
Grupos sem rosto, sem endereço, sem estatísticas e até sem idade. Na esteira da sensação de crescimento da população de rua em Belo Horizonte – admitida pela própria prefeitura, apesar da falta de dados oficiais, como mostrou o Estado de Minas em sua edição dessa quarta-feira – avança também o número de crianças e adolescentes perambulando pela capital. No caso deles também faltam informações confiáveis. Mas não falta a percepção de que o problema vem se agravando, nem relatos de consumo de drogas, sobretudo tíner, de exploração por maiores de idade e de furtos ou roubos que afetam não só pedestres, mas já levam até comerciantes da cidade a mudar de comportamento, em uma tentativa desesperada de se proteger.
Para tentar quantificar o fenômeno, a Secretaria Municipal de Assistência Social lança mão dos dados de setembro, quando 168 crianças e adolescentes que perambulavam pela cidade foram abordados por assistentes sociais. O dado equivale a 8,5% da estimativa de 2 mil moradores de rua feita pela Pastoral da Arquidiocese de Belo Horizonte, mas não leva em consideração os menores que não foram alcançados pelo poder público. A cidade tem em média 300 atendimentos do tipo por mês, mas o número tampouco serve como termômetro confiável do tamanho do problema, pois em muitos casos o mesmo menor acaba sendo abordado várias vezes.
A reincidência demonstra a dificuldade em reintegrar as crianças às suas famílias e de mantê-las longe da rua. Por outro lado, há somente quatro casas de passagem na capital, com 60 vagas de acolhimento. O resultado da falta de conhecimento detalhado da realidade desses jovens, da dificuldade de lidar com eles e do déficit de lugares para abrigá-los aparece em pontos da cidade como a chamada praça ABC, como é conhecida a Praça Benjamim Guimarães, no cruzamento das avenidas Afonso Pena e Getúlio Vargas, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul da capital.
Sob as marquises da antiga Padaria ABC, hoje fechada, 11 menores embolados em cobertores e colchonetes velhos montaram acampamento do qual normalmente saem quase ao meio-dia. Nessa quarta-feira, a Polícia Militar circulou pelo local três vezes e conseguiu convencer dois deles a seguir para um abrigo. Com a movimentação, no meio da tarde o grupo já não estava mais lá. Deixaram para trás restos de comida, embalagens onde guardam solvente e tudo o que usariam para mais uma noite fria de sono. Como o personagem Pedro Bala, do romance Capitães de Areia, de Jorge Amado, um maior de idade acompanha as crianças. Moradores e comerciantes afirmam que é ele o responsável pela compra do tíner, que distribui entre os menores mediante pagamento com produto de pequenos roubos e furtos.
Gato e rato
Comerciantes e moradores da região já se habituaram às investidas da polícia, assim como à sua falta de eficácia. Sempre que as viaturas saem, dizem, o grupo volta. “A gente não sabe o que faz, a quem recorrer. É uma situação assustadora. Diariamente esse grupo se abriga sob a marquise da antiga padaria. Às vezes são recolhidos, mas logo voltam. Cheiram tíner o dia todo, ameaçam comerciantes com pedras, invadem as lojas da região e puxam bolsas de quem passa. Eu me sinto muito insegura, embora ache uma covardia a situação em que vivem essas crianças”, afirma uma moradora de 48 anos, que acompanha tudo da janela de casa.
Nessa quarta-feira mesmo ela diz ter visto quando um menino, que diz ter 10 anos, derrubou as cadeiras de uma lanchonete quando os funcionários pediram que ele saísse. Na segunda-feira, o mesmo garoto, que ela acredita ter menos idade, circulava pela região “limpinho” de calça jeans e camiseta vermelha, afirma ela. “Desta última vez ele estava completamente alterado, imundo. Saiu xingando todo mundo e ainda deu um murro na moça da loja”, contou ela.
Conselheira tutelar na Regional Centro-Sul, Marceline Barbosa diz que a maioria das crianças com trajetória de vida na rua sofre violação de direitos em casa, normalmente violência. Segundo ela, o recolhimento é rotineiro e o número vem aumentando. Acreditando que os dados referentes às abordagens da Secretaria de Assistência Social não refletem a realidade, ela acrescenta que a reincidência é grande e que os menores acabam voltando às ruas.
“Pela nossa experiência, o número é bem maior. Recebemos de oito a 10 menores por dia. São crianças e adolescentes que não recebem em casa carinho, amor e limites. No caso dos menores de 12 anos, não podem permanecer nas ruas. Os adolescentes podem ir e vir. Tomam banho, se alimentam e vão embora”, diz ela. “Com a polícia, eles até costumam ir mais facilmente. Mas muitas vezes conseguem fugir do conselho pulando muro e tentando nos agredir. Não podemos segurá-los. Apesar da pouca idade, eles têm muita experiência de rua. Essa é uma luta tão difícil que às vezes dá vontade de desistir. Só acreditando muito para continuar”, desabafa a conselheira.
A Secretaria de Assistência Social também não tem dados sobre o retorno dos menores às ruas, mas a gerente de Promoção e Proteção Especial, Denise de Magalhães e Matos, admite que “os meninos são conhecidos da rede de proteção”. Segundo ela, cerca de 80% das crianças e adolescentes com trajetória de vida na rua têm vínculos familiares e o objetivo é reintegrar a criança. O abrigo é a última solução. “Se fizermos uma análise histórica, já avançamos muito. Nosso objetivo é promover ou aprofundar a capacidade de proteção das famílias. Temos uma rede de proteção muito sólida e oferecemos um cardápio de serviços bem especial, para aqueles meninos que têm vínculo mais desgastado, no Centro de Referência Especializado da Criança e do Adolescente, que funciona na Praça da Estação”, argumenta.
Lojistas fecham portas e janelas
Na segunda-feira, a chuva fez uma turma de menores de rua invadir uma papelaria na Avenida Afonso Pena, esquina com a Avenida Getúlio Vargas, no Funcionários. Segundo a proprietária, E. N. L., de 50 anos, roubaram cinco guarda-chuvas. Numa abordagem mais amigável, ela foi até o grupo que passa dias e noites sob a marquise da antiga Padaria ABC e tentou pedir que ficassem longe. Até recuperou os produtos de sua loja escondidos em um canteiro, mas saiu de lá ouvindo xingamentos e ameaças.
"Cheguei a recolher pedaços de garrafas de vidro, para que ninguém se machucasse. Não sabemos a quem apelar, porque são menores, ninguém é dono deles. Sob efeito de drogas, ainda são mais corajosos: jogam pedras, fazem xixi nas portas do comércio. O tíner rola solto e alguns ficam até com os olhos revirando. Meus clientes reclamam de furto e insegurança, mas no fundo tenho dó, porque são crianças largadas, sem amor", lamenta ela, que chegou a ter de fechar uma janela de sua loja, por onde os menores furtavam mercadoria.
O chefe de cozinha André Sá, de 24, presenciou recentemente um assalto a um estudante do Colégio Santo Antônio, próximo à Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi. "A situação é muito séria, parece que fugiu do controle. E esse não é o único grupo de menores na região. Outro dia, cinco menores cercaram um garoto para roubar a mochila. Tentei intervir e um casal de estrangeiros acabou ficando no meio da confusão. Não adianta só cuidar da estética do bairro, se a questão social está esquecida. Será que se resolve este problema até a Copa?", questiona o rapaz, lembrando que os turistas ficaram assustados. Em uma lanchonete da Avenida Afonso Pena, próximo a uma farmácia que agora conta com segurança particular, o horário de funcionamento teve de ser reduzido. O estabelecimento fechava às 23h30, mas as funcionárias decidiram baixar as portas às 19h. "Esta semana, um grupo de mais de 15 entrou aqui e pegou sorvetes e potes de açaí que ficam na geladeira, perto da porta. Eles andam com facas e a gente fica com medo", queixou-se a atendente.
