CINEMA

De plateias vazias ao sucesso: filme revisita trajetória de Alceu Valença

Documentário 'Vivo 76', de Lírio Ferreira, resgata fase decisiva da carreira do cantor pernambucano

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OURO PRETO* – Em 1975, Alceu Valença estava no Rio de Janeiro cumprindo temporada no Teatro Tereza Raquel. A primeira apresentação foi um fracasso, com 30 pessoas na plateia. No terceiro dia, o número caiu para cinco. Prestes a ter os próximos shows cancelados, o cantor e compositor pernambucano resolveu ir para as ruas gritando: "Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor". Conseguiu lotar os shows seguintes.

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Uma das apresentações foi gravada e veio a ser o segundo disco de Alceu, "Vivo!", lançado no ano posterior e considerado um dos principais álbuns daquela década. É a partir dele que o cineasta pernambucano Lírio Ferreira faz um retrato de Alceu no documentário "Vivo 76". O filme foi exibido dentro da programação da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) e deverá chegar aos cinemas em breve.

Ao contrário de grande parte dos documentários de artistas do mundo da música, "Vivo 76" não recorre à imagens de shows, bastidores e entrevistas para TV. Trata-se praticamente de Alceu contando – e cantando – sobre a própria vida.

"Ele é um personagem cinematográfico, não é?", ressalta Lírio. "O Alceu tem uma relação muito forte com o cinema. Em 'A luneta do tempo' (2016), ele assina o roteiro e a direção. É alguém apaixonado pelo cinema. Mas acho que 'Vivo 76' é um filme sobre a vida dele, sobre a construção de uma persona, de um artista múltiplo", afirma o diretor.

Antes de ser músico, Alceu jogou basquete. Integrou a equipe do Clube Náutico Capibaribe e chegou a fazer parte da Seleção Pernambucana. Depois, entrou para a faculdade de Direito. Foi para os Estados Unidos na década de 1960 para realizar um curso de verão em Harvard, mas acabou se dedicando à música, tocando violão nas ruas durante a efervescência da época hippie.

Nos anos 1970, a música de Alceu mesclava elementos do rock, coco e poesia com muita performance cênica. O disco "Vivo!" foi considerado pela crítica da época uma espécie de "nordestinidade elétrica e visceral, mesclando os ritmos dos repentistas com uma roupagem urbana". Nele, Alceu assume uma atitude de rebeldia política e estética, principalmente como reação à prisão do cantor e também amigo Geraldo Azevedo pelos militares.

"Acho que o ‘Vivo 76’ é um filme de memória. E uma das funções do cinema, sobretudo do documentário, é fazer o país pensar, justamente esse país que não liga muito para sua memória. As personas que o Alceu criou refletem muito os anos 1970, uma época muito pesada, de ditadura e tortura", destaca Lírio.

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* O jornalista viajou a convite da Universo Produção

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