A unidade de Belo Horizonte do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua calcula com pesar o número de assassinatos e tentativas de homicídio contra esses cidadãos na capital: só este ano já são 34 vítimas, com 20 mortos. A preocupação também é grande com outra estatística, a que trata da identificação dos autores. Segundo a coordenadora do Centro, Karina Alves, nenhum desses crimes foi esclarecido ainda.
“É muito difícil solucionar os casos que envolvem a população de rua. Ontem mesmo estive em uma conversa com o Ministério Público, cobrando empenho e acompanhamento para verificação dos fatos. Os inquéritos são abertos, mas a polícia não consegue identificar os autores dos homicídios e tentativas. Poucos casos são esclarecidos no país todo e daí a importância de uma discussão nacional sobre a proteção dessas pessoas”, afirma.
Como o centro foi inaugurado em abril, não dispõe de dados anteriores sobre o número de crimes que têm como alvo moradores de rua. Com base nas denúncias e casos recentes de envenenamento, vítimas de facadas e até de fogo, ela acredita que a violência contra essa parcela da população esteja aumentando. “Nossa realidade é ruim. Está um pouco acima, por exemplo, de Maceió, que tem 18 mortos no ano.”
Paliativo

Segundo a regional, a iniciativa foi tomada há dois meses em uma passarela na altura do Hotel Ouro Minas, com o objetivo de prevenir assaltos e furtos, devido à presença de usuários de drogas e à ocupação irregular pela população de rua. Na divisa com a Regional Norte, a primeira a adotar a medida, o revestimento de área com pedra gnaisse, conhecida como pedra de mão, foi colocado em janeiro sob o viaduto entre os bairros São Gabriel e Primeiro de Maio. A ideia foi trazida de Curitiba, e a cidade do Rio de Janeiro também adotou o modelo.
Já na Regional Noroeste, as obras de retenção foram realizadas debaixo da passarela de acesso à Estação Calafate do metrô, para dificultar invasões. Na Centro-Sul, o viaduto da Avenida Francisco Sales, próximo ao supermercado Extra, ganhou obstrução para impedir ocupação irregular em um trecho determinado. O lugar, segundo a regional, estaria sendo usado como estacionamento.
Enquanto isso, polícia pede prazo
Segundo a unidade mineira do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua, 14 andarilhos de quatro grupos foram vítimas de tentativas de homicídio na capital este ano. O caso de maior repercussão ocorreu quando oito pessoas foram envenenadas com chumbinho na Praça Iron Marra, no Bairro Santa Amélia, Região da Pampulha. O crime aconteceu em maio. Uma garrafa de cachaça foi deixada na praça, e misturado à bebida havia veneno contra rato. Ainda não há suspeitos do crime e o inquérito seguiu para a Justiça com pedido de aumento do prazo para investigação.
Ilusório eldorado da Copa
O pedreiro Vanderlei Anastácio dos Santos, de 42 anos, ouviu falar, em Governador Valadares, onde mora, que havia necessidade de muita mão de obra para a reforma do Mineirão, por causa da Copa do Mundo, e que a remuneração era boa. “Achei que estava ganhando pouco. Pensei que aqui ia arranjar coisa melhor, mas não arrumei nada”, conta ele, na fila do Plantão Social de Atendimento ao Migrante, que funciona na rodoviária de Belo Horizonte e atende 650 pessoas por mês.
Os planos de Vanderlei deram errado. Ele chegou à cidade sexta-feira passada e diz que foi roubado logo depois. “Cochilei”, lamenta. Ficou sem dinheiro e sem documentos. Dormiu uma noite no Albergue Municipal e duas na rua. “Como vou lá no Mineirão sem documentos? Quero ‘fichar’”, diz o pedreiro, que garante ter prática em trabalhar com armação de ferragens. Sem deixar a Bíblia que carrega debaixo do braço – “Isso é minha espada, minha arma” –, quer arranjar bicos antes de voltar a Governador Valadares para tirar novos documentos e, aí sim, buscar emprego no Mineirão.
Histórias como a de Vanderlei se repetem no Atendimento ao Migrante. “A cada dia que passa aumenta a quantidade de gente perambulando por aí sem documentos e sem qualificação. É gente demais da conta”, diz a gerente, Maria Mazzarello Vieira Torres. Segundo ela, muita gente acredita que Belo Horizonte está fervilhando de emprego com grandes obras, por causa da Copa’2014. A grande maioria dos que chegam atraídos por essa crença é formada por homens, que chegam sozinhos.
É o caso do paulista Jonas Ferreira da Rocha, de 29. Ele conta que ficou desorientado com a perda de um filho de 8 meses e quis largar tudo para tentar a sorte em outro lugar. “Belo Horizonte é bem falada. Todo mundo diz que para serviço é muito boa.” Não foi para ele, que chegou em 19 de setembro e só conseguiu bico para um dia de trabalho. Abrigado no Albergue Municipal, quer ir embora para retomar a vida em São Paulo.
No albergue, existe demanda por mão de obra por parte de empresas, principalmente da construção civil, ou para carga e descarga de caminhões. Há firmas que querem até 30, 40 trabalhadores e se dispõem a mandar ônibus para buscar, informa o gerente, Gladston Lage. Os casos mais complexos são de pessoas sem qualificação, sem documentos ou que têm dificuldade para se adaptar à disciplina de um trabalho formal. “Ele pode ter acolhida e atendimento social, mas tem dificuldade para se estabilizar”, avalia.
Ana Elisa Parolini, de 30, mãe de dois filhos, foi uma que viajou de Vitória (ES) para Belo Horizonte buscando trabalho. “Todo mundo falava que aqui era bom de emprego. Foi a pior bobeira ter vindo. Foi propaganda enganosa”, desabafa a mulher, que diz dispor de casa em Vitória, para onde pretende voltar, com a ajuda do Plantão Social da rodoviária. Ela chegou a Belo Horizonte há dois meses. Há 15 dias foi a vez do namorado, Fernando Dias Peixoto, de 29, que também diz buscar trabalho: “Queria qualquer serviço: servente, chapa de caminhão... O negócio é ganhar a vida”. Antes de fornecer as passagens de volta, o serviço faz uma sindicância, no sentido de confirmar se o interessado tem vínculos no local para onde pretende ir, para evitar que as pessoas fiquem perambulando de cidade em cidade.
