A instalação de uma cancela no Quadrado Histórico de Trancoso, distrito de Porto Seguro, no extremo Sul da Bahia, continua gerando forte indignação entre os moradores nativos. A medida, implementada por decreto municipal, restringe a circulação de veículos particulares de residentes locais, priorizando o acesso para turistas, taxistas (ou mototáxis) e proprietários de comércio na área.

O Quadrado Histórico — famoso pela arquitetura rústica, pela igrejinha e pelo charme que atrai celebridades e turistas de alto poder aquisitivo — sempre foi um espaço de convivência cotidiana para os nativos. Com a barreira física na entrada, muitos relatam se sentirem excluídos de um território que ajudaram a construir e preservar historicamente.

Barrados no 'Quadrado'

Um vídeo que viralizou nas redes (mais de 2.2 mil likes e 447 comentários) denuncia uma medida polêmica em Trancoso (BA): o Decreto nº 16.865/2025, assinado pelo prefeito de Porto Seguro, Jânio Natal (PL), proíbe a circulação de veículos no entorno do Quadrado, Praça dos Hippies e Bosque do Quadrado, com exceções limitadas.

De acordo com a legenda da postagem e relatos de moradores nativos, a regra permite acesso prioritário a turistas e visitantes (além de taxistas cadastrados, serviços essenciais e moradores com garagem própria no perímetro), mas barra muitos locais que nasceram e sempre viveram ali. 

Eles alegam discriminação e elitização: enquanto quem vem de fora entra de carro, nativos são impedidos mesmo para ir ao trabalho, saúde ou resolver assuntos familiares. “Estão transformando o Quadrado em um espaço privado, feito apenas para quem vem de fora e tem dinheiro”, desabafa um morador anônimo na denúncia.

A prefeitura justifica a norma como forma de ordenar o fluxo, minimizar impactos no patrimônio histórico e preservar o espaço turístico icônico da Bahia (sem carros grandes após 10h, por exemplo). No entanto, a gestão ainda não detalhou publicamente critérios amplos para liberação de nativos, o que alimenta a revolta. Entidades comunitárias cobram revisão imediata, diálogo e respeito ao direito de ir e vir.



'Apartheid social' 

Outra postagem nas redes sociais denuncia a situação de forma contundente. Publicado pela ativista Iza Souza, no perfil do Instagram @manjar_ancestral, expõe a cancela como símbolo de higienização social e apartheid velado. No texto da legenda, Iza critica duramente o processo: “Quando uma política pública não é aplicada de forma igualitária, ela deixa de cumprir sua função social e passa a operar como instrumento de exclusão. A lei deixa de proteger o patrimônio coletivo e passa a organizar privilégios privados. O discurso da segurança esconde uma prática de segregação que transforma o direito de ir e vir em concessão”.

 Ela argumenta que o espaço foi tomado por investidores externos, e a cancela exclui os corpos pobres, negros e nativos do lugar que historicamente ocuparam, transformando Trancoso em uma "vitrine" que não tolera "rachaduras".

Iza Souza, ativista local que vem denunciando o apartheid social em Trancoso há tempos, questiona abertamente: "A mando de quem?" essa barreira foi erguida. O post, com tom crítico e reflexivo, ganhou repercussão rápida, com centenas de interações, comentários de apoio e indignação de outros moradores e seguidores, reforçando a percepção de exclusão e gentrificação.

Manifestação marcada

Em resposta à polêmica, moradores e lideranças convocaram uma manifestação para o dia 8 de fevereiro, a partir das 8h. O ato terá concentração na Praça da Independência, seguido de caminhada até o Quadrado, exigindo o direito de ir e vir, respeito à cultura local e valorização do povo nativo. O objetivo é pressionar pela revisão da restrição e maior inclusão da comunidade.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia



compartilhe