memória apagada

Não se engane: Boipeba pode deixar de ser um paraíso acessível em breve

Antigo quilombo na Bahia é outra localidade preta como Lavras Novas (MG) e Trancoso (BA) que está sob ameaça de apagamento de sua história

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No Brasil, as comunidades quilombolas representam uma herança viva de resistência à escravidão colonial, com raízes que remontam aos séculos 16 e 17. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, o país abriga cerca de 1,32 milhão de quilombolas, em 8.441 quilombos, distribuídos por 1.696 municípios, o que corresponde a 0,65% da população total. No entanto, essa rica tapeçaria cultural está sob ameaça constante: mais de 98% desses territórios enfrentam riscos graves, incluindo desmatamento, degradação florestal, incêndios e invasões territoriais.

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Uma pesquisa recente revela que quase 60% dessas comunidades sofrem com invasões e garimpo ilegal, exacerbando desigualdades históricas. Entre as pressões mais insidiosas está a exploração turística, que, sob o pretexto de desenvolvimento econômico, promove gentrificação, expulsão de moradores e apagamento cultural. Exemplos emblemáticos são Trancoso, na Bahia, e Lavras Novas, em Minas Gerais, onde o "boom" do turismo transforma territórios ancestrais em playgrounds para elites, à custa da identidade afro-brasileira.



300 anos à beira do abismo

Praia do Moreré (BA): Localizada em Boipeba, é acessível por barco e tem águas rasas e calmas, sendo um refúgio paradisíaco para quem quer relaxar.
Praia do Moreré (BA): Localizada em Boipeba, é acessível por barco e tem águas rasas e calmas, sendo um refúgio paradisíaco para quem quer relaxar. Reprodução Youtube


A Ilha de Boipeba, no município de Cairu, Sul da Bahia, emerge como um dos casos mais críticos de quilombos ameaçados pela exploração turística descontrolada no Brasil. Certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 2023 (com reconhecimento para comunidades como Vila de Boipeba, Moreré, Monte Alegre e Cova da Onça), a ilha exemplifica como o turismo de luxo, aliado à especulação imobiliária, reproduz dinâmicas coloniais de exclusão, grilagem e violação de direitos territoriais ancestrais.

Enquanto Trancoso e Lavras Novas sofrem processos semelhantes de gentrificação, Boipeba destaca-se pela escala de megaempreendimentos e pela resistência ativa das comunidades quilombolas e tradicionais, que dependem da pesca artesanal, extrativismo de mangaba, mariscos e agricultura de subsistência.

Sequelas pós-pandemia

A Ilha de Boipeba, parte do Arquipélago de Tinharé, preserva uma herança quilombola ligada a fugas de escravizados nos séculos 17 e 18, com comunidades que mantêm modos de vida coletivos em meio a manguezais, restingas e praias intocadas. Até os anos 2010, era um destino alternativo, menos massificado que o vizinho Morro de São Paulo.

No entanto, a partir de 2020, o avanço de projetos turísticos-imobiliários transformou a realidade: cercas, guaritas e bloqueios impedem o acesso a praias, trilhas e mangues — espaços essenciais para a subsistência e a cultura local.

O principal foco de conflito é o projeto “Encantos de Boipeba”, da empresa Perville Engenharia e Empreendimentos, que planeja ocupar cerca de 227 hectares (aproximadamente 3% da ilha), incluindo áreas em Moreré, Tacimirim, Pedra de Santa Luzia e Coeira. O complexo inclui pousadas, residências de alto padrão e infraestrutura que ameaça rotas tradicionais de pesca e extrativismo.

O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) concedeu licença prévia em 2020, mas o Ministério Público Federal (MPF) denunciou irregularidades gravíssimas: grilagem em terras da União, degradação ambiental em áreas de preservação permanente e violação da Convenção 169 da OIT, que exige consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas. Moradores relatam pressões de empresários e até de servidores do Inema para aceitarem os projetos, ignorando direitos quilombolas.

Outro empreendimento polêmico, inicialmente ligado a interesses da família Marinho (dona da Globo), previa um resort em Ponta dos Castelhanos ocupando até 20% da ilha, com pousadas, marina, campo de golfe e pista de pouso. Embora parte do projeto tenha sido suspensa pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) em 2023, megaempreendimentos semelhantes persistem, com aprovações do Inema em 2023 para iniciativas correlatas. Relatos de 2025 apontam aumento de 265% na população flutuante, 260% no volume de lixo, desmatamento, queimadas e contaminação de rios, agravando a vulnerabilidade das comunidades.

A especulação imobiliária bloqueia 20 km de litoral, expulsando moradores para periferias e elevando custos de vida, enquanto os benefícios econômicos concentram-se em investidores externos. Estudos acadêmicos destacam a “colonialidade do poder” no Baixo Sul da Bahia: o turismo commoditiza territórios negros, reproduzindo exclusão histórica. Em 2025, reportagens da Agência Pública e Mongabay descreveram cercas da Perville como grilagem explícita, com o MPF cobrando revogação de licenças.

Comparação com outros casos 

Assim como em Trancoso (onde o Quadrado virou vitrine de luxo, expulsando nativos) e Lavras Novas (com superlotação, poluição e pousadas majoritariamente externas), Boipeba ilustra o turismo como ferramenta de gentrificação. No entanto, destaca-se pela resistência: a certificação quilombola de 2023 fortaleceu ações judiciais e denúncias, com apoio do MPF, Defensoria Pública e organizações como o Conselho Pastoral dos Pescadores. Nacionalmente, mais de 98% dos territórios quilombolas enfrentam riscos (incluindo invasões e grilagem), e o turismo sem regulação agrava desigualdades — especialmente onde 90% das comunidades carecem de saneamento básico.

Urgência de mudança

Boipeba não é exceção, mas alerta: o turismo de luxo, sob o manto de “desenvolvimento”, ameaça a existência de quilombos ao priorizar lucros sobre direitos ancestrais. Modelos de turismo comunitário, com protagonismo local e distribuição equitativa de renda, são viáveis — como em alguns roteiros de Moreré —, mas exigem regularização fundiária urgente, revogação de licenças irregulares e consulta real às comunidades. Sem isso, ilhas como Boipeba correm o risco de se tornarem “paraísos privatizados”, apagando a resistência quilombola que as define. A luta em Boipeba é emblemática: preservar esses territórios é preservar a memória afro-brasileira contra a nova colonização disfarçada de progresso.




Trancoso: de quilombo à vitrine de luxo

Bem no coração do Quadrado, em Trancoso, situa-se a Igreja de São João, construída em 1656
Bem no coração do Quadrado, em Trancoso, situa-se a Igreja de São João, construída em 1656 MÁRCIO FILHO/Mtur Destinos

Trancoso, distrito de Porto Seguro, na Bahia, surgiu no século XVI como um aldeamento jesuíta, mas sua essência remete aos quilombos formados por escravos fugitivos que resistiam à opressão colonial. Até os anos 1970, era uma vila de pescadores nativos, marcada por sincretismo religioso, festas comunitárias como as puxadas de mastro, tambores e partilhas no Quadrado — um espaço de convivência com rezadeiras, parteiras e famílias locais. No entanto, a partir dos anos 1980, o influxo de hippies, artistas e investidores desencadeou um processo de especulação imobiliária e gentrificação, transformando o local em um destino de luxo.

O impacto é devastador: nativos foram expulsos, casas simples vendidas como ativos premium, e o Quadrado — outrora coração comunitário — virou uma vitrine com lojas de grife, restaurantes caros e hotéis exclusivos. A igreja, centro espiritual quilombola, agora serve de cenário para casamentos badalados, enquanto a herança africana é invisibilizada em nome do "desenvolvimento". Como descreve a cozinheira e pesquisadora Iza Souza, Trancoso foi "higienizado, branqueado e arrancado de quem o fez existir", perdendo o cheiro de comida caseira, o som dos tambores e o senso de pertencimento.

Economicamente, o turismo beneficia poucos: em 2025-2026, celebridades como Virginia Fonseca, Vini Jr. e Shawn Mendes lotaram festas em locais como Taípe e Ayumar, com o aeroporto privado de Terravista sobrecarregado por jatinhos particulares. Mas o dinheiro flui para elites externas, agravando desigualdades — sem dados precisos de crescimento turístico local, estima-se que o setor de luxo exclui 90% da população original, empurrando quilombolas para periferias.

Essa "higienização" não é isolada: comunidades quilombolas na Bahia enfrentam violência, ameaças de grileiros e pressão imobiliária, com territórios visados por complexos turísticos-hoteleiros que minimizam impactos ambientais e culturais. Em Boipeba, por exemplo, moradores relatam coação de empresários para instalar hotéis em áreas tradicionais. O resultado é um apagamento cultural que commoditiza a memória quilombola, transformando resistência em espetáculo para turistas endinheirados.

Lavras Novas: o turismo que expulsa e degrada

Lavras Novas é um pequeno vilarejo, acolhedor e com um charme que se perde quando as ruas ficam cheias de carros
Lavras Novas é um pequeno vilarejo, acolhedor e com um charme que se perde quando as ruas ficam cheias de carros Tulio Santos/EM/D.A Press

Em Minas Gerais, Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, segue um roteiro similar. Fundado como quilombo no século XVIII, preserva uma herança afro-brasileira de solidariedade comunitária, festas religiosas e arquitetura em adobe. Com população de cerca de 1.500 habitantes — 90% negros —, o vilarejo era um refúgio sereno até o boom turístico nos anos 1990, impulsionado pelo ecoturismo e proximidade com Belo Horizonte (120 km).

Hoje, o hype turístico causa superlotação em fins de semana e feriados, com congestionamentos, falta de água e energia, e reclamações em redes sociais sobre lotação excessiva (como em junho de 2025). Os impactos ambientais são alarmantes: poluição sonora, contaminação de rios e cachoeiras por esgoto, desmatamento e aumento de lixo, identificados em estudos como 10 problemas ambientais causados pelo ecoturismo no setor urbanizado. Socialmente, há delinquência, consumo de drogas e conflitos entre locais e turistas, com jovens adotando modas urbanas que chocam a comunidade conservadora.

A gentrificação é o cerne da crítica: especulação imobiliária expulsa residentes, com apenas quatro das 40 pousadas pertencendo a nativos — a maioria dos lucros vai para investidores externos. Festas tradicionais, como a da Padroeira, viram mercadoria, e construções modernas descaracterizam o patrimônio. Estudos apontam hibridização cultural e perda de autenticidade, reproduzindo mazelas urbanas no rural. Em Minas, quilombos como Lavras Novas enfrentam criminalização e conflitos fundiários, com 98% dos territórios ameaçados nacionalmente.

Necessidade de regulação

O turismo rural atrai 74% dos visitantes pela proximidade com a natureza, segundo pesquisa do Ministério do Turismo, mas em quilombos, ele vira ferramenta de exclusão. Embora gere empregos, os impactos negativos — mercantilização cultural, deslocamentos e degradação — superam benefícios, especialmente sem planejamento sustentável. No Brasil, onde 90% das comunidades quilombolas carecem de saneamento básico, o turismo agrava precariedades, priorizando elites sobre direitos territoriais.

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Para reverter isso, urge políticas que priorizem o turismo de base comunitária, com protagonismo quilombola, preservação cultural e distribuição equitativa de renda. Caso contrário, territórios como Trancoso e Lavras Novas continuarão a ser "higienizados", apagando a resistência que os define. A exploração turística não pode ser sinônimo de colonização moderna — é hora de reconhecer que o verdadeiro valor desses quilombos está em sua gente, não em selfies de luxo.

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