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Estado de Minas

Sem mar, Minas sofre com a crise na indústria naval

Após o boom vivido com a descoberta do pré-sal, estaleiros trabalham com capacidade ociosa. Situação se reflete nas indústrias mineiras do setor marítimo, que amargam retração de até 50%


postado em 20/08/2017 06:00 / atualizado em 20/08/2017 10:47

(foto: Steferson Faria/Petrobras/Divulgacao )
(foto: Steferson Faria/Petrobras/Divulgacao )
Rio de Janeiro – Longe da euforia com a descoberta do pré-sal – com investimentos que chegaram a R$ 45 bilhões nos últimos 10 anos –, a indústria naval brasileira tenta a duras penas evitar um naufrágio.

Entre 40 estaleiros instalados no Brasil, 12 estão parados e os demais com capacidade ociosa. Cinco já estão em processo de recuperação judicial ou extrajudicial. Segundo o sindicato da categoria, cerca de 50 mil trabalhadores do setor perderam o emprego nos últimos anos.

E a ressaca não se limita à crise econômica vivida no país – envolve principalmente a Operação Lava-Jato e o declínio da Petrobras, maior cliente de várias empresas do setor.

Engana-se quem pensa que essa crise passa longe de Minas Gerais. Não temos mar, mas há sim empresas instaladas por aqui voltadas para o setor marítimo. Duas delas pertencem ao mesmo grupo: a Centa Transmissões e a Andino – a primeira produz acoplamentos e a segunda é especializada na fabricação de defensas (espécie de amortecedor das embarcações).

Ambas com sede em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A maior parte da produção é voltada para o consumo interno de estaleiros e donos de embarcações. O restante é exportado para Bolívia, Argentina, Chile e Paraguai.

“Com a Lava-Jato, tivemos uma queda de 50% no faturamento. Se antes a Petrobras precisava de um número de embarcações, agora precisa de menos da metade. E, com isso, cai a necessidade de peças”, diz o diretor da Centa, Roland von Urban.

De acordo com o gerente comercial da empresa, James von Urban, o que ajuda a segurar o mercado é a reposição de peças, ou seja, manutenção das embarcações já existentes. “Não há novas embarcações”, diz ele. A Centa opera basicamente na produção sob encomenda e tem hoje 35 funcionários, número que já foi maior nos tempos áureos do setor.

Outra mineira que integra a lista de empresas do setor é a Tecnofink, voltada para manutenção corretiva industrial, principalmente em situações de emergência.

“Temos uma demanda por manutenção e produtos de alta performance em plataformas de petróleo. Nosso principal cliente é ligado à produção de óleo e gás”, explica o gerente comercial para a América Latina, Emerson Teixeira de Paula. Na linha de reforço estrutural, 60% dos negócios estão ligados ao setor naval.

“Até o ano passado, o impacto não tinha sido tão representativo. Este ano, com o represamento de aquisições da Petrobras, nossas vendas e faturamento foram afetados em 35%”, afirmou o gerente comercial da empresa mineira que tem filiais em São Paulo e Rio de Janeiro e há três anos iniciou operações em Houston, nos Estados Unidos.

No mercado há 53 anos, a Delp Engenharia atua no desenvolvimento e implementação de projetos de engenharia mecânica básica e detalhamento até a fabricação de montagem industrial e entrega de equipamentos para siderurgia, mineração, petróleo e energia. Embora o foco de atuação seja concentrado nos mercados de óleo e gás, geração de energia, indústria, serviços e naval, o superintendente comercial da empresa, Willian Alves de Lima, reconhece que o último setor tem sido inexistente.

De acordo com ele, a última encomenda de produtos da área naval foi feita em 2014. “E mesmo assim, porque tinha muito trabalho na praça”, recorda. Com a redução dos investimentos da Petrobras, obviamente a atuação da empresa no setor também caiu, em número que ainda não foi quantificado. “As encomendas diminuíram de um modo geral, em qualquer mercado. Da indústria naval, desapareceu”, comentou.

Pré-sal O futuro do setor foi um dos assuntos discutidos na semana passada, durante a 14ª edição do Marintec South America, evento que reuniu representantes da indústria naval brasileira no Rio de Janeiro. Uma alternativa discutida para recuperar o prestígio nacional é aumentar a exploração de campos de petróleo, o que atrairia o mercado internacional. O Brasil tem atualmente 30 mil poços de petróleo perfurados. “Ainda temos muitas áreas para serem exploradas, tendo em vista que nosso país tem dimensões continentais, mas nossa política não permite que o setor se desenvolva como deveria”, argumentou o gerente técnico da BRA Certificadora, Elmar Mourão.

Outro caminho foi aprontado pelo professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Newton Narciso Pereira. Para ele, uma forma de gerar negócios seria a reciclagem de embarcações, até porque há mais de 50 mil unidades no mundo, que em algum momento estarão ultrapassadas. “O mercado de desmonte de navios já provou os benefícios que proporciona em todo o mundo”, disse. Segundo o professor, Bangladesh e Índia, por exemplo, são responsáveis por gerar mais de 100 mil empregos cada um com o setor, que abastece o mercado com produtos usados.

*A repórter viajou a convite da Marintec South America


ENQUANTO ISSO...
…Incentivo até 2040

O governo federal publicou na sexta-feira passada decreto que prorroga até 2040 o Repetro, programa que estimula investimentos no setor de óleo e gás, ao permitir que equipamentos para pesquisa e exploração no mar entrem no país sem cobrança de tributos sobre importação.  Com a renovação, também será permitido que insumos fabricados no Brasil fiquem isentos de tributos. O governo publicou ainda uma medida provisória (MP) que suspende a cobrança de tributos federais sobre insumos e matérias-primas nacionais para o setor de petróleo e gás, mas ela não mexe no ICMS, imposto estadual.  Segundo analistas do mercado, a prorrogação do Repetro e a criação de um novo regime tributário deverão ter impacto positivo sobre os leilões de áreas de exploração que o governo programou para setembro e outubro. A expectativa com eles é de reforçar o caixa da União em no mínimo R$ 9,49 bilhões. Esse valor pode subir à medida que houver mais empresas interessadas nos lotes. Criado em 1999, o regime ia acabar em 31 de dezembro de 2020, prazo considerado curto para negócios que precisam de anos para amadurecer, segundo justificativa do Ministério da Fazenda. E questão fundamental, porque os tributos representam algo como 50% do custo de investimento.


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