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OS HOMENS DA ESTRADA

Caminhoneiros vivem entre a pressão do frete e o perigo nas pistas

Pressionados pelo prazo estipulado pelas transportadoras, os caminhoneiros enfrentam o perigo a cada curva das rodovias, sem a devida manutenção. Deficiências afetam 62% da malha viária

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postado em 13/04/2015 06:00 / atualizado em 14/04/2015 09:57

Paulo Henrique Lobato

GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS

Naque e João Monlevade – “Atrasei a entrega de uma mercadoria em quatro horas e a empresa me descontou R$ 700 no frete. Tentei justificar, dizer que foram coisas na estrada. Não teve jeito. Havia multa estipulada no contrato”, recorda Francisco Ferreira, de 53 anos. Chofer de caminhão há quase duas décadas, ele reclama do antagonismo entre a rigidez de transportadoras no cumprimento do prazo do carreto e o desleixo do poder público na manutenção e revitalização das rodovias. Esse é o tema da segunda reportagem da série Os homens da estrada, baseada no romance Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior. Em muitos trechos do livro, o protagonista-narrador faz a mesma crítica de Francisco, como a frase em destaque no alto desta página.

Jorge liderou um grupo de estradeiros que deveriam levar milho do Vale do Aço a BH em seis dias. O comboio chegou ao destino quase uma semana depois do prazo previsto, por causa das más condições da malha, como descreveu o personagem: “Havia trechos em que não estávamos indo nem a dois, ou três quilômetros por hora. Era aquela vagareza, passando devagar nas curvas, devagar nas subidas, devagar nas descidas. E parando”. De acordo com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), 62% da malha viária nacional tem alguma deficiência no pavimento, na sinalização ou na geometria.



Jorge, o personagem, percorreu e ajudou a construir estradas Brasil afora. Em Minas, o comboio por ele guiado enfrentou problemas em trechos que, na vida real, pertencem às BRs 381, 116 e 458. Quase 50 anos depois da publicação da primeira edição do livro, em 1967, as três rodovias foram classificadas com a nota “regular” no estudo da CNT. A 458, sobre a qual o protagonista comentou que “o pior trecho era de Ipaba até Bugre”, tem pista simples, ausência de acostamento em alguns trechos e, segundo os critérios da CNT, uma geometria “ruim”. A geometria e o pavimento da 116, de acordo com a pesquisa, são “regulares”. O mesmo ocorre com a 381. Esta última, apelidada em Minas de Rodovia da Morte, começou a ser duplicada ano passado. Contudo, as obras entre Ipatinga e Governador Valadares foram paralisadas em janeiro. As empreiteiras subcontratadas pelo consórcio que venceu a licitação alegaram que não receberam o pagamento.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), por sua vez, informou que repassou o valor ao consórcio. A interrupção do serviço aumentou o risco de acidentes, pois placas de sinalização que haviam sido retiradas das margens da via para o alargamento da pista não foram recolocadas. Situação oposta ao elogio que França Júnior fez à mesma rodovia no romance: “E depois disto, entrar numa outra (BR) nova, de asfalto novo, e larga, com as listras brancas e as placas de sinalização todas pintadas, era coisa de você nem acreditar”. A realidade agora é outra. “Está um perigo (transitar) por aqui”, alerta dona Rosicler Euzébio Costa, sócia do restaurante e pousada Beira Rio, em Naque, no Vale do Aço.

A paralisação da obra de duplicação causou prejuízos à economia da região. Muitos fornecedores não receberam pelas mercadorias e serviços vendidos às empreiteiras. Os credores estimam que o calote some cerca de R$ 14 milhões. O restaurante em que dona Rosicler é sócia, por exemplo, tem R$ 12 mil a receber: “Servimos marmitex para os operários. Telefonamos várias vezes para a firma (que nos deve), mas nos disseram que a empresa ainda não havia recebido do consórcio”. O descaso com o trecho também preocupa Aureliano Oliveira, chofer há seis anos. Ele percorre a 381 com frequência e tem uma opinião pessimista: “Acho que os acidentes vão aumentar”.



GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS

Por causa de problemas na BR, Aureliano se recorda que entregou um frete com atraso. Resultado: “Descontaram R$ 150 no valor do carreto”. A quantia lhe fez falta, pois o valor corresponde a 15% da prestação mensal de seu 1113, fabricado em 1973. “Financiei-o em 36 vezes. Quitei 20 parcelas. Levo ferragem de Ipatinga (Vale do Aço) para São Paulo e recebo R$ 1,2 mil pelo frete. Se der uma zebra no caminho, como faço?”, questiona.

Para recuperar o tempo perdido com a precária manutenção da malha, muitos estradeiros autônomos pisam no acelerador e dirigem várias horas seguidas, aumentando o risco de acidentes. Foi o que Jorge e seus amigos ameaçaram fazer na 381: “Perto de Monlevade entramos na estrada nova e começamos a correr. Tive que me lembrar e diminuir aquela correria, porque com carros pesados como estavam aqueles, isso não era coisa boa”. Por uma trágica coincidência, 22 anos depois de publicar o romance, França Júnior perdeu a vida num desastre de carro no mesmo trecho da 381. O Escort que ele dirigia passou reto numa curvas em João Monlevade, onde o escritor participou de um encontro literário.

GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS
Francisco, o chofer que deixou de receber R$ 700, considera o trecho um dos mais perigosos do país. “Toda precaução com as curvas é pouca”, disse o estradeiro enquanto ajudava a esposa, Arizete, que o acompanha na viagem e prepara o almoço. “A pessoa não pode bobear. O governo tem que melhorar as estradas”, acrescenta José de Souza, de 71. Diversas vezes, no romance, Jorge ironiza a negligência do poder público com as estradas brasileiras. Tanto que os personagens precisaram abrir desvios em diferentes trechos: na vida real, o fato se repetiu em março passado, quando o trânsito no trecho da 381 batizado de Fernão Dias (BH-SP) ficou fechado por 14 horas em razão de pane num caminhão que integrava um comboio de 540 toneladas e mais de seis metros de largura.

A pista só foi liberada porque motoristas presos no congestionamento quebraram a mureta que divide os dois sentidos da pista, alterando o tráfego nas direções opostas. A medida ajuda a entender uma das várias ironias feitas por Jorge, há quase 50 anos, mas que ainda soam como críticas atuais: “Depois falei que quando a gente chegasse em Belo Horizonte, iríamos cobrar do Departamento de Estradas de Rodagem os nossos serviços”.

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BEBIDA E VOLANTE

Chapa do bons, Mário Gonçalves cobra R$ 30 por tonelada descarregada. Ele oferece seus serviços na BR-116, em Caratinga, próximo à grande imagem do Menino Maluquinho, personagem do escritor Ziraldo, que nasceu na cidade: “Tem vez que viajo para descarregar. Daí o preço é maior”. Numa dessas viagens, Mário foi vítima de acidente. O caminhão em que ele estava derrapou e bateu numa árvore. “Eu fiquei ferido. O motorista nada sofreu. Já o outro chapa morreu. O caminhoneiro havia tomado conhaque antes de pegar o volante.” No livro de França Júnior, Jorge recordou de quando o amigo Jocimar capotou uma carreta: “E pensava que ele tinha dirigido bêbado e tão ruim que passou a noite dormindo dentro do carro virado”.



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Heveraldo
Heveraldo - 13 de Abril às 17:05
Mercadorias deveriam ser transportadas por trens e as carretas deviam ser retiradas das estradas.
 
Amalia
Amalia - 13 de Abril às 15:07
Greve já!!!!
 
Daniel
Daniel - 13 de Abril às 09:26
Paradigma cinquentenário que não foi enfrentado por nenhuma classe política. E ainda veio um molusco de nove dedos e encheu as rodovias de automóveis e causou este estrago. RODOVIA TEM QUE PRIVATIZAR.! Repito!!! TEM QUE PRIVATIZAR! Basta que para tanto se abata os valores pagos com pedágio no IMPOSTO DE RENDA! Porque o IPVA e a CIDE já são suficientes para que o governo repasse para as concessionárias das rodovias. Já era para ter feito. NÃO F AZ PORQUE METE A MÃO NO DINHEIRO DO POVO!
 
Adair
Adair - 13 de Abril às 08:11
Os governantes não estão nem ai pois tudo que eles precisam vai seus Apartamentos, e outra coisa viajam é de Avião, não buraco, não tem Poeira, não tem Alagamentos de Pistas quem se Ferra são os coitados do Caminhoneiros