
Enquanto milhares de consumidores tentavam pôr a vida em ordem, depois de quase quatro dias sem luz, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) assumiu nessa segunda-feira que, desconsiderados blecautes nacionais, o estado registrou, quinta-feira, o maior apagão de sua história. Na estimativa da empresa, cerca de 1,5 milhão de pessoas foram atingidas pela interrupção de energia elétrica. Conforme o Estado de Minas antecipou sábado, cerca de 1 milhão delas estavam na região metropolitana da capital. Numa tentativa de justificar o caos instalado, a concessionária argumentou que foi pega de surpresa e, embora soubesse da chegada de chuvas e do vendaval, era impossível prever uma intensidade de rajadas de vento superior a 70km/h, velocidade fora das estatísticas.
Segundo a empresa, o fornecimento de energia elétrica foi normalizado nessa segunda-feira e equipes técnicas trabalhavam apenas em casos pontuais, como os do Bairro Capela Nova, em São Sebastião das Águas Claras (Macacos), distrito de Nova Lima. Depois do temporal, 20 postes caíram no povoado e até essa segunda-feira 36 imóveis estavam sem luz. Apenas de quinta-feira até a noite de segunda-feira, esses consumidores já amargavam 96 horas no escuro. O tempo é sete vezes superior ao período médio de 13 horas que cada mineiro passa, por ano, sem energia elétrica.
Além da cobrança de quem ainda sofre com a falta de luz, a Cemig está sob a pressão direta do governador Antonio Anastasia, que disse nessa segunda-feira estar acompanhando a situação de perto: “Temos de ter cada vez mais uma pressão para que a Cemig restabeleça seu padrão de funcionamento. Tivemos uma ventania excepcional, mas temos de manter uma cobrança permanente, pois se trata de uma concessionária de serviço público.”
O presidente da Cemig, Djalma Bastos de Morais, reforçou que o apagão foi provocado principalmente pela queda de árvores e galhos sobre a rede elétrica, numa intensidade e período do ano atípicos. Enquanto a empresa atendeu, em junho do ano passado, 582 casos emergenciais, apenas no período de quinta-feira a domingo esse número subiu para 1.633 atendimentos diários. Em relação às reclamações sobre fios partidos, foram 1.977 em junho do ano passado e, somente depois do temporal da semana passada, as queixas já chegam a 1.737.
Surpresa
Entre quinta e sábado, a Cemig recebeu mais de 1 milhão de ligações, quantidade sete vezes acima da esperada. “Foi uma situação altamente singular. Não temos como trabalhar prevendo picos e casos atípicos a todo instante. Não esperávamos aquela situação”, afirma Morais, justificando queixas de clientes sobre atendimento demorado e ineficiente e acrescentando que investimentos estão sendo feitos na poda de árvores e em tecnologia. Até 2012, a empresa prevê a instalação de mais de 7 mil religadores automáticos de energia em todo o estado.
Segundo o superintendente de Relacionamento Comercial da Cemig, Ricardo Rocha, o vendaval provocou o maior apagão da história de Minas, excluídos blecautes nacionais. “Mobilizamos toda a nossa força de trabalho, mas foi fora das estatísticas”, diz. O superintendente recorda que, nos últimos três anos, Minas foi assolada por outros dois apagões, em 30 de agosto de 2008, quando 500 mil pessoas ficaram sem luz, e em 21 de setembro de 2009, com 600 mil no escuro.
A família de Fabíola Cristina Lima, de 34 anos, teve o desprazer de fazer parte do apagão recorde e foi obrigada a passar o fim de semana fora de casa, no Bairro Buritis, na Região Oeste da capital. A luz acabou na tarde de quinta-feira e só voltou na madrugada dessa segunda-feira. “Foram quase quatro dias no escuro. Meu pai, Darci Albano de Lima, está em tratamento de câncer, não dá conta de subir e descer escadas, ainda mais sem luz. Tivemos de ir para a casa da minha irmã”, conta.
Segundo Fabíola, a falta de luz é recorrente. “O transformador não dá problema só por causa de chuva, isso ocorre sempre, mas a Cemig não troca.” Com a volta da luz, nessa segunda-feira foi o dia de Fabíola estimar o prejuízo: “Minha mãe tinha feito compras quinta de manhã. Frutas, carnes, foi tudo para o lixo. Fizemos um boletim de ocorrência e vamos ver o que podemos fazer.”
Fique atento
A Cemig orienta que clientes com prejuízo por falta de energia devem entrar em contato pelo telefone 116.
