Nas batidas graves dos tambores, no brilho dos espelhos bordados e no ritmo que pulsa como sangue da terra, o Bumba-Meu-Boi do Maranhão desperta. Não é apenas uma festa: é memória viva, resistência alegre e devoção que atravessa séculos. Antes mesmo que as fogueiras se acendam em São Luís, o espírito sagrado do Boi já caminha por outras capitais, levando o calor, a cor e o mistério do São João maranhense para o coração do país.

No dia 30 de abril, grupos folclóricos tradicionais desembarcam em Belo Horizonte com toda a sua força ancestral. Pela manhã, no icônico Mercado Central, e à tarde na Lagoa da Pampulha, o público mineiro poderá sentir a energia vibrante dessa manifestação que é, ao mesmo tempo, teatro, dança, música e ritual.

A jornada continua em São Paulo, no dia 4 de maio. Pela manhã, a Avenida Paulista — uma das mais movimentadas do país — será tomada pela alegria colorida do Boi, das 9h às 12h. À noite, o Villaggio JK, em Vila Olímpia, recebe o grande momento: uma apresentação especial para o trade turístico acompanhada de coletiva de imprensa, marcando a presença marcante do Maranhão no calendário cultural nacional.

O movimento ocorre após uma edição de forte impacto. Em 2025, o São João do Maranhão movimentou cerca de R$ 415 milhões, com alta ocupação hoteleira e aumento no fluxo de turistas, consolidando o evento entre os principais do calendário junino brasileiro.

Como é a festa do Bumba-Meu-Boi no Maranhão

Em 2019, o Complexo Cultural do Bumba-Meu-Boi do Maranhão foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO

Secom/MA

No Maranhão, o Bumba-Meu-Boi (ou simplesmente “Boi”) é o coração das festas juninas. A celebração acontece especialmente em junho e julho, em São Luís e no interior do estado, com dezenas de arraiais, ruas tomadas por multidões e apresentações que vão até a madrugada. Mais de 100 grupos participam, cada um com seu “sotaque” próprio — estilos musicais, ritmos, instrumentos e figurinos diferentes: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão.

É uma grande festa de rua, devoção e alegria popular que mistura teatro, dança, música e circo. Os bois desfilam com cores vibrantes, adornados com fitas, espelhos e bordados. Personagens centrais como Pai Francisco, Mãe Catirina, o Mestre, a índia e o boi encantado interagem com o público. A festa tem forte influência católica — São João é o padroeiro —, mas também carrega elementos africanos (ritmos de tambores), indígenas (danças) e europeus (enredo dramático). Os grupos se apresentam em arraiais, praças, shoppings e bairros, unindo fé, resistência cultural e diversão para todas as idades.

O ciclo inclui quatro etapas principais: ensaios (que começam após o Sábado de Aleluia), batismo do boi (geralmente em 23 de junho), apresentações intensas em junho/julho e, por fim, a “morte” simbólica do boi no final do ano, seguida de ressurreição no ano seguinte.

Como começou a tradição

Festa do Boi no Maranhão é tradição, ritual e ancestralidade

Secom/EM

A tradição do Bumba-Meu-Boi surgiu no século 18, no Norte e Nordeste brasileiro, durante o Ciclo do Gado, quando o boi tinha enorme importância econômica nas fazendas. Seu enredo principal conta a história de um escravo, Pai Francisco, que mata o boi preferido do patrão para satisfazer o desejo de sua esposa grávida, Mãe Catirina, que queria comer a língua do animal. Descoberto o crime, o boi é ressuscitado por pajés e feiticeiros, simbolizando morte, perdão e renascimento.

A manifestação mistura influências: europeias (autos medievais e teatro popular), africanas (ritmos, tambores e a presença marcante dos negros escravizados) e indígenas (danças e elementos místicos). No Maranhão, os primeiros registros datam do início do século 19 (com menções em 1829 e 1861). Apesar de ter sido proibida por alguns anos no século 19 por preconceito contra sua origem popular e negra, a festa resistiu e se fortaleceu, tornando-se símbolo da identidade maranhense. Em 2019, o Complexo Cultural do Bumba-Meu-Boi do Maranhão foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Fora do Maranhão, essas apresentações são uma amostra encantadora do que o público viverá com intensidade ainda maior no estado. Um convite antecipado para quem deseja conhecer a festa em sua forma mais pura e poderosa.

SERVIÇO

Mercado Central (BH)

30 de abril — 10h às 13h

Apresentações na entrada + atendimento à imprensa no piso superior, com mingau de milho e press kit.

Lagoa da Pampulha (BH)

30 de abril — a partir das 16h

Intervenção cultural aberta ao público.

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