Zulmira Furbino
Em São João Evangelista, no Vale do Rio Doce, está difícil conseguir médicos e os que trabalham na cidade, na maioria, são itinerantes, ou seja, exercem a profissão em várias cidades na região. “É difícil demais fixar os médicos”, desabafa o diretor da Fundação Municipal de Saúde São João Evangelista, responsável pelo hospital local, Celso Falcão. As especialidades mais procuradas no hospital são pediatria, obstetrícia, clínica médica e ortopedia. “Hoje, precisamos de mais três médicos. Estamos pagando R$ 1.600 por plantão de 24 horas”, informa.
Braga explica que a remuneração dos profissionais que atendem no PSF é de R$ 18 mil para uma carga horária de 40 horas por semana. Quando eles fazem plantão ou trabalham também no posto de saúde, a remuneração pode chegar a R$ 30 mil, diz o prefeito. “Mesmo assim, é difícil mantê-los aqui. Já cheguei a oferecer salário de mais de R$ 30 mil para o profissional vir morar em São João Evangelista, fazendo dois plantões por semana e ficando de sobreaviso para caso de necessidade. Ainda assim, não consegui ninguém que aceitasse”, diz. De acordo com ele, em matéria de atendimento médico, a situação na região é tão precária que entre São João Evangelista, Guanhães e Santa Maria do Suaçuí, que somam cerca de 100 mil habitantes, há apenas cinco pediatras.
“Contratei um médico que vai trabalhar dois sábados, quatro segundas-feiras, quatro terças e quatro quartas ao mês. Vai receber R$ 27 mil. Propus pagar R$ 30 mil para que morasse aqui, mas ele não topou”, diz o prefeito, que também é médico e já teve de largar a prefeitura para fazer atendimento de urgência. Anestesista na cidade só há nas quartas-feiras. Além disso, como faltava um profissional para fazer a medicação dos pacientes internados logo pela manhã, foi preciso contratar um médico que trabalha 12 horas por semana e recebe R$ 10 mil. “A especialidade dele é ginecologia. Tive que implorar para que topasse a parada, porque ele trabalha também em outros municípios”, revela.
Jovelino Pinheiro Costa é cirurgião vascular e ex-prefeito de Rio Pardo de Minas, no Norte do estado (teve o mandato cassado sob acusação de abuso de poder político). Na avaliação dele, a fixação de médicos no interior sempre foi um desafio. “As pessoas insistem em achar que o que vai fazer um médico ficar numa cidade é o salário, mas estão enganadas. O profissional chega, fica quatro ou cinco meses, faz um caixa e vai embora trabalhar em outro lugar que ofereça mais estrutura de atendimento e mais qualidade de vida.” Para Costa, os médicos fogem de condições de trabalho ruins porque ficam expostos a situações de risco e podem, inclusive, ser processados por imperícia ou negligência.
Outro fator que espanta os profissionais da área de medicina é a violência. “Já tive colegas que foram trabalhar no PSF de Ribeirão das Neves (na região metropolitana da capital) e foram roubados. Em Betim (também na Grande BH) paga-se bem, mas as condições de trabalho não são boas. Você tem medo sair do trabalho”, diz. Em Rio Pardo de Minas, que tem 30 mil habitantes, faltam quatro profissionais para completar o quadro médico. O salário oferecido pelo município é de R$ 20 mil para uma jornada entre 60 a 80 horas semanais. “Não conheço médico que trabalhe menos que 60 horas semanais. O interior requer que o profissional trabalhe mais.”
