Búzios repete caos de Guarapari: esgoto transborda e afasta mineiros
Após chuvas rápidas, dejetos contaminam o mar na Praia do Canto, expondo falhas crônicas em saneamento que transformam o paraíso turístico em risco
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Búzios, o famoso balneário no litoral do Rio de Janeiro, está vivendo um verdadeiro caos que afeta diretamente os turistas, especialmente os vindos de Minas Gerais, em um cenário que ecoa o recente alagamento em Guarapari, no Espírito Santo. Um vídeo publicado no Instagram pelo perfil @mayfelixbr denuncia a rotina de horror que se repete a cada chuva: em poucos minutos de precipitação, o esgoto transborda nas ruas da Praia do Canto, correndo diretamente para o mar e contaminando as águas cristalinas que atraem visitantes de todo o país.
O conteúdo do Reels é contundente e não deixa margem para dúvidas. Com texto na tela que narra o problema, o vídeo destaca que isso "não é exceção, é rotina". Quando a chuva cai, o esgoto aparece, poluindo o oceano, ameaçando a saúde de moradores e turistas, e destruindo a reputação de Búzios como destino paradisíaco. O narrador virtual enfatiza que o problema não é um "fenômeno natural", mas sim resultado de uma flagrante falta de saneamento básico, manutenção inadequada e responsabilidade por parte das autoridades municipais. "Quem paga essa conta não é quem lucra com a cidade. É o morador. É o trabalhador. É quem vive aqui", afirma o texto, apontando o dedo para os interesses econômicos que priorizam o turismo de luxo em detrimento da infraestrutura essencial.
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Pesadelo para os mineiros
Essa crítica ganha ainda mais peso quando comparada ao que ocorreu em Guarapari, onde alagamentos recentes causados por chuvas intensas transformaram ruas em rios de lama e esgoto, forçando turistas mineiros – que representam uma fatia significativa dos visitantes durante a alta temporada – a abandonarem hotéis e praias inundadas. Em Búzios, o padrão se repete: turistas de Minas Gerais, que viajam horas em busca de descanso e lazer, acabam confrontados com cenas de insalubridade que vão além do desconforto, representando riscos reais de doenças como hepatite e infecções gastrointestinais devido à contaminação das águas.
Os comentários no vídeo reforçam a indignação coletiva. Usuários lamentam a inação dos vereadores, a ausência de estações de tratamento de esgoto e os altos custos de vida em uma cidade que não oferece serviços básicos. Há quem ironize a proposta de taxa de entrada para turistas em um lugar sem saneamento decente, e outros sugerem que Búzios seria melhor administrado se voltasse a fazer parte de Cabo Frio. Frases como "Búzios sem governo" ou "abandonada" pintam um quadro de negligência sistemática, onde o glamour das praias esconde uma realidade podre.
Até quando essa normalização do caos será tolerada? A prefeitura de Búzios precisa urgentemente investir em infraestrutura de saneamento para evitar que o destino se torne sinônimo de decepção. Enquanto isso, turistas mineiros, já traumatizados pelo episódio de Guarapari, pensam duas vezes antes de escolher Búzios como refúgio. O vídeo serve como um alerta: sem ação imediata, o que era paraíso pode virar pesadelo permanente, prejudicando não só a saúde pública, mas também a economia local dependente do turismo.
Problema recorrente
Uma moradora de Búzios, que prefere não se identificar, conta que esse é um problema recorrente, que acontece sempre nos mesmos lugares, justamente por falta de estrutura eficiente de saneamento básico. "Quando os navios chegam, alteram a intensidade do mar. Quem mora aqui diz que eles agridem a praia, deixam o mar nervoso. Com chuva, a situação piora", relata, sobre o que muitas vezes causa os rompimentos na rede de esgoto, geralmente nos mesmos pontos.
A moradora conta que a prefeitura é acionada por grupos ligados ao meio ambiente, por exemplo, para que tome providências, o que não surte ações concretas. No caso do problema na última terça-feira, no entanto, os reparos aconteceram rapidamente, o que ela atribui à presença de turistas na cidade em dias de alta temporada. "Na quarta-feira já estava tudo resolvido. A Prefeitura agiu rápido, mas não pela população."
Saneamento básico
O professor Marcus Vinícius Meilman (conhecido como Prof. Marcão nas redes), físico, especialista em questões do ENEM, perito judicial ambiental e gestor de convênios federais, publicou um reels no Instagram que tem gerado reflexão sobre um tema crítico para o Brasil: o saneamento ambiental básico e sua ligação direta com a dignidade humana, a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico sustentável.
No vídeo, o professor destaca a importância do acesso universal aos serviços de saneamento (tratamento de esgoto, coleta de lixo, abastecimento de água de qualidade etc.) em um contexto tropical como o das cidades brasileiras. O professor faz uma reflexão sobre o rompimento do esgoto a Praia do Canto em Búzios, na última quarta-feira (20/1): "O acesso aos serviços de saneamento ambiental, não só compõe um direito à dignidade da vida humana, mas também é o que garante a preservação dos biomas de nossas cidades. Sem leis que obriguem as empresas a implementarem os sistemas corretos para o clima tropical de nossas cidades, vamos continuar poluindo rios, lagos e praias. Sem atrativos turísticos preservados, a economia ligada ao turismo atrofia e o desenvolvimento econômico desaparece."
Por que o saneamento é mais do que "encanamento"?
Marcus Vinícius argumenta que o saneamento básico vai muito além de uma questão de infraestrutura urbana. Ele representa:
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Um direito humano fundamental ligado à dignidade e à saúde pública;
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Um pilar ambiental a ausência de tratamento adequado de esgoto e resíduos continua sendo uma das principais causas de contaminação de corpos d'água no Brasil, afetando biomas inteiros dentro e ao redor das cidades;
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Um fator econômico decisivo praias, rios e lagoas poluídos afastam turistas, destroem cadeias produtivas do turismo e comprometem o desenvolvimento local a longo prazo.
O professor critica a falta de regulamentação e fiscalização rigorosas que obriguem concessionárias e empresas do setor a adotarem tecnologias e práticas adequadas ao clima tropical úmido brasileiro — condição que acelera a proliferação de bactérias, a corrosão de tubulações e a eutrofização de rios e lagoas quando o tratamento é precário ou inexistente.
Apesar de Búzios ser um destino premium, a Praia do Canto sofre com problemas crônicos de saneamento:
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Sempre que há chuvas intensas (mesmo que curtas), a rede de esgoto transborda, espalhando dejetos, água preta com forte mau cheiro e poluição diretamente na faixa de areia e no mar. Isso ocorreu repetidamente em 2025, incluindo episódios em novembro (com vídeos mostrando "língua negra" de esgoto invadindo o mar) e relatos recentes de extravasamentos próximos ao píer.
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Moradores, comerciantes e turistas relatam que o problema é antigo, se arrasta há décadas e se repete em dias de chuva, expondo falhas graves na drenagem pluvial e no sistema de esgotamento sanitário da região central.
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A concessionária responsável pelo saneamento (mencionada em notas oficiais) alega que o sistema de esgoto opera normalmente e atribui parte dos transtornos à drenagem pluvial (responsabilidade municipal), mas a realidade mostra esgoto misturado chegando à praia.
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Boletins do INEA (Instituto Estadual do Ambiente) já indicaram períodos em que a Praia do Canto ficou imprópria para banho, junto com outras praias buzianas (como Armação, Ossos, João Fernandes e Ferradura). Embora haja momentos de recuperação (com análises independentes, como do laboratório Oceanus, atestando balneabilidade em alguns períodos de 2025), o histórico de contaminação por esgoto compromete a atratividade turística e gera indignação recorrente.
O que diz a prefeitura de Búzios?
"Em razão das fortes chuvas registradas nesta terça-feira, dia 20 de janeiro, quando o município de Búzios contabilizou cerca de 30 milímetros de precipitação em um intervalo de seis horas, foram registrados pontos de extravasamento do sistema de drenagem, com presença de água de coloração escura em áreas próximas à orla.
Diante de vídeos que circulam nas redes sociais associando a situação à presença de esgoto, o município esclarece que não se trata, necessariamente, de lançamento de esgoto sanitário.
A cidade utiliza o sistema de esgotamento por tempo seco, modelo implantado na Região dos Lagos na década de 1990. Esse sistema, em períodos sem chuva, realiza a captação e direcionamento de resíduos. No entanto, durante episódios de chuvas intensas, como o ocorrido nesta terça-feira, o sistema pode sofrer extravasamento momentâneo, ocasionando o carreamento de água acumulada, resíduos sólidos, matéria orgânica e sujeira retida nas galerias.
Esse processo pode provocar alteração na coloração da água e odor característico, decorrentes do acúmulo de resíduos no próprio sistema, e não da comprovação de despejo irregular de esgoto.
Desde as primeiras informações, equipes técnicas do município estiveram nos locais para verificação e coleta de amostras, com o objetivo de analisar a situação e confirmar a origem do material observado.
O município reforça que mantém atuação contínua e rigorosa no combate ao lançamento irregular de esgoto, por meio da Operação Esgoto Zero, com fiscalizações permanentes, identificação de ligações clandestinas e adoção de medidas firmes contra práticas ilegais que prejudiquem o meio ambiente.
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A Prefeitura de Búzios segue monitorando a situação, atuando de forma preventiva e reafirmando seu compromisso com a preservação ambiental, a saúde pública e a transparência das informações."