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Apesar de não atingidas, casas ficam isoladas em Ponte do Gama e região vira área de risco

Devido às dificuldades de acesso, moradores são orientados a deixar casas em distritos como Ponte do Gama. Muitos devem se mudar para o Centro de Mariana

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postado em 22/11/2015 06:00 / atualizado em 22/11/2015 08:15

Márcia Maria Cruz - Enviada especial

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

Mariana – Das janelas do quarto da casa do filho, Valdemira Inácio Vieira Arantes, de 92 anos, vê o lugar onde cresceu, a casa que foi de seu pai e onde criou sua família, tomada por lama. Ela e as filhas Maria das Graças, de 57, e Maria de Fátima, de 52, estão praticamente ilhadas na região de Ponte do Gama, em Mariana. Na tarde desse sábado, retroescavadeiras tentavam liberar o acesso para que se pudesse chegar à casa onde estão. Numa parte pouco mais alta, a casa não foi atingida pelo mar de lama, mas trata-se de uma área de risco, pelas dificuldades de acesso. A região onde estavam a mãe e as duas filhas foi o foco das buscas do corpo de bombeiros, durante todo esse sábado.

Depois de receber água e alimentos levados por voluntários, a família foi orientada a deixar o imóvel. Sem gostar muito da ideia, Valdemira disse que pretende acatar o conselho, para não ficar mais tempo isolada. A família deve se mudar amanhã para o Centro da cidade. “Nasci em Águas Claras e me mudei para cá quando tinha 1 ano e pouco. Dizem que a área está perigosa. Então, temos que sair”, afirmou Tita, como é conhecida na região. “Vou para Mariana, mas não gosto de lá”, completa a mãe, que guarda na memória a aproximação do lamaçal. “Tocamos as galinhas, as vacas, mas foi muita coisa embora.”


Dezesseis dias depois do rompimento da Barragem do Fundão e avarias na de Santarém, que resultaram no maior desastre ambiental do Brasil, com 12 mortos contabilizados e 11 desaparecidos, os sinais da força da massa de rejeitos que desceu das duas estruturas podem ser vistos por todos os lados. Árvores de grande porte retorcidas na margem dos rios e rejeitos que ficaram ao longo do caminho criam um cenário de desolação.


Trabalhadores a serviço da mineradora Samarco agem para abertura de acessos para Ponte do Gama e Paracatu de Baixo, mas não informam quanto tempo levará para que os caminhos estejam restabelecidos. Com o acesso dificultado a grande parte das áreas atingidas pela tragédia, os bombeiros continuaram as buscas dentro do leito dos rios. Cerca de 40 homens fizeram varreduras em Camargos, Bicas, Ponte do Gama e Paracatu de Cima. “Não vamos suspender as buscas. Resgatar os desaparecidos é um compromisso que temos, para dar o mínimo de conforto a essas famílias”, disse o subtenente Selmo de Andrade.


Com roupas impermeabilizadas, eles buscam na lama sinais dos desaparecidos. Como em muitas partes o barro ainda está molhado, os militares têm dificuldade para andar e precisam adotar a técnica de quatro apoios, ajoelhados e com as mãos no chão. Ontem, os trabalhos não tiveram sucesso, mas os bombeiros fizeram levantamento de pontos em que há indícios da presença de corpos. Eles retomam o serviço hoje de manhã. “Sentimos odor, levamos os nossos cães para que possam sinalizar onde devemos intensificar a procura”, diz o subtenente. Ele lembra que, com o passar do tempo, a tarefa de encontrar os desaparecidos fica mais difícil, mas não impossível.


MANIFESTAÇÃO Nesse sábado, houve protestos em Belo Horizonte e Mariana. Chega de lama!”, dizia um dos cartazes da manifestação realizada na Praça Afonso Arinos, na capital, com marcha até a Praça da Liberdade. O ato, “em repúdio ao crime socioambiental cometido pela Samarco (Vale/BHP)”, reuniu cerca de 120 pessoas, entre representantes da sociedade civil, movimentos sociais e ambientalistas. Segundo Juliana Rocha, integrante das Brigadas Populares, a iniciativa partiu de um seminário realizado no dia 17, em BH, para discutir formas de apoio à população atingida pela tragédia. Já em Mariana, o pedido foi pela permanência da Samarco na cidade para garantir empregos.

Desde o rompimento da barragem, em 5 de novembro, a lama já percorreu mais de 900 quilômetros, comprometendo o abastecimento de água em municípios ao longo do Rio Doce. Em Colatina, no Espírito Santo, equipes do Exército organizam as extensas filas para distribuição de água.
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