto, qualquer assunto do transporte metropolitano de modo geral — com as autoridades, com a imprensa, com a população — é o Sintram que é o interlocutor.

Ricardo Carlini: Qual o tamanho do transporte metropolitano hoje? Quantos ônibus, quantos passageiros por dia? Como é isso?

Rubens Lessa: O transporte metropolitano perdeu bastantes passageiros com a pandemia e ainda não se recuperou. Antes da pandemia, transportava 850 mil passageiros por dia.

Ricardo Carlini: 850 mil passageiros ao dia?

Rubens Lessa: Ao dia. Desses 850 mil passageiros — quase 900 mil, na verdade —, nós tivemos uma queda em torno de 25%. Hoje, estamos com cerca de 600 mil passageiros. O nosso maior desafio, e estamos junto ao governo do estado procurando uma forma de recuperar essa demanda e melhorar o nosso serviço. Quando falo em melhorar o serviço, principalmente para a população, me refiro a retornarmos ao nível de oferta de viagens que tínhamos antes da pandemia.

Ricardo Carlini: A que você atribui não termos retomado essa quantidade de passageiros ainda? Qual é o diagnóstico?

Rubens Lessa: Além das mudanças de hábitos, houve o impacto dos aplicativos e do mototáxi, que prejudicam muito o setor. Na Região Metropolitana, temos exemplos de cidades em que a demanda já voltou quase ao mesmo nível de antes da pandemia. Mas o transporte metropolitano gerenciado pelo estado — ou seja, a ligação entre os municípios — ainda não se recuperou. Isso ocorre porque está em discussão com o governo estadual a questão de um aporte público. Hoje, no país, tem que haver subsídio para que qualquer tipo de transporte público sobreviva. Não tem como o sistema ser pago apenas por quem anda de ônibus. A passagem, sozinha, não banca o custo. Com isso, é necessário reduzir o número de viagens. Ao diminuir a oferta, a prestação de serviço não fica adequada e as pessoas não têm o ônibus com a frequência necessária na porta de casa. Para retomarmos o número de viagens de antes da pandemia, teríamos que voltar à frota de cerca de 2.800 veículos e aumentar as viagens em torno de 25%, incluindo horários noturnos e finais de semana.

Ricardo Carlini: E com os subsídios, as cidades conseguiriam almejar esse índice?

Rubens Lessa: É o que vem ocorrendo. Em Belo Horizonte, hoje, em torno de 42% do custo do transporte é pago pelo município para a população. Esse recurso não é para as empresas, ele vai para garantir uma tarifa mais acessível.

Ricardo Carlini: Eu vou te perguntar sobre isso, porque tem muita gente que critica, e aqui eu pergunto mesmo. O subsídio, então, viabiliza um maior atendimento e o aumento do número de linhas?

Rubens Lessa: O subsídio é muito importante por isso. Com ele, você pode aumentar o número de linhas, de viagens e de atendimento, além de diminuir o tempo de espera no ponto de ônibus.

Ricardo Carlini: Quando a discussão chega às Câmaras Municipais, Rubens, vou ser muito sincero: várias lideranças políticas dizem que a empresa já cobra a passagem e que a prefeitura não tem que dar dinheiro para colocarem o ônibus na rua. Você acompanha esse debate há anos com maestria. Como recebe essas críticas?

Rubens Lessa: Por isso é importante estarmos aqui, para falar de forma clara e transparente com a população. A nossa planilha de custo é composta por salários, diesel, peças, pneus, impostos, encargos sociais e todos os benefícios necessários para o ônibus rodar. Só a mão de obra representa mais de 40% do custo. O diesel - agora estamos passando por dias terríveis (Guerra no Irã) - já está impactando muito o setor. Esperamos que se resolva rápido, porque será um caos se o preço do diesel demorar a baixar. Já subiu R$ 1  para o transporte. Então, a planilha de custo tem que ser auditada de forma transparente pelo poder público. No caso do transporte metropolitano, isso é feito pela Seinfra (Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade de Minas Gerais), que confere todos os nossos números e cálculos para termos condição de prestar um serviço adequado. Além disso, hoje, no transporte metropolitano, temos quase 20% de gratuidade.

Ricardo Carlini: Idosos, estudantes…

Rubens Lessa: No nosso caso, são idosos, pessoas com necessidades especiais e outras categorias beneficiadas por diversas leis. Graças a Deus, a população vem envelhecendo e o número de idosos aumentando. Quando a gratuidade aos 65 anos foi criada, a expectativa de vida do brasileiro era de cerca de 67 anos.

Ricardo Carlini: Hoje é mais de 80.

Rubens Lessa: Mais de 80. Então, o número de pessoas beneficiadas por essas gratuidades aumentou bastante, mas não veio o recurso para pagar essa gratuidade. Esse peso não pode ficar nas costas do passageiro que ganha menos do que o beneficiado pela gratuidade. Às vezes, a pessoa que está pagando a tarifa tem um poder aquisitivo menor do que a pessoa ao lado. Isso acontece muito com a gratuidade para estudantes e, principalmente, para idosos, que deixam de pagar a passagem aos 65 anos, independentemente da renda.

Ricardo Carlini: Me incomoda muito, nesses últimos anos, ver pessoas que querem apenas palanque. Dizem: "Tem que ser tarifa zero todo dia, o dia inteiro, o ônibus tem que ser de graça", mas não falam como, nem quem vai pagar. Ninguém é contra a passagem gratuita, mas quem vai pagar a passagem? Quem vai bancar a manutenção do ônibus e o salário do motorista?

Rubens Lessa: Antes de começarem os subsídios depois da pandemia, o transporte público de modo geral era custeado em grande parte pelo vale-transporte fornecido pelas empresas aos funcionários. Cerca de 65% desse custo era pago pelo empregador. O restante era pago pelo usuário direto, na roleta. Agora, onde há subsídio, o peso do vale-transporte diminuiu. Podemos citar como exemplo Belo Horizonte, Nova Lima, Santa Luzia e várias cidades da Região Metropolitana, as exceções são Contagem e Ribeirão das Neves e o Estado, que ainda não subsidiam o transporte público. Com isso, o custo da tarifa ficou mais barato para o empregador. Alguns municípios pagam entre 40% e 42% do custo; em Nova Lima, esse índice chega a 70%. Nos fins de semana, a tarifa é zero em Belo Horizonte e em Nova Lima. Em Ibirité, aqui na região metropolitana, a tarifa é zero todos os dias — o município paga a empresa por quilômetro rodado.

Quando se fala em tarifa zero em municípios maiores, no sistema metropolitano ou no Estado, tem que se fazer uma base bem feita para não ser um projeto que não fique de pé. Vira um caos depois se não parar de pé. Por isso, nós defendemos uma reformulação na lei do vale-transporte.

Ricardo Carlini: E vocês estão dispostos a falar sobre isso?

Rubens Lessa: Estamos dispostos.

Ricardo Carlini: O diesel, com a guerra, só subindo, o que é um custo pesado também para as empresas. Vocês têm outros combustíveis na frota ou estudos sobre outros combustíveis? A gente ouve falar de biodiesel, ônibus elétrico e um que saiu recentemente…

Rubens Lessa: Biometano. Hoje existem diversas alternativas ao combustível fóssil sendo testadas e discutidas. Ônibus elétricos já estão rodando em vários lugares pelo país. O ônibus elétrico custa cerca de quatro vezes mais do que um a diesel. Em São Paulo já há bastantes veículos elétricos, mas eles enfrentam um grande problema de infraestrutura. Quando falta energia, é um problema muito sério. Defendemos combustíveis diferentes, mas primeiro precisamos ter a certeza de que não enfrentaremos problemas estruturais, como a falta de energia elétrica e a distribuição dessa energia. Não temos, adequadamente, qual tipo de veículo deve ser usado. Já testamos elétrico, a gás metano e agora há várias possibilidades, como hidrogênio verde…

Ricardo Carlini: Como foram os testes com o elétrico e o biometano aqui? Não passaram?

Rubens Lessa: Passaram. Mas para certos tipos de itinerário, o elétrico ainda não é adequado. Falta potência para os morros em uma cidade como Belo Horizonte e na periferia. É um veículo que custa mais de R$ 3 milhões.

Ricardo Carlini: Três, quatro vezes mais.

Rubens Lessa: Três, quatro vezes mais do que o convencional. Esse investimento inicial dilui com o tempo, porque a manutenção é mais barata que a do diesel. Um ônibus a diesel tem mais de 440 componentes; o elétrico tem de 20 a 30. A manutenção é mais barata, mas o investimento inicial é muito mais alto. Por isso, hoje defendemos o veículo Euro 6, que polui cerca de 92% a menos que os modelos Euro 2 e Euro 3.

Ricardo Carlini: Euro 6 é o quê? O nome de um ônibus?

Rubens Lessa: É o motor. Por lei, no Brasil, os fabricantes agora só podem produzir veículos tipo Euro 6. Eles são cerca de 30% mais caros na aquisição, mas a emissão de poluentes é quase 95% menor do que um veículo mais antigo. Estamos defendendo junto ao governo federal linhas de crédito para estimular essa renovação de frota. A maior contribuição que podemos dar ao meio ambiente hoje é trocar a frota por veículos mais novos. Além de melhorar o conforto para a população, contribui muito com o clima. Então, no momento, nossa posição é trabalhar com o diesel Euro 6, até que essas outras tecnologias sejam comprovadas e mais acessíveis.

Ricardo Carlini: Que é menos poluente e mais econômico. Hoje é a decisão das empresas. Se houver um progresso que garanta a geração e a manutenção da energia elétrica, pode haver uma aposta no veículo elétrico?

Rubens Lessa: Exatamente. Inclusive, está se discutindo uma frota de veículos elétricos para Belo Horizonte, que seria comprada pelo município para as empresas operarem. É um investimento bem significativo para o transporte público. Se a população for pagar essa conta integralmente, a tarifa ficará muito alta. Precisamos, realmente, encontrar uma fonte de custeio que não seja no custo da tarifa.

Ricardo Carlini: A tarifa zero dos feriados e domingos em BH está indo bem? Está dando certo?

Rubens Lessa: Tivemos um aumento de demanda em torno de 35% a 40%. E não foi preciso aumentar muito a oferta, porque os ônibus aos domingos já rodavam muito vazios. Trouxe um benefício, mas também trouxe um custo. Não estou aqui representando Belo Horizonte, mas fala-se em um custo na ordem de R$ 70 milhões por mês com o transporte gratuito aos domingos. Além do subsídio feito pelos municípios e, em alguns lugares, pelo estado. No Distrito Federal, 75% do custo da passagem é pago pelo governo local. São Paulo gasta mais de R$ 6 bilhões por ano subsidiando a tarifa. Se não fosse assim, a população não conseguiria pagar, porque o ônibus e o combustível estão muito caros.

E quando falamos do diesel, qual é a maior preocupação no momento? Além do preço, temos o risco de faltar diesel. O Brasil não produz o suficiente; nós exportamos petróleo bruto, mas importamos óleo diesel. As nossas refinarias não atendem à demanda do país. Com a questão dos bloqueios de navios que estão ocorrendo (no estreito de Ormuz), corremos, sim, o risco de faltar óleo diesel, não só para o transporte de passageiros, mas para carga, agricultura, para tudo.

Ricardo Carlini: E sobre questões do dia a dia: a bilhetagem eletrônica é um avanço? É benéfica?

Rubens Lessa: Sem dúvida nenhuma. Quase não há mais dinheiro dentro dos ônibus, o que traz transparência, facilidade e diminui, inclusive, os assaltos. A bilhetagem eletrônica veio para modernizar, já é uma realidade há alguns anos e agiliza muito o dia a dia das pessoas. Mas o transporte público precisa de uma coisa muito importante: que é o ganho de tempo. Temos que priorizar o transporte público em detrimento do transporte individual. Para que ele fique competitivo, em todo lugar que a gente visita pelo mundo, tem que ter faixa exclusiva. Você não pode pegar um ônibus com 100 passageiros e jogar no meio do trânsito. Ele fica parado. Você vem aqui de manhã, descendo a Avenida Nossa Senhora do Carmo lá do BH Shopping, o ônibus fica parado. Na hora que chega na parte com faixa exclusiva, ele deslancha. Mas para chegar do Bh Shopping para cá, na parte da tarde, é um caos. Esse é um exemplo daqui. Aí você pega quem vem de Ribeirão das Neves para cá, chegando do Ceasa até o Anel Rodoviário: fica todo mundo parado. Então, é preciso ter faixa exclusiva e prioridade de investimento para termos um transporte de qualidade. Não adianta comprarmos frota nova e baixar a tarifa se não priorizarmos o transporte público no trânsito.

Ricardo Carlini: E faixa exclusiva é um desafio em BH, que não tem espaço. O trânsito está um nó.

Rubens Lessa: Exatamente porque muitas vezes as pessoas estão andando de veículo particular. Se tivermos um transporte público de qualidade e eficiente, em que as pessoas cheguem mais rápido ao local de trabalho ou de lazer, elas vão deixar o carro. Essa é uma experiência mundial. Em vários lugares, há restrição de automóveis no centro. Nova York mesmo criou um pedágio urbano agora que melhorou o trânsito.

Ricardo Carlini: Londres há muito tempo fez isso e melhorou demais. 

Rubens Lessa: Precisamos priorizar isso. E, voltando ao vale-transporte, é preciso fazer uma reformulação do vale-transporte para que todo mundo contribua e as pessoas possam ter uma tarifa mais barata.

Ricardo Carlini: Estamos de volta agora, com exclusividade para você aqui no Portal, que nos acompanhava na TV Alterosa, com Rubens Lessa, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Terminamos na TV falando sobre a necessidade de um reestudo e de uma reconstrução do sistema do vale-transporte. Mas eu te pergunto agora sobre a pirataria, porque tem ônibus pirata demais, Rubens. Vocês estão de olho nisso? Isso impacta os ônibus legalizados, o movimento e o faturamento?

Rubens Lessa: Impacta muito. Esse transporte pirata é feito por ônibus, por vans e, hoje, temos também o mototáxi pirata, que é o maior causador de acidentes.

Ricardo Carlini: No sistema metropolitano também?

Rubens Lessa: Também. Você pode pegar os dados de atendimento no SUS e nos hospitais de pronto-socorro para ver como subiu o número de pessoas vítimas de acidentes de trânsito em função das motos. Isso está impactando tanto a rede de saúde que, na última pesquisa divulgada, o Sudeste foi ultrapassado pelo Nordeste em perdas de vidas no trânsito, mesmo o Nordeste tendo uma frota muito menor. Você vê, em nível de Brasil, como isso vem impactando a rede pública de saúde.

Ricardo Carlini: E essas vítimas estavam usando o quê?

Rubens Lessa: Motocicleta e mototáxi. O impacto no SUS é muito grande em função das motocicletas transportando pessoas indevidamente. No transporte metropolitano, ainda temos bastantes vans e alguns ônibus piratas. Isso tira passageiros do sistema formal, o que aumenta o custo do transporte. Menos pessoas pagam passagem, saem do sistema e tem que ratear esse custo - quando não tem subsídio - para quem paga a passagem. E provavelmente também tem a redução de viagens e horários para que as empresas possam suportar os seus custos.

Ricardo Carlini: A gente que roda a cidade vê isso. Você vai ali na avenida Paraná ou na Santos Dumont e tem o cara gritando: "Ônibus para Neves, ônibus para Contagem". E tem também os caras com carro particular vendendo esse serviço. Você já me falou que isso impacta inclusive a saúde pública. E sobre essas novidades? Para nós, que já temos cabelos prateados, agora tem as empresas de aplicativo de ônibus, em que você compra a passagem e viaja para onde quiser, inclusive no metropolitano. Esse também é ilegal? Também é pirata?

Rubens Lessa: Totalmente ilegal. Inclusive, pela Fetram — falando agora como presidente da federação —, teremos um seminário no dia 26 de março com a Polícia Militar, DER, Polícia Rodoviária Federal e Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), no quartel da Polícia Militar, para discutir, alinhar e mostrar essa insegurança que isso está gerando no trânsito. Essas viagens de aplicativos não saem das rodoviárias. O passageiro não tem segurança nenhuma: não sabe quem está viajando ao seu lado, se o motorista está adequado ou se a frota está com a vistoria em dia. É um dos maiores causadores de acidentes no transporte rodoviário hoje. E essas empresas normalmente não pagam os impostos que nós pagamos e não cumprem as obrigações com os trabalhadores que nós somos obrigados a cumprir pelos sindicatos e convenções coletivas de trabalho. 

Eles trabalham só nas rotas de maior lucratividade. Você não os vê gritando em volta da rodoviária de cidades pequenas. Já nós, do transporte formal, temos que fazer a cobertura de todo o estado e de diversos lugares do país. Chamamos isso de subsídio cruzado: a linha de melhor rendimento paga a conta daquela com menor rendimento. A partir do momento que tiram os passageiros das rotas com melhor rendimento, as outras linhas ficam sem atendimento. Essa é a questão que mais preocupa o transporte rodoviário de passageiros hoje, tanto o intermunicipal quanto o interestadual.

Ricardo Carlini: Outro dia, um colega de trabalho chegou e me disse: "Carlini, olha que espetáculo esse ônibus. A passagem de leito para o Rio de Janeiro está R$ 250 na rodoviária, mas aqui tá R$ 90, saindo aqui do lado de um hotel". 

Rubens Lessa: Qual a segurança que ele tem nessa viagem? Pode ser um veículo bom, mas pode ser muito ruim e pode ser também que ele nem chegue ao destino. 

Ricardo Carlini: Já tive um colega que o ônibus parou no meio do caminho e não tinha reposição, porque só tinha aquele ônibus.

Rubens Lessa: Exatamente. É uma questão muito séria. As pessoas deveriam avaliar melhor, porque às vezes acham que estão fazendo economia e acabam tendo muitos transtornos. É sempre melhor viajar pelo ônibus formal, saindo das rodoviárias.

Ricardo Carlini: Tomara que esse encontro no dia 26 seja um sucesso, porque acredito que o que mais falta para coibir isso é fiscalização, não é, Rubens?

Rubens Lessa: Acredito que sim. Por isso tem esse encontro que a Fetram está patrocinando com todos os entes públicos que cuidam da segurança do passageiro, da via e da concessão. Hoje, temos muitas ferramentas disponíveis, inclusive para fiscalização eletrônica. É isso que queremos provocar: que os ônibus passem a ser fiscalizados, por exemplo, nas praças de pedágio. Há muita tecnologia de inteligência artificial disponível hoje para nos ajudar.

Ricardo Carlini: Quando vocês recebem reclamações do tipo "o ônibus está caindo aos pedaços" ou "falta isso e aquilo", como vocês recebem isso? Vocês devem ter um sistema rígido de controle. Ônibus caindo aos pedaços ainda existe?

Rubens Lessa: No transporte público, os veículos sempre são fiscalizados. No caso do sistema metropolitano, pelo DER e pelas autoridades constituídas. Temos também um programa de revisão preventiva. Quando tem algum problema, o veículo é retirado e consertado. Problemas mecânicos no dia a dia acontecem, claro, e exigem manutenção de emergência, mas todos os ônibus passam por revisões constantes e periódicas dentro das garagens das empresas.

Ricardo Carlini: Há uma idade limite para a frota poder rodar?

Rubens Lessa: Sim. No transporte de Belo Horizonte, é de 12 anos. No metropolitano, fizemos um acordo com o Ministério Público, o Tribunal de Contas e o Governo do Estado para que essa idade máxima, que hoje é de 18 anos, seja reduzida gradativamente para 12 anos — caindo primeiro para 14, até chegar aos 12 —, desde que o contrato se mantenha equilibrado.

Ricardo Carlini: É plausível? Dá para executar esse planejamento de renovação?

Rubens Lessa: Dá para executar, desde que o nosso contrato seja mantido economicamente equilibrado. Isso precisa estar sempre no foco. Por isso, estamos debatendo um programa muito interessante com o governo do estado. A pedido da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra), apresentamos uma proposta para reduzir a tarifa metropolitana. A ideia é diminuir o número de grupos tarifários, que hoje são mais de 30, para cerca de seis ou sete. Isso resultaria em uma redução média de 20% na tarifa para o usuário.

Ricardo Carlini: Rubens, encerrando o nosso bate-papo, para quando você vislumbra um transporte público de ônibus com uma mobilidade norueguesa, dinamarquesa, belga ou londrina?

Rubens Lessa: Você exagerou muito. [Risos]

Ricardo Carlini: Peguei pesado já para te deixar preocupado, não é? Na Noruega não tem nem tanta gente assim para andar de ônibus.

Rubens Lessa: Mas as pessoas andam. Quando a gente viaja, usa o transporte público. 

Ricardo Carlini: Por quê? Porque é eficiente.

Rubens Lessa: Estamos trabalhando em nível nacional para chegar a esse padrão aqui. Primeiro, a questão que está sendo debatida, ainda mais em um ano eleitoral, é a tarifa zero. Nós defendemos que primeiramente: “como vai ficar de pé este projeto?” Então a questão é que tem diversas pessoas no país hoje que podemos colocar em alguns grupos: têm pessoas com emprego formal com vale-transporte e tem diversas pessoas beneficiárias de programas sociais do governo federal que não conseguem andar de ônibus porque a tarifa está cara. Deveria existir um vale-transporte social para custear a viagem dessas pessoas, porque que tem várias pessoas que também tem o direito de se locomover.

Estamos defendendo que o custeio da passagem dos estudantes venha do Fundo de Educação, e o dos idosos, do Fundo de Assistência Social. Essa conta não pode ficar apenas para quem paga a tarifa de ônibus. Para ter um transporte de qualidade, é preciso investimento público nas vias. Para nós comprarmos os ônibus e eles poderem circular. 

Ricardo Carlini: Posso responder a minha pergunta? Vai demorar. Nossas vias precisam urgentemente de intervenção.

Ricardo Carlini: Rubens, muito obrigado pela presença aqui e pelos esclarecimentos.

Rubens Lessa: Eu que agradeço a oportunidade. É muito importante para o setor falarmos sobre o que precisa melhorar no transporte. Estamos dispostos a fazer a nossa parte, mas é preciso que todos os entes colaborem.

Ricardo Carlini: É isso aí. Rubens Lessa, muito obrigado. E a você que nos acompanhou, muito obrigado pelo carinho da companhia e até a próxima.

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